Automóvel 13×1 Transporte Coletivo

Quando analisamos os dois tipos – transporte individual motorizado e o transporte coletivo – sob o ponto de vista do marketing, o carro é o vencedor. Mas e na vida real, quem ganha esse jogo? (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

Parece que o pesadelo de placares do jogo Brasil X Alemanha na Copa do Mundo de 2014 também está presente em outras áreas no Brasil. No cenário da mobilidade urbana, por exemplo, percebemos claramente isso, pois, infelizmente, o glamour do automóvel ainda é indiscutivelmente referência se comparado ao transporte coletivo.

Muito tem sido feito pelos governos para modificar essa realidade: priorização do Transporte Público na definição das políticas sociais e de planejamento, investimento em BRTs, VLTs, ciclovias, calçadas, integração tarifária, qualificação do operador e muito mais. Mas na hora de apresentar esse universo para a sociedade e, sobretudo, na hora de vendê-lo para a sociedade, é que a construção da imagem do transporte coletivo patina; o que não acontece na indústria automobilística.

O principal ponto está na disponibilização de recursos financeiros para isso. É uma luta muito desigual, infelizmente. Quem vende o Transporte Coletivo como um bem para a as pessoas e para as cidades são os governos, que nem sempre contam com recursos financeiros suficientes para “fazer propaganda do seu produto/serviço”. Já quem vende o transporte individual, notadamente o automóvel, é a iniciativa privada, que tem gigantescos recursos financeiros para fazer a sua propaganda.

Somente para ilustrar, vi recentemente dois cases excelentes relacionados ao transporte coletivo. Um deles é a campanha “Alimentando Amizades” da agência de publicidade Mark+ que desenvolveu na cidade de Pelotas (RS) uma ação de assentos destinados a essa finalidade. Inspirados nos adesivos de identificação de lugar preferencial, os adesivos dessa campanha convidam as pessoas para saírem do isolamento dos jogos ou das redes, às vezes nada sociais, e interagirem com outras pessoas. Assista abaixo:

 

Outro case foi a campanha desenvolvida pela agência Rae,MP da campanha “Ônibus queimado não vai a lugar nenhum” numa ação de mobilização contra os episódios de ônibus incendiados em São Paulo. Criativa demais. Idéia legal. Muito bacana. Confira abaixo:

 

Por outro lado, vi o resultado do 36º Premio Profissionais do Ano, que premiou os melhores filmes publicitários veiculados nacionalmente na Rede Globo. O vencedor da categoria Mercado foi o filme da Peugeot de título “Vitória”, criado pela Y & R, que lança o Peugeot 208 ambientado na História da Corrida Maluca dos personagens Dick Vigarista, Penélope Charmosa e trupe, disponível aqui:

Façamos, porém, uma reflexão: se são filmes veiculados nacionalmente, já partimos de um patamar financeiro bastante elevado, já que o custo de cada inserção nacional é muito superior ao custo da inserção local. Lógico que a produção do filme foi complexa (foram 15 roteiros escritos e a idéia aprovada não era uma unanimidade dentro do grupo Peugeot/Citroen), mas é relevante compararmos o fôlego financeiro da “venda” do transporte público como fôlego financeiro da “venda” do transporte individual. Por estimativa, um consumiu recursos na ordem de R$ 3 milhões e o outro R$ 40 milhões somados os custos de veiculação e produção.

Uma iniciativa das agências de publicidade em contribuírem com o capital criativo seria muito bem vinda para o setor, mas, como vimos, a capacidade de divulgação entre os dois setores é muito diferente. Aliás, a diferença proporcional de valores entre elas chega a ser de 13×1. Isso é que é “balaiada”.