Friday Fun: o que Harry Potter nos ensina sobre transporte integrado

Post originalmente publicado em inglês por  no TheCityFix

A estação King’s Cross, em Londres, une duas linhas de trem de alta velocidade, transportando os residentes da cidade e região e, quem sabe, os bruxos. (Foto: Jim Nix / Flickr)

Em certo momento de Harry Potter, o leitor se depara com o Aparato – um método de teletransporte – em que os bruxos fecham os olhos, mentalizam aonde querem ir, e poof!, lá estão eles. Depois que você descobre sobre o aparato, todos os outros meios de transporte na trama de J. K. Rowling parecem supérfluos. Por que existe uma Plataforma 9 ¾ se não é preciso esperar pelo trem? Por que utilizar vassouras voadoras quando usar a rede Flu é muito mais rápido? Essas perguntas são muito semelhantes às que planejadores urbanos e líderes municipais fazem todos os dias no mundo dos trouxas: por que investir no transporte coletivo quando existem automóveis particulares?

Assim como o mundo bruxo não consegue corrigir todas as suas necessidades de transporte num simples passe de mágica, nós também não somos capazes de resolver a mobilidade urbana com um só modal de transporte, nem mesmo um só modal de transporte sustentável. A resposta que ambos os mundos precisam é um ecossistema onde modais de transporte sustentável distintos, que promovam a conectividade – pense no acesso a empregos, educação, lazer – para atender à variada gama de necessidades dos usuários, sejam eles bruxos, elfos ou simplesmente moradores das cidades.

O QUE FALTA NO APARATO: SEGURANÇA E O EXPRESSO DE HOGWARTS

À primeira vista, o Aparato parece ser a opção de transporte perfeita pela capacidade de mover pessoas quase instantaneamente. As motocicletas, equivalente mais próximo ao aparato no nosso mundo, parecem oferecer esta mesma amplitude de movimento sem restrições. No entanto, as consequências de aparatar incorretamente podem ser desastrosas, com algumas partes do corpo deixando de chegar ao destino com o bruxo. Assim como andar de moto pode trazer consequências parecidas, com mortes na América 30 vezes maiores do que as fatalidades de carro – a moto já é considerada um dos meios mais perigosos de transporte. A chance de falecer em um carro na América é de 1/415, em comparação com 1/4,982 como um ciclista, e 1/7,229 como um passageiro de avião. Nos países em desenvolvimento a situação é ainda mais grave: as colisões viárias respondem por 1,24 milhão de mortes ao ano, número que deve subir para 3,6 milhões em 2030 – mais do que a tuberculose e a malária juntas. Em países como Nigéria, Indonésia e Colômbia, as mortes na estrada são agora a quinta causa de morte.

Para combater essas consequências, os menores de 17 anos e sem treinamento adequado são fortemente aconselhados contra a tentativa de aparatar. No entanto, aqueles com menos de 17 ainda precisam de acesso à educação e à cidade, mesmo de lugares tão distantes como o centro de Londres. Entre no Expresso de Hogwarts que, embora muito mais lento do que o Aparto, é mais seguro para todos os bruxinhos. A linha de trem também é muito mais confortável, com poltronas estofadas, cabines privativas, sem mencionar os sapos de chocolate que pulam magicamente. Mas o modal oferece algo além da mobilidade. O Expresso de Hogwarts é acessado na estação de Kings Cross, que sutilmente promove um senso de comunidade entre bruxos e trouxas. O transporte é o nexo que conecta estes dois mundos.

A FALHA DA REDE DE FLU: O NÔITIBUS ANDANTE E A ACESSIBILIDADE

Se o Aparato não é a única resposta, redes de Flu – pó de prata que permite que bruxos viagem entre diferentes lareiras – parecem ser suficientes para atender o restante das necessidades de mobilidade da comunidade bruxa. Redes Flu permitem a qualquer pessoa viajar rapidamente, sem uma licença. Mas a falha da rede está no acesso limitado. As casas precisam ter tanto uma lareira quanto uma licença da Autoridade da Rede Flu, o que limita os locais entre os quais é possível viajar. O sistema assemelha-se às redes ferroviárias do mundo trouxe que transportam principalmente as pessoas do subúrbio para a cidade central. As redes ferroviárias têm paradas limitadas, frequentemente cercadas por estacionamentos e estradas, e os usuários ainda precisam de carros para percorrer os últimos quilômetros no caminho pra casa.

Para complementar este modal está o Nôitibus Andante, que oferece conectividade sustentável e de baixo custo de última milha para que os bruxos que não têm acesso a uma lareira conectada à rede Flu. Embora o Nôitibus não seja a forma mais rápida de viajar, ele tem uma vantagem sobre automóveis pessoais pelo fato de os objetos saírem magicamente do seu caminho. No mundo trouxa, é possível criar algo similar a este fenômeno, dedicando vias exclusivas para ônibus, sinalização clara, iluminação e calçadas largas para pedestres. Pode não ser uma solução mágica, mas ela pode melhorar drasticamente o serviço de transporte.

VASSOURAS E BICICLETAS: MOBILIDADE SAUDÁVEL E CENTRADA NO SER HUMANO

As vassouras são umas das formas mais interessantes de transporte mágico, e a última razão pra isso é o fato de serem voadoras. Elas têm impacto de baixo carbono, proporcionam transporte individual e são tão discretas que podem misturar-se no mundo dos trouxas. Elas promovem um estilo de vida saudável, e jogos como o Quadribol têm crescido com seu uso, criando toda uma comunidade fundada na mobilidade sustentável. Apesar o quadribol não existir no nosso mundo – pelo menos por enquanto – temos as bicicletas que conectam as pessoas a outras formas de transporte e comunidades mais amplas.

Mesmo em um mundo com magia, não há apenas um modal de transporte para transportar pessoas a qualquer hora, em qualquer lugar, e fazê-lo com segurança. Mesmo os bruxos ainda precisam de transporte multimodal. Embora seja um enredo, vale a pena questionar por que, mesmo com a capacidade de usar magia para transportarem-se instantaneamente, os bruxos ainda podem optar por ônibus, trem ou vassoura, juntos? No mundo real, a pergunta é: ao passo em que nossa tecnologia avança, qual é o papel das formas de transporte conectadas ou compartilhadas quando todos podem ter um carro elétrico que pode leva-los a qualquer lugar, individualmente?

Tradução: Luísa Zottis, TheCityFix Brasil.