A bicicleta é bandeira política dos candidatos à presidência do Brasil? | Bike é Legal

Dia 5 de outubro está chegando e milhões de brasileiros vão às urnas escolher seus representantes para o Executivo e Legislativo. Aqui, por falta de espaço e necessidade de foco, não serão levados em consideração os limites da democracia representativa e as inúmeras falhas e lacunas do processo eleitoral brasileiro.

As razões das escolhas individuais para se votar numa pessoa são muitas. Mas…e se a bicicleta pudesse influenciar o seu voto para presidente do Brasil, em algum grau?

Se você for votar, o fato da bicicleta estar ou não na agenda de um candidato influenciará o seu voto? Isso quem decide é você. Para mim, não se trata de bicicletas estarem ou não no discurso, nas ações ou no plano de governo, mas, sim, de como o cidadão que se candidatou a ser presidente do país enxerga as cidades e os instrumentos que as sociedades contemporâneas dispõem para melhorar a qualidade de vida das pessoas.

Arte de Reynaldo Berto

A bicicleta é uma ferramentas, dentre inúmeras outras, que estão à disposição, também, dos gestores públicos brasileiros para mudar a realidade catastrófica das grandes e médias cidades do país: índices de qualidade do ar alarmantes, mortes e ferimentos por atropelamentos, congestionamentos quilomêtricos e batendo recordes, viadutos cheios de carros ligados a avenidas e ruas também engarrafadas…essa realidade que o cidadão que usa a cidade vê todos os dias.

E o que esses candidatos à presidência estão propondo para melhorar essa situação que está se agravando cada dia mais? Abaixo está um recorte feito sobre o conteúdo acerca da bicicleta mencionado por eles em seus programas de governo apresentados ao TSE – Tribunal Superior Eleitoral.

Aécio Neves afirma que no que tange à logística, os municípios e estados serão apoiados para implantarem sistemas cicloviários nas cidades. Pelo que entendo, Aécio quis dizer que a bicicleta será estimulada como parte da cadeia de distribuição de produtos em nossas cidades. Uma boa iniciativa que já acontece em algum grau no Rio de Janeiro, por exemplo.

Além, o PSDBista diz que apoiará novos modais alternativos de transporte, como as ciclovias. Nesse ponto, o candidato parece bem intencionado, mas ciclovias não são modais alternativos. São estruturas para ciclistas pedalarem. O termo mais acertado para o contexto deveria ser ‘modal cicloviário’.

Eduardo Jorge demonstra explicitamente que apoiará o uso da bicicleta em seu governo. Ademais, diz que atualmente o uso da bicicleta tem importância subestimada no país. Por fim, o candidato cita que fortalecerá a segurança dos ciclistas e pedestres.

De fato, o uso das bicicletas no Brasil ainda é subestimado e os ciclistas precisam, sim, de apoio e segurança.

Marina Silva diz que fará a implantação e melhoria das ciclovias.

Positivo, mas a responsabilidade pela construção de ciclovias é, na maior parte dos casos, dos municípios.

Dilma Rousseff, Eymael, Levy Fidelix, Luciana Genro, Mauro Luís Iasi, Pastor Everaldo, Rui Costa Pimenta e Zé Maria  não citam nada específico sobre o uso das bicicletas em seus programas de governo.

Além do programa de governo dos candidatos, há um outro instrumento que pode ser levado em consideração por você para compreender o nível de envolvimento dos candidatos com o uso da bicicleta em nossos municípios: a Carta Compromisso com a Mobilidade Ciclística da UCB – União de Ciclistas do Brasil.

Resumindo, a Carta contém um resumo do contexto da mobilidade na maior parte das cidades do Brasil e, em seguida, apresenta propostas para os programas/planos de governo das candidaturas, envolvendo diversos setores da administração pública – infraestrutura, economia, funcionalismo público, educação, planejamento, orçamento e gestão.

Três candidatos à presidência do Brasil já assinaram elas. O primeiro deles foi Eduardo Jorge. Em seguida, Marina SilvaLuciana Genro, por ora, foi a última a assinar. Os três se compromissaram com responsabilidades e ações que podem elevar e muito o percentual de ciclistas pedalando nas ruas dos nossos municípios, em avenidas e nas ciclovias das rodovias Brasil afora e, sobretudo, com a vida de quem está em cima de uma bicicleta.

Vale registrar que não alimento a ilusão de que os  problemas ligados ao uso da bicicleta em nossos municípios (rurais e urbanos) serão resolvidos pelo voto, mas pela mobilização dos cidadãos interessados em promover esse modo de transporte com seus próprios meios de fazer política em conjunto com os processos intrínsecos à democracia representativa.

A participação política destes cidadãos interessados em fomentar o uso da bicicleta como modo de transporte, sejam ciclistas ou não, é uma condição essencial para que mais e mais gestores públicos, academia, empresas, coletivos, dentre outras formas de organização social e a sociedade como um todo compreenda que, sim, os ciclistas estarão cada vez mais presentes nas ruas das cidades, avenidas, fazendo viagens de bicicleta e sendo onipresentes.

* Os programas foram baixados na primeira semana de setembro. É possível que alterações tenham sido feitas pelos candidatos.

** Alguns candidatos têm seus programas disponíveis em seus sítios eletrônicos particulares. Ainda que eles possam ser estar mais atualizados que o do TSE, é difícil acompanhar as mudanças constantes que eles sofrem.

Artigo originalmente publicado no Bike É Legal em 02/10/2014.