Entrevista: os benefícios do teletrabalho para as cidades do futuro

Faz quanto tempo que você sai de casa antes do seu filho acordar e volta depois que ele já está dormindo? Quantas vezes você esteve parado no trânsito, seja no carro ou no transporte público, e se perguntou se haveria uma outra forma de trabalhar?

Uma boa alternativa para essas questões vem ganhando espaço nas empresas brasileiras: o teletrabalho. Por um ou até sete dias da semana, o funcionário tem a opção de trabalhar de casa ou de qualquer outro local, basta ter acesso à internet banda larga – o que 105 milhões de brasileiros já têm, de acordo com pesquisa IBOPE de 2013.

O resultado é mais satisfação e produtividade por parte das pessoas e menos custos para as empresas, como mostra um recente levantamento feito pela GCONTT – Grupo de Consultoria em Teletrabalho, em uma empresa multinacional do segmento de TI, em São Paulo. Os 28 funcionários incluídos no Programa de Teletrabalho tiveram 96% de melhoria na produtividade e 92% de melhoria na qualidade de vida, de acordo com pesquisa feita com os próprios colaboradores. Além disso, houve 4.800 kg, ou 4,8 toneladas, de redução anual nas emissões de CO2, em função da diminuição do número de viagens de carro (estimativa com base no Relatório de Teletrabalho – Secretaria do Meio Ambiente do Estado de São Paulo, 2013).

Em 2012, um estudo do Citrix, o Workplace of the Future, previa que, neste ano, um terço dos profissionais no mundo não estariam mais trabalhando em escritórios tradicionais. E parece que a prática tem tudo para se confirmar também aqui no Brasil. “O teletrabalho tem se tornado uma tendência entre os brasileiros. Profissionais liberais como advogados, arquitetos, designers e consultores de negócios, de RH e financeiros são os que mais buscam a iniciativa”, explica Alvaro Mello, presidente da SOBRATT (Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades).

Foto: Martin Nikolaj Christensen

De acordo com dados da associação, existem em torno de 12 milhões  de teletrabalhadores no Brasil hoje, e 43% das empresas já adotaram modelos de home office. É importante destacar ainda que qualquer atividade administrativa em uma empresa  levanta, analisa e manipula informações utilizando smartphones, tablets e outros equipamentos móveis, sem a necessidade de ser realizada em um local e horário fixos.

Com cada vez mais gente trabalhando fora do escritório, até 2020 as empresas brasileiras esperam ter seis mesas para cada dez funcionários, o que gera economia de gastos, menos deslocamentos e mais qualidade de vida a seus colaboradores. Abaixo, Alvaro Mello comenta sobre o impacto positivo que o trabalho à distância tem gerado e como a atividade pode direcionar nossas cidades a um futuro mais inteligente e sustentável.

Quais são os reais benefícios do teletrabalho?

AM – São diversos pontos positivos do teletrabalho. Para os empregados há melhoria da qualidade de vida, inclusive ajudando na recuperação e fortalecimento das relações familiares e sociais, no seu lazer e na sua individualidade; mais  tempo disponível para atividades prazerosas; menos stress causados pelas idas e vidas do trabalho, com congestionamentos; menos contaminação por doenças infectocontagiosas, pelos colegas; redução de custos pessoais  e mais motivação e satisfação com o emprego.

Já para os empregadores, podemos destacar a redução de custos em diversos níveis: fixos com o compartilhamento de espaços e recursos; com as faltas de funcionários e com acidentes de trabalho; além de vale-transporte, auxílio-combustível e estacionamento. Também há um aumento da produtividade do trabalhador. Existem estudos internacionais que comprovam um aumento de produtividade entre 30 e 60% entre as pessoas que passam a ser teletrabalhadores. Pode-se destacar também as taxas de turnover (custos de recrutamento e treinamento); contratação de funcionários em locais distantes, o que leva a poder ampliar o alcance logístico de operações das empresas; e a melhoria da imagem e reputação empresarial, como empresa inovadora.

E para a Sociedade, os ganhos também são consideráveis. Há contribuição para a diminuição do trânsito. De acordo com estudo da Secretaria de Estado dos Transportes Metropolitanos, a cidade de São Paulo perde R$ 4,1 bilhões por ano com congestionamentos e o paulistano poderia converter em renda 30% do tempo que perde para se deslocar até o escritório. E esta realidade não é muito diferente em outras capitais.

Destacamos também a redução do nível de poluição do ar; colaboração para desaceleração do aquecimento global; maior acesso das pessoas com dificuldade de locomoção às oportunidades de trabalho; melhoria da saúde física e mental dos trabalhadores; redução das possibilidades de contaminação por doenças infectocontagiosas, como a Gripe Suína; melhoria da qualidade de vida dos trabalhadores e da sociedade em geral; recuperação e fortalecimento das relações familiares e sociais; fortalecimento do poder aquisitivo do trabalhador; e revitalização dos centros comerciais dos bairros.

Por que é importante investir em políticas de teletrabalho hoje?

AM – Destaco os seguintes pontos: o teletrabalho já é reconhecido como alternativa aos problemas de mobilidade urbana e sustentabilidade. A utilização de ferramentas tecnológicas já indispensáveis para o trabalho à distância, como controle virtual ou remoto, ferramentas, qualidade e especificações, acesso banda larga, internet; A necessidade de Segurança Jurídica (contrato de trabalho), Sindical, Visão do Judiciário; e o reconhecimento do mercado de como os programas de teletrabalho foram implantados e os casos e as práticas bem sucedidos.

O que a legislação brasileira diz sobre o assunto?

AM – Já existe a Lei nº 12.551/11, cuja publicação ocorreu em 16 de dezembro de 2011, quando a redação do Art. 6º da CLT foi alterada de forma substancial, equiparando ao trabalho realizado no estabelecimento do empregador, além do executado no domicílio do empregado, aquele realizado a distância, desde que caracterizados os pressupostos da relação de emprego.

Segundo a avaliação da SOBRATT , a Lei 12.551/11 esclarece que o trabalho à distância, ou realizado fora da sede do empregador, seja na residência do trabalhador ou em outro local, por se constituir numa relação de emprego. sobre ela, devem incidir todas as normas da CLT que regem o vinculo empregador-empregado, em qualquer instalação de uma empresa. Vale lembrar que existem empresas que não têm trabalhadores formais que trabalhem à distancia ou fora das instalações da empresa e que, portanto, não serão afetados pela nova norma.

O legislador que elaborou a Lei para deixar clara a relação de emprego, explicitou no seu texto que os meios telemáticos de supervisão e controle, como computador, rádio, telefone, smartphones, etc. são elementos que reforçam as características do vinculo empregatício, quando demonstram subordinação jurídica.

Alvaro Mello conversou com o TCFB. (Foto: SOBRATT)

Por outro lado, tem-se verificado uma  interpretação equivocada de que as jornadas de trabalho constituem horas extras, mas são todas interpretações sem o menor fundamento, pois sendo um vinculo empregatício normal, como qualquer outro, aos trabalhadores à distância (ou que trabalhem fora das instalações da empresa) se aplicam os preceitos da CLT quanto à jornada de trabalho, horas extras, sobre-aviso, etc., que permanecem inalteradas e não foram afetadas e sequer mencionadas na nova lei. Assim, terá direito a hora extra quem a empresa solicitar ou autorizar que realizem horas extras; da mesma forma, terão direito a sobre-aviso aqueles a quem a empresa escalar para ficar de plantão, exatamente da mesma forma que ocorre hoje. As empresas, em geral, possuem políticas e procedimentos claros para autorizar horas extras e plantões, definindo, por exemplo, que só possam ocorrer após uma previa autorização da Alta Gerencia, constituindo falta grave se o trabalhador se ativar fora de horário sem autorização.

Algumas empresas, em decorrência da lei 12.551/1, já adotaram medidas administrativas, voltadas aos colaboradores que portam smartphones, computadores portáteis, rádios ou telefones celulares, ou outros meios telemáticos, para divulgar sua política vigente, além de outras medidas como:

  • Avaliar os profissionais em cargos de confiança, pois estes não estão sujeitos a controle de jornada de trabalho e, portanto , não elegíveis a horas extras, certificando-se de que isto esteja previsto em contrato de trabalho.
  • Regular a entrega e o uso dos equipamentos aos empregados, comprometendo-os com seu uso estritamente em horário normal de trabalho e desde que autorizado pela empresa, e exclusivamente a serviço dela.
  • Os demais colaboradores em regime de Plantão ou sobre-aviso estejam registrados em Escalas de Trabalho, devidamente comunicadas, sendo as horas devidamente registradas e pagas conforme a legislação.

Assim, a SOBRATT considera que a lei derrubou alguns  mitos sobre a adoção do home office e eliminou a insegurança que as empresas ainda tinham quanto à implantação do Trabalho Flexível, que, sem dúvida, se bem planejado, pode traz enormes benefícios à qualidade de vida dos empregados e também ao meio ambiente, assim como a modernização na organização do trabalho no Brasil, semelhante à maioria dos países desenvolvidos.

Quais conexões podemos fazer entre o teletrabalho e as “cidades inteligentes”?

AM – As tecnologias irão ajudar as cidades a alcançar maior crescimento econômico e melhorar a sustentabilidade ambiental, a segurança pública e a produtividade por meio do teletrabalho, graças as enormes possibilidades que terão através do impacto de conectar na mesma rede pessoas, processos, dados e coisas, e do valor que esta conectividade cria online e visível.

Vale salientar, que o mercado móvel  deverá ser muito maior que  do que a internet fixa. Em cinco anos, devemos ter 6 bilhões de pessoas em todo o mundo com smartphones, que é três vezes mais do que o acesso fixo. No Brasil, 128 milhões de pessoas já têm acesso a banda larga móvel, um número maior  que os cerca de 80 milhões que usam a internet fixa em casa ou no trabalho.

De acordo com um estudo realizado pela Cisco, a disposição de novas conexões entre coisas, processos e pessoas, principalmente no setor público irá gerar cerca de US$ 4,6 trilhões até 2022 em todo mundo. Este valor representa o dinheiro que governos locais irão economizar ou gerar por meio de maior eficiência do trabalho, também via teletrabalho, em serviços existentes, redução de despesas operacionais, centros de comando conectados, veículos e materiais para a segurança pública, melhoria do ambiente e da saúde, entre outros.

O estudo da Cisco mostra que esta tendência vai ter um grande impacto particularmente na América Latina, a partir de investimentos que diferentes governos já estão fazendo em termos de conectividade e da adequação dos serviços, incluindo teletrabalho, colaboração móvel, pagamentos online, e-learning ou segurança cibernética (byod).

Por diminuir a necessidade de deslocamentos diários, o teletrabalho será o futuro das empresas em cidades globais?

AM – Na dimensão ambiental, o teletrabalho implica a redução no número de deslocamentos motorizados nas metrópoles. Reduz-se com ele a emissão de carbono e demais poluentes tóxicos dos veículos, contribuindo para a mitigação do efeito estufa e da poluição atmosférica, especialmente em grandes centros urbanos saturados pela contaminação por poluentes veiculares.

A perda crescente de atratividade do transporte coletivo por ônibus – que tem as menores taxas de emissão de poluentes e CO2 e de consumo de combustível por passageiro transportado – é potencializada pelos congestionamentos. O transporte motorizado responde por cerca de um quarto das emissões de gases de efeito estufa e pela maior parcela da poluição do ar nas grandes cidades. As emissões do transporte crescem mais rápido do que em outros setores. A idade média da frota de automóveis superior a 10 anos e a baixa velocidade média do tráfego, agravam as emissões, não atenuadas pelos programas de inspeção veicular, ainda não implementados fora da Capital do Estado de São Paulo e na maior parte do território brasileiro.

2 horas e 40 minutos é o tempo médio que o paulistano perde no trânsito todos os dias. (Foto: Zé Carlos Barreta)

Os principais impactos do transporte sobre a saúde incluem os problemas respiratórios decorrentes da poluição do ar, obesidade devida à reduzida atividade física e perturbações causadas pelo ruído. Os grupos mais vulneráveis incluem sempre as crianças pequenas, recém-nascidos e idosos, bem como os ciclistas e pedestres ameaçados pela letal corrente do tráfego motorizado.

Somente na Região Metropolitana de São Paulo, de acordo com estudos amplamente divulgados da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, morrem prematuramente cerca de 7.000 pessoas anualmente e dezenas de milhares ficam doentes devido a problemas cárdiorespiratórios causados pela poluição atmosférica – mais especificamente, pelo material particulado fino (MP2,5) e ozônio (O3). Assim, o teletrabalho, além de mitigar as mudanças do clima do planeta, pode constituir-se numa ferramenta eficaz no combate à poluição do ar e melhoria da saúde pública.

Quais iniciativas de teletrabalho se destacam hoje?

AM – No mundo todo e em diferentes setores corporativos, é cada vez maior o número de casos de teletrabalho e isso evidencia o avanço da força de trabalho móvel. Nesse cenário, um dos desafios é conseguir engajar as pessoas a trabalharem em conjunto, mesmo estando longe fisicamente. Esse novo modelo de trabalho está baseado em um tripé que envolve: aplicativos na nuvem, ou seja, disponibilidade de acesso em qualquer lugar e a qualquer momento; Mobilidade, com acesso por celulares, tablets e web; Interatividade, que fomenta um relacionamento mais próximo e pessoal. Desde quando a internet foi lançada em larga escala no mercado, a forma como trabalhamos vem mudando continuamente de maneira significativa.

Antes dessa revolução da Era Digital, o trabalho tinha que ser feito dentro das empresas e os funcionários que viajavam muito tinham que fazer um esforço enorme para acompanhar o que estava acontecendo, na sede da organização onde trabalhavam. Atualmente, a situação é completamente diferente, aceitamos que funcionários trabalhem de casa, o chamado home office, montamos estruturas operacionais dispersas geograficamente e os funcionários em trânsito conseguem ficar atualizados.

É válido mencionar que deixar de trabalhar em empresas para prestar serviços de casa, em regime de teletrabalho, tem se tornado uma tendência entre os brasileiros. Profissionais liberais como advogados, arquitetos, designers e consultores de negócios, de RH e financeiros, são os que mais buscam a iniciativa. Porém, a prática tem se difundido ano a ano entre outros ramos profissionais. Dentre as empresas que já adotaram o teletrabalho, podemos destacar a Phillips, EDP, Compuware, Citibank, Gol, Locaweb, Totvs, Shell, entre muitas outras.

Conheça mais sobre o trabalho da SOBRATT – Sociedade Brasileira de Teletrabalho e Teleatividades.