Três mapas que ajudam a explicar a crise da água em São Paulo

Por Andrew Maddocks, Tien Shiao, Sarah Alix Mann, publicado originalmente no site do World Resources Institute.

São Paulo enfrenta uma seca tão grave que poderá ficar sem água, e é apenas uma de muitas cidades populosas do Brasil sob risco significante de secas nos próximos anos. (Foto: Martha Slivak/Flickr)

A pior seca dos últimos 80 anos que está atingindo São Paulo e Estados próximos está causando impactos para a população local. Desde o final de outubro, os principais reservatórios estão com capacidade inferior ao equivalente a duas semanas de abastecimento de água potável. Escolas e hospitais estão fechando mais cedo, louças permanecem sujas nas pias, e restaurantes estão mantendo clientes longe dos banheiros. A redução significativa da produção agrícola é de grande preocupação e, uma vez que 50% da energia elétrica do Brasil provêm de hidroelétricas, os cortes de energia são iminentes. O presidente da Agência Nacional das Águas (ANA) alertou que, se a seca continuar, o Estado enfrentará “um colapso como nunca visto antes”.

O Brasil possui uma quantidade de água doce maior do que qualquer outro país no mundo – 12% do volume total de todo planeta. Então, como São Paulo – a maior e mais rica cidade da América do Sul – está ficando sem água? Três mapas ajudam a contar essa complexa história.

1: É UMA QUESTÃO DE DISTRIBUIÇÃO E GESTÃO

Mapa: World Resources Institute

Os recursos hídricos e a população do Brasil estão distribuídos de forma desigual. A bacia do rio Amazonas contém mais de 50% das águas do país, mas concentra apenas 4% de sua população. Cerca de 80% dos brasileiros vivem em megacidades ao leste brasileiro, como São Paulo e Rio de Janeiro, e dependem de bacias hidrográficas locais. Muitas dessas cidades estão sob estresse hídrico devido ao seu rápido crescimento e desenvolvimento.

O projeto Aqueduct do WRI analisou recentemente o riscos de estresse hídrico do país. Cerca de 45% de toda população residente em grandes cidades do Brasil enfrenta riscos médios a extremos de estresse hídrico. Isso significa que, dependendo da localização, 80% da água naturalmente disponível para agricultura, uso doméstico e industrial é retirada anualmente, deixando empresas, fazendas e comunidades vulneráveis à escassez.

Baseado nessa relação entre a oferta e demanda em um ano típico, São Paulo enfrenta risco baixo a médio de estresse hídrico. Mas este está longe de ser um ano típico. Atualmente, no auge de uma seca épica, São Paulo se encontra diante de uma série de falhas na gestão dos recursos hídricos disponíveis para a região metropolitana, dificultando sua capacidade de adaptação a essas condições extremas, de acordo com pesquisadores brasileiros. São Paulo demonstra o quão desestabilizadora uma seca pode ser, mesmo em áreas com baixo risco, sem uma gestão adequada. Portanto, outras cidades em situação de maior risco podem estar em um momento ainda mais grave.

 2: É UMA QUESTÃO DE VARIABILIDADE

 

A oferta de água para abastecimento pode variar significativamente de estação para estação e de ano para ano no Brasil. Na maior parte do país há estações extremas de seca ou chuvas, um fenômeno chamado de alta variabilidade sazonal. O nordeste do Brasil passa por oscilações consideráveis do total médio disponível para abastecimento de água ano a ano – denominado alta variabilidade interanual.

A seca que ocorre no sudeste do Brasil demonstra como uma grande redução de oferta pode ser prejudicial ao longo de um ano. Iniciou-se no último verão, entre dezembro de 2013 e fevereiro de 2014, os meses mais chuvosos historicamente. De acordo com o Observatório da Terra/NASA, a região recebeu apenas metade da quantidade normal de chuva. Nos oito meses seguintes, a precipitação manteve-se 60% abaixo dos níveis normais. Existe uma preocupação entre especialistas brasileiros de que a variabilidade interanual pode estar aumentando no sul e sudeste do país devido ao intenso desmatamento na Amazônia. (Veja abaixo)

Nos locais onde a variabilidade é alta, é importante estocar água doce em reservatórios superficiais e subterrâneos durante os períodos úmidos para sustentar empresas, fazendas e a população durante os períodos secos. A cidade de São Paulo depende, entre outros reservatórios, do Sistema Cantareira. Tratam-se de seis reservatórios ligados por 48 km de túneis e canais que fornecem água para metade da população na área metropolitana. A Sabesp, Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo, reportou no dia 23 de outubro deste ano que o Sistema Cantareira reduziu para 3% a 5% de sua capacidade total. Neste momento, o bombeamento de água acontece abaixo dos tubos de admissão dos reservatórios.

3: É UMA QUESTÃO DE DESMATAMENTO

Um consenso está sendo construído entre especialistas de que o desmatamento é a principal razão para a seca deste ano e outros períodos de seca grave no Brasil. Em 2009, Antonio Nobre, cientista do Centro de Ciência do Sistema Terrestre – CCST/INPE, advertiu que o desmatamento na Amazônia poderia interferir na função da floresta de uma bomba de água gigante; ela gera grandes quantidades de umidade no ar, que, em seguida circulam no oeste e sul, caindo como chuva para irrigar as regiões central e sul do Brasil. Sem esses “rios voadores”, disse Nobre, a área responsável por 70% do PIB da América do Sul poderia se tornar efetivamente deserto.

Nos últimos anos, o Brasil tem sido exaltado pelos esforços em reduzir o desmatamento – a taxa média reduziu 70% entre 2005 e 2014. Entretanto, o desmatamento no Brasil saltou no último período registrado oficialmente, entre agosto de 2012 e julho de 2013, marcando o primeiro aumento desde 2008. Análises feitas por satélites pelo Imazon, uma ONG brasileira, indicam um aumento de 190% na perda de floresta nos meses de agosto e setembro deste ano comparado ao ano anterior. Veja a animação abaixo, que demonstra a perda de cobertura florestal equivalente a uma área cinco vezes o tamanho da cidade de Nova York.

De acordo com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em janeiro e fevereiro deste ano, quando é comum chover abundantemente nas regiões central e sudeste do Brasil, os “rios voadores” não fluíram para o sul. A animação dos alertas sobre a perda de cobertura florestal do Global Forest Watch (GFW) é apenas ilustrativa. As teorias científicas  de como tal situação afeta a “bomba hidrológica” da Amazônia são ainda emergentes, e uma análise mais profunda é necessária para determinar como o tempo e a localização da perda de floresta afetam a precipitação em outros lugares. O projeto Rios Voadores, um esforço do Dr. Nobre e outros cientistas brasileiros para quantificar as dinâmicas hídricas da atmosfera e sua relação com as florestas no Brasil, fornecem dados mais robustos sobre o assunto, incluindo a disponibilização de mapas históricos e em tempo real das correntes de ar e vapor na região.

A NECESSIDADE DE AGIR

Os efeitos da seca no Brasil serão complexos. E a efetividade da gestão de água no país vai impactar profundamente os setores energético, agropecuário e industrial, assim como sua população crescente. A emergência em São Paulo é um exemplo de como pode ser perigosa a mudança no abastecimento de água, mesmo em um local onde os riscos de estresse hídrico são baixos ou medianos em anos normais. Tomadores de decisões em todo país devem aprender com as lições desta seca aumentando a eficiência no uso e a capacidade de armazenamento de água.

Entidades do terceiro setor, ativistas e lideranças reagiram na semana passada.. Especialistas de algumas organizações, incluindo o WRI, formaram a Aliança pela Água, a qual propõe uma série de medidas de curto e médio prazo para adaptação frente à atual crise e prevenção para futuras emergências. O WRI também trabalha com a IUCN, o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica (Pacto), representantes de governos e lideranças da sociedade civil na construção de estratégias de restauração florestal para resgate da capacidade da natureza em prestar serviços ambientais, onde são mais necessários, como no caso das bacias hidrográficas que abastecem São Paulo.

Na medida em que os impactos da seca aumentam no país, fica claro que há muito trabalho a fazer. Tomadores de decisão no país precisam aprender com as lições dessa seca e aumentar a eficiência no uso e gestão dos recursos hídricos, incrementar capacidade dos reservatórios e zerar o desmatamento na Amazônia.

Rachel Biderman, Diretora Executiva do WRI Brasil, contribuiu com este artigo.