A mobilidade urbana além da Copa

A Copa do Mundo no até então país do futebol gerou expectativas e preocupações dentro e fora do Brasil. No total, 3,5 milhões de pessoas foram aos estádios e 5 milhões vibraram por suas seleções nas Fan Fests. Do milhão de estrangeiros que veio para cá, 95% declarou ter o desejo de voltar[1]. Estes números parecem ter aliviado parte da desconfiança. Contudo, os gastos bilionários em infraestrutura para os jogos geraram, e continuam gerando, questionamento sobre os reais benefícios que os investimentos trarão aos brasileiros no longo prazo. Pelo prisma da mobilidade urbana, a perspectiva é favorável.

Uma pesquisa contratada pelo CNPq junto a universidades federais das cidades-sede está sendo concluída para indicar o verdadeiro legado que a Copa deixou[2]. Por ora, sabemos que os aportes financeiros do Governo Federal voltados à mobilidade nas cidades-sede totalizam R$ 8,2 bilhões, sendo R$ 6,3 bilhões já licitados[3]. Estes investimentos estão possibilitando o financiamento de requalificações e implantações de sistemas de transporte sustentável que devem beneficiar os brasileiros por muito tempo. Dos 18 projetos previstos na última versão da Matriz de Responsabilidades da Copa voltados à qualificação do transporte por ônibus, 11 saíram do papel a tempo dos jogos nas cidades do Rio, Belo Horizonte, Recife e Curitiba. Até o final do torneio, mais cinco sistemas – entre BRT e faixas prioritárias – entraram em operação, totalizando 130 quilômetros de novos corredores dedicados aos ônibus[4].

Embora o Brasil tenha sofrido críticas pelos gastos em infraestrutura para a Copa do Mundo, exemplos como o MOVE, em Belo Horizonte, mostram como um projeto pode atender aos visitantes e ao mesmo tempo oferecer benefícios de longo prazo para os brasileiros. (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

No Rio, os BRT TransOeste e TransCarioca são apenas o início de uma rede que, até os Jogos Olímpicos de 2016, contará com 160 km e transportará mais de 1,5 milhão de passageiros por dia. No TransOeste, que liga os bairros da Barra da Tijuca e de Santa Cruz, o tempo de percurso caiu pela metade, levando o sistema a conquistar 93% de aprovação entre os usuários[5]. Já o TransCarioca, com pouco mais de um mês e meio de operação, gerou uma valorização de 150% dos empreendimentos e terrenos ao longo de seu percurso[6] e se mostrou um importante elo de conexão entre o Aeroporto Galeão e a Zona Oeste do Rio.

Na capital mineira, o MOVE já provou ser três vezes mais rápido do que o carro durante os horários de pico. Quando em operação plena, irá transportar 700 mil passageiros por dia. Além disso, o sistema também está melhorando as áreas circundantes de seus corredores e ajudando a revitalizar o centro de Belo Horizonte, devolvendo espaço às pessoas. O MOVE também foi protagonista na Copa ao possibilitar a ligação entre o centro e o Mineirão em aproximadamente 20 minutos – 75% a menos que os 80 minutos despendidos via veículo privado.[7] É inegável que os BRT e a priorização do ônibus estão oportunizando um transporte coletivo mais rápido e confiável, o que resulta em mais oportunidades de acesso a trabalho, educação, serviços e lazer.

Quanto às obras inacabadas ou àquelas que sequer iniciaram, a perspectiva é de que não parem. O Ministério das Cidades sinalizou que estes projetos, quando readequados, devem ser inseridos em outros programas governamentais, como forma de garantir suas execuções. Dessa forma, habitantes de outras cidades-sede poderão usufruir de um melhor transporte público em um futuro breve.

Artigo publicado na Revista NTU Urbano – Setembro/Outubro de 2014.


[4] http://www.brasil.gov.br/infraestrutura/2014/07/heranca-da-copa-contempla-130-km-para-mobilidade http://www.brasil.gov.br/infraestrutura/2014/07/heranca-da-copa-contempla-130-km-para-mobilidade

[5] http://thecityfixbrasil.com/2013/06/20/aprovacao-do-brt-transoeste-e-de-93/

[6] http://odia.ig.com.br/noticia/rio-de-janeiro/2014-07-05/brt-renova-bairros-e-incrementa-o-comercio.html

[7] http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2014/06/18/interna_gerais,540296/transporte-publico-e-o-meio-mais-rapido-para-chegar-ao-mineirao.shtml