A revolução dos smartphones – e por que ela é importante na mobilidade urbana

Nesse post, comparamos a experiência da tecnologia no Reino Unido e no Brasil. (Foto: Roberto Vinicius)

No meio da atual revolução digital, os smartphones podem ser vistos como uma revolução à parte. Os telefones que hoje conhecemos como smartphones foram desenvolvidos apenas há 7 anos, e rapidamente conquistaram o mundo. Em 2014, estima-se que haja 1,75 bilhões de aparelhos ao redor do globo, o equivalente a 25% da população mundial.

Além da rápida expansão, estes gadgets criaram um novo mercado de aplicativos, que se desenvolve ainda mais rápido do que o mundo dos hardwares. Os downloads de aplicativos já atingiram quase 140 bilhões em escala global, e as previsões mostram que este número irá dobrar até 2017. Estamos caminhando a largos passos para uma era de conectividade ubíqua, na qual a maioria das pessoas está conectada à internet 24 horas por dia, 365 dias ao ano.

Se já atingimos esta fase é ainda incerto, mas é inquestionável que atualmente há uma drástica revolução socioeconômica, e que estas mudanças afetarão os transportes também. Aplicativos para celular oferecem informações em tempo real de todos os modais, permitindo que usuários otimizem suas viagens e rotas. Simultaneamente, redes sociais criam incentivos e recompensas não-monetários que são bastante úteis na promoção de alternativas sustentáveis.

No entanto, dentro deste mercado global digital, precisamos compreender as particularidades de cada região na adoção destas novas tecnologias. Pessoas usam seus smartphones de maneiras diferentes em cada país, assim como compram e baixam diferentes apps. Com isto, se queremos nos conectar efetivamente com os usuários através das tecnologias móveis, precisamos entender estas diferenças e planejar de acordo com elas.

Neste artigo, comparo a experiência do Reino Unido com a situação no Brasil.

O Reino Unido tem um dos maiores mercados mobile do mundo. Sete em cada dez britânicos possuem um smartphone, e mais da metade também tem um tablet. Em 2017, estima-se que os smartphones dominarão praticamente o mercado, com 90% de todos os usuários de celulares. Não obstante, estes aparelhos rapidamente também substituíram os computadores no acesso à internet. Em apenas cinco anos, o tráfego mobile disparou de 0,02% para mais e 50% em 2014. Isto significa que mais pessoas estão usando a internet através de celulares e tablets do que em computadores e notebooks. Tal sucesso contribuiu para o desenvolvimento massivo de todos os tipos de aplicativos, que estão se tornando cada vez mais comuns para todas as faixas de usuários.

Atualmente, a maioria das grandes empresas, prefeituras e órgãos públicos do Reino Unido tem um aplicativo próprio, ou então mantém seus dados disponíveis para que desenvolvedores criem os seus. O resultado é uma notável melhoria na utilidade e confiabilidade dos apps, especialmente nos transportes. Exemplos incluem o The Train Line, que permite ao usuário planejar viagens de trem, checar rotas, preços, e até comprar passagens e emitir tickets sem mesmo passar por um guichê na estação. Outro exemplo pertinente é o aplicativo CityMapper, que acessa os bancos de dados de todos os operadores para oferecer um aplicativo de rotas generalizado e com informações em tempo real. Além de tempo estimado de viagem, ele também calcula emissões de poluentes, gasto calórico, e até o preço da viagem para cada modal, contribuindo para melhores decisões por parte dos usuários.

Outros, como o Stravel, focam no lado social das viagens, nas quais usuários são recompensados por escolherem modais sustentáveis. Em geral, a maioria destes apps são desenvolvidos tanto para iPhone quanto para Android, porque a disputa pelo mercado no Reino Unido é acirrada (Android com 54% e iPhones com 32% do mercado de smartphones).

O CityMapper é um exemplo de como os smartphones e aplicativos vêm revoucionando o modo como nos relacionamos com a cidade e o transporte. O Citymapper acessa os bancos de dados de todos os operadores de transporte e fornece rotas e outras informações em tempo real, para que o usuário tome a melhor decisão sobre o deslocamento.

Em comparação, o mercado brasileiro ainda está em desenvolvimento, porém rapidamente alcançando os países desenvolvidos. Atualmente, 35% dos brasileiros têm um smartphone, mas estes já representam 70% de todas as vendas no país. Assim como Reino Unido, o líder de mercado é o sistema Android, porém com uma dominância quase absoluta de 90% do mercado. Pelo alto preço, iPhones representam apenas 5% do total. De qualquer modo, os brasileiros são tão viciados em seus telefones quanto os britânicos. Na verdade, passamos ainda mais tempo em nossos gadgets, numa média de 2,5 horas por dia (comparadas às duas horas diárias na terra da rainha). Já na maneira que usamos nossos aparelhos, há algumas similaridades, porém também algumas diferenças pontuais. Ambos são usuários frequentes das redes sociais, especialmente nós brasileiros. Jogos também são mais comuns por aqui. Por outro lado, o Reino Unido ganha nos quesitos de uso utilitário, como por exemplo nas compras através de seus smartphones. Enquanto um terço dos britânicos fazem compras através do M-commerce, este segmento representa apenas 7% das compras realizadas no Brasil.

Os apps para transportes são muito mais disponíveis e completos no Reino Unido do que no Brasil. Uma das razões para tal está na disponibilidade de dados por parte dos órgãos públicos e operadores de transportes.

E o que isto tem a ver com os transportes? A mesma tendência é encontrada nos aplicativos dedicados a eles. Os apps para transportes são muito mais disponíveis e completos no Reino Unido do que no Brasil. Uma das razões para tal está na disponibilidade de dados por parte dos órgãos públicos e operadores de transportes. A Transport for London (autoridade de transportes de Londres), por exemplo, não apenas disponibiliza todo seu banco de dados gratuitamente para desenvolvedores, como até mesmo os incentiva a criar aplicativos a partir dos dados coletados nos ônibus, trens, metrôs e bicicletas compartilhadas. Consequentemente, o número de aplicativos dedicados à mobilidade, seja para utilidade ou interação social, é infinitamente maior do outro lado do oceano. Além de apps robustos como o CityMapper, pode-se encontrar por lá aplicativos de interação já bastante desenvolvidos, como a recarga online dos Oyster Cards (o Bilhete Único de Londres) via dispositivos móveis.

No Brasil, em contraste, esta tecnologia está apenas sendo implementada neste mês. Além disto, há apenas um aplicativo unificado de transportes, que engloba todos os modais disponíveis em um planejador próprio. O Moovit junta informações de ônibus, trens e metrôs, até mesmo para curtas distâncias. No entanto, ele não se mostra muito eficiente no planejamento de viagens não-motorizadas, mesmo se curtas. Por outro lado, esta situação parece estar mudando, e rápido. Assim como o mercado mobile se desenvolve numa velocidade alucinante, é natural de se esperar que aplicativos e disponibilidade de dados também cresçam na mesma proporção. Ao que tudo indica, em breve alcançaremos o ritmo dos países desenvolvidos.

Com a política de dados abertos em São Paulo, foi possível incorporar o aplicativo Moovit, que engloba informações de ônibus, trens e metrôs, até mesmo para curtas distâncias. No entanto, ele não se mostra muito eficiente no planejamento de viagens não-motorizadas, mesmo se curtas.

Por agora, é importante entender as diferenças e particularidades dos mercados mobile em cada país. Ao comparar-nos com o Reino Unido, percebemos que existe um potencial quase ilimitado para a utilização de aplicativos para a mobilidade urbana, e também a revolução que eles podem causar na adoção dos meios sustentáveis de transportes. Ao reconhecer nossas defasagens, podemos não só traçar um plano de ação, como também nos beneficiamos de trilhar um desenvolvimento que já corrige os erros daqueles que passaram por ele antes de nós. Precisamos que nossos operadores e governantes abracem a revolução digital, e criem um ambiente virtual prolífico para os desenvolvedores. Temos know-how, temos capacidade, e mais do que tudo, temos uma necessidade urgente da organização de informações dos sistemas de transportes.

O mercado no Brasil ainda está engatinhando. Há ainda dificuldades de consolidar o mercado, tanto por aspectos econômicos quanto geográficos. Muitos órgãos públicos ainda estão se digitalizando, e poucos já estão na fase de disponibilizar dados online. No entanto, o cenário deve mudar muito em breve. Em poucos anos, a América Latina terá um mercado praticamente tão desenvolvido quanto a Europa, atingindo níveis de saturação similares. Neste momento, o potencial das tecnologias móveis atingirá a ubiquidade, assistindo usuários em suas escolhas diárias de modos, trajetos e rotas, a partir de informações em tempo real e incentivos sociais à mobilidade sustentável. Porém, a revolução começa agora. Precisamos nos preparar e planejar à frente para estarmos prontos para quando a conectividade móvel não seja vista como uma technologia, e sim como uma parte natural do dia-a-dia.