Evolução e excelência dos sistemas BRT em debate no Rio

Painelistas dessa manhã no Etransport. (Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil)

A rápida ascensão do nível de motorização nas cidades mira para um horizonte de mais congestionamentos, poluição do ar e baixa produtividade. Cientes da necessidade de frear esse crescimento tóxico à vida urbana, diversas cidades europeias apostam na qualidade de serviço para fazer com que mais pessoas deixem seus carros e passem a usar o transporte coletivo. Desenvolveu-se, assim, o BHLS – Bus with High Level of Service, conceito apresentado na manhã desta sexta-feira (7) por Daniela Facchini, diretora de Projetos e Operações da EMBARQ Brasil (produtora deste blog), durante o último dia do 16º Etransport, no Rio de Janeiro.

A especialista participou do painel “Excelência no transporte: BRT – Melhores Práticas” ao lado de Juan Carlos Muñoz, diretor do Centro de Excelência em BRT; Michael Schipper, diretor de Engenharia e Projetos da (Regional Transit Authority) Cleveland (EUA); e Marco Priego, coordenador de Sistemas Integrados de Transportes, CTS EMBARQ México. A mediação foi feita por Carlos Maiolino, Subsecretário de Transportes do Rio.

Ao mostrar os dados recentes do BRTdata.org, Daniela apontou a ascensão de sistemas que estão dando passagem prioritária ao ônibus no mundo. Já são 186 cidades com 374 corredores que juntos somam 4.757 km de faixas de priorização ao transporte coletivo sobre pneus. A diferença entre eles, porém, são os diferentes níveis de demanda. Os sistemas europeus e norte-americanos priorizam o conforto e outras características para atrair usuários do automóvel. Já os sistemas na América Latina e países asiáticos, como a China, têm o foco em suprir a necessidade de altíssimas demandas. “O BHLS não é um sistema indicado para altas demandas, seu foco é na qualidade do serviço. Por isso, em casos de alta demanda, é indicado como um sistema secundário, que complemente o BRT”, explica Daniela.

Dados e características do BHLS apresentados por Daniela Facchini. (Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil)

Algumas características que identificam o BHLS, de acordo com a especialista, são: faixa ou segregação de prioridade ao ônibus, integração com outros modais, estações próximas uma das outras, priorização semafórica em interseções, informação ao usuário, centro de controle operacional e identidade clara. Outros diferenciais do sistema podem ser serviço de wi-fi abordo e tomadas para recarregar smartphones e notebooks, assentos de couro, televisão, e os “caminhos verdes”, com urbanismo agradável ao longo do corredor.

As mudanças têm tido resultados expressivos na Europa. “Algumas cidades conseguiram atrair até 30% dos usuários de carros para o sistema BHLS”, aponta Daniela. A receita de sucesso chama a atenção do mundo. Aqui no Brasil, Niterói será a primeira cidade a desenvolver o conceito em seu sistema de transporte público, com o projeto já anunciado da Transoceânica.

Rio de Janeiro já colhe frutos com BRT

O mediador da sessão e Subsecretário de Transportes do Rio, Carlos Maiolino, apresentou o caso do BRT carioca, iniciado em 2012 com a inauguração do Transoeste, corredor que liga a Barra à Santa Cruz, e fortalecido com o recente Transcarioca. “Já conseguimos reduzir em 52% o tempo de viagem no trecho do Terminal Alvorada à Santa Cruz. Antes, em horário de pico, as pessoas levavam cerca de 1 hora e 40 minutos para completar o trajeto, hoje gasta-se 48 minutos”, comemora Maiolino.

Maiolino durante conferência, no Rio. (Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil)

O subsecretário exaltou também a importância da transversalidade do Transcarioca que está conectando bairros bastante densos a pontos estratégicos da cidade e a outros modais de transporte. De acordo com o subsecretário, no trajeto entre Madureira e Alvorada, já houve uma redução de 65% do tempo de viagem em hora-pico.

Para completar a rede BRT, estão em andamento as obras do Transolímpica e Transbrasil. No total, 107 bairros serão atendidos pela rede de transporte de alta capacidade da Cidade Maravilhosa até 2016. Isso significa um benefício direto a cerca de 2,5 milhões de habitantes.

Ônibus com serviço de metrô. É possível?

O diretor do Centro de Excelência em BRT, Juan Carlos Muñoz, provocou a todos e respondeu: sim. “Mas é preciso manter as características que tornam o BRT eficiente”, frisa o especialista. As principais delas são:

• Rapidez
• Baixo tempo de espera
• Conforto
• Confiabilidade
• Boa informação ao cliente
• Identidade clara

Para alcançar esses objetivos é preciso pensar o sistema de maneira ampla, considerando as estações de maior demanda por meio de simulações prévias. Para o especialista, os benefícios da simulação passam pela racionalização da operação, com intervalos mais regulares e clientes mais satisfeitos.

Juan Carlos Muñoz. (Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil)

Outra ferramenta que auxilia a manter um desempenho operacional satisfatório do sistema é o uso de controles informativos internos aos motoristas. “No painel do ônibus há indicação do tempo que precisa cumprir e a velocidade necessária para atingir o objetivo”, explica Muñoz. O especialista finalizou sua apresentação também comemorando a ascensão da priorização do ônibus em diversas cidades pelo mundo, mapeada por meio do BRTdata.org.

Experiência de Cleveland: o sucesso da Healthline

Em operação desde 2008, a Healthline, em Cleveland (EUA), é uma das referências em qualidade de serviço em BRT. Michael Schipper, diretor de Engenharia e Projetos da RTA – Regional Transit Authority, apresentou a experiência durante o painel. Localizada em uma das avenidas mais tradicionais da cidade, a Euclid Avenue, o projeto possibilitou uma transformação completa no entorno da linha.

Schipper. (Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil)

No total, foram gastos US$ 200 milhões nas obras e, após seis anos, houve um desenvolvimento de U$ 6,3 bilhões de investimentos até agora. Isso porque o sistema fomentou a renovação de todo entorno na área hospitalar, universidades, prédios públicos e até mesmo residenciais. A linha recebe ajuda de custo de dois dos principais hospitais da cidade e que estão na rota do BRT. “Com esse dinheiro, limpamos as estações, mantemos os ônibus organizados e as pessoas ficam ainda mais satisfeitas”.

Atualmente, o sistema serve a 200 mil pessoas por semana, em 7,2 km de extensão e com integração total a outros modos de transporte como o serviço regular de ônibus e trem urbano.

Ações de segurança para qualificar o sistema

O transporte e o desenvolvimento urbano sustentáveis têm o poder de salvar vidas. São mudanças de cultura e de infraestrutura que priorizam o pedestre e meios não motorizados de deslocamento, reduzem a velocidade média dos veículos a motor e oportunizam mudanças que devolvem o espaço urbano às pessoas. “Mas isso ocorre apenas se as mudanças forem bem implementados e de acordo com as necessidades locais”, frisa Marco Priego, coordenador de Sistemas Integrados de Transportes, CTS EMBARQ México.

Marco Priego chamou atenção para aspectos de segurança viária em projetos BRT. (Foto: Mariana Gil / EMBARQ Brasil)

O especialista apontou a importância das auditorias de segurança viária para qualificar o projeto BRT e salvar vidas. Na Cidade do México, seu principal local de atuação, foram implementadas 70% das recomendações de auditoria propostas pela EMBARQ México ao BRT Metrobús. “As pesquisas mostram: com a implementação do BRT houve uma queda de 41% no número de incidentes viários”, comemora Priego.

O centro mexicano também desenvolveu o projeto Safety First, um treinamento com 128 motoristas do BRT, com aulas teóricas e práticas para qualificar o serviço, com enfoque especial à segurança dos usuários. Os motoristas treinados multiplicaram os conhecimentos adquiridos a mais de 1000 motoristas do sistema.

Atualmente, o Metrobús tem 81% de satisfação dos usuários.

 

O 16º Etransport foi realizado pela Fetranspor entre os dias 5 a 7 de novembro no Rio de Janeiro. A EMBARQ Brasil foi apoiadora do evento. Veja os detalhes dessa edição: http://www.etransport.com.br/