Um passo na direção certa

Por cerca de três gerações, crescemos imersos na cultura do carro e perdemos a noção de que é possível viver sem eles (Foto: Jerolek/Flickr)

Este post é um trecho do livro Why I Walk: taking a step in the right direction (Por que eu caminho: dando um passo na direção certa), de Kevin Klinkenberg, e foi originalmente publicado pelo autor no This Big City (disponível também em inglês).

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Desde o início da era do automóvel, os carros foram vendidos para nós como ingressos para a liberdade. Em nossos carros, podemos escolher o caminho e chegar rapidamente ao nosso destino, sem entraves pela inconveniência ou falta de velocidade da caminhada ou do transporte público. Não há por que negar a verdade do cenário – se as coisas são equivalentes, entrar em um carro oferece uma extraordinária mobilidade.  Com um carro, não ficamos limitados aos deslocamentos possíveis a pé, de bicicleta ou de ônibus. Mais do que isso, podemos escolher os trajetos e organizá-los de acordo com nossos horários e necessidades.

O problema, no entanto, é que as coisas já não são equivalentes. A posse do carro começou a se tornar onipresente na década de 1950. Desde então, nós revolucionamos as formas com que nossas cidades são planejadas e construídas. Fascinados pela era do carro, refizemos nossos espaços e criamos novos, que pudessem acomodar os carros. Hoje, frequentemente esquecemos que antes da Segunda Guerra as cidades eram construídas para facilitar os deslocamentos a pé e de bicicleta. Na verdade, a ideia de viver em um lugar caminhável não é nada radical. O que foi radical foi o programa que seguimos para construir um tipo inteiramente novo de vida humana. Construímos redes de rodovias e autoestradas como nenhuma outra sociedade havia visto antes. Destruímos bairros inteiros para acomodar essas estradas, bem como os estacionamentos e garagens exigidas pelos carros que nelas iriam circular; ao mesmo tempo, arrancamos as faixas de bondes e trens.

Na medida em que ficamos inebriados pelos carros e pela era moderna, esquecemos alguns princípios básicos da natureza humana. Um de nossos traços principais é o anseio por liberdade e possibilidade de escolha. Escrevendo este livro em 2013 e olhando várias décadas para trás, é evidente que nossa sociedade já deu uma volta completa em termos de liberdade de mobilidade. O carro, que uma vez nos garantiu liberdade, é agora um dispositivo que nos escraviza. Sim, eu realmente quis dizer escraviza.

Reféns dos carros, esquecemos que existem alternativas (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

Como muitas pessoas da minha idade ou mais novos, quando eu era criança nós utilizávamos o carro para ir a qualquer lugar. Eu mal tinha consciência de que havia outras formas de viver que não na total dependência do carro. Por cerca de três gerações, crescemos imersos na cultura do carro, desconhecendo alternativas – e isso é um problema.

O problema, em seu aspecto mais básico, é que nos tornamos dependentes dos carros. Se uma vez foram nossos tickets para a liberdade, agora somos seus reféns. E muitas das nossas cidades são feitas de uma forma que nos obriga a ter um carro para sobreviver. Precisamos deles para comprar comida, procurar emprego, para chegar ao trabalho e para ter algum lazer nos finais de semana. Se não tivermos um carro, ou acesso a um, nos sentimos presos, quase incapazes.

A maioria de nós conhece bem esse sentimento. Para mim, um incidente na adolescência em particular se destaca. Como um jovem imprudente de 16 anos, dirigi meu velho Chevy Impala até o estacionamento de uma escola uma noite e dei cavalos de pau até que o motor morreu. Eu tive de pedir ajuda aos meus pais, que ficaram muito bravos e tiraram minhas chaves por uma semana. Na época, aquilo foi uma sentença de morte social. Como eu poderia ter uma vida se não tivesse meu carro?

Talvez você consiga se lembrar de algum momento na vida em que ficou sem carro. Ele já quebrou sem que você pudesse pagar pelo conserto imediato? Ou ficou preso na oficina por alguns dias? Você já se machucou de forma que não pudesse dirigir? Perdeu um emprego e não pôde arcar com os custos de um carro?

É por todas essas razões e outras tantas mais que eu amo caminhar e escolhi viver em um bairro que me permite fazer isso – caminhar. Por não ser dependente do carro, tenho mais liberdade de mobilidade do que a média da população. Nunca fico preso em casa por causa de um problema com o carro. E, se ele quebrar, posso caminhar, andar de bicicleta ou recorrer ao transporte coletivo para chegar a qualquer lugar a que eu precise ir. Eu poderia até me dar o luxo de optar por não consertá-lo por um tempo, uma vez que raramente preciso dele com urgência. Como alguém que cresceu em ambientes típicos do subúrbio, é difícil descrever a incrível sensação de empoderamento dessa liberdade.