Quanto e como os setores público e privado investem em transportes?

(Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

Artigo publicado na Revista NTU Urbano, Mai/Jun 2014.

Os congestionamentos, os altos níveis de poluição do ar e de acidentes de trânsito são apenas consequências de uma cultura de investimentos centrada, por décadas, no automóvel. Estas externalidades podem comprometer até 10% do PIB do país¹. E, está previsto que a frota mundial de veículos dobre até 2050². Em 2010, o setor de transportes, responsável pelo maior crescimento das emissões no planeta³, gerou 24% das emissões de CO2 relacionadas à energia.

Como os sistemas de transportes têm impacto direto na qualidade de vida e no espaço urbano, estariam os investimentos no setor fomentando um desenvolvimento mais sustentável para nossas cidades? Por isso, além do “quanto”, deve-se atentar para o “como” ocorrem os investimentos em transportes.

O documento “The Trillion Dollar Question: Tracking Public and Private Investment in Transport” aponta que o investimento global anual em transportes situa-se entre US$ 1,4 e US$ 2,1 trilhões, 28 vezes o valor investido em mobilidade urbana no Brasil, através dos programas do PAC, Copa do Mundo e Olimpíadas. Esse montante figura entre o PIB do México (US$ 1,1 trilhão) e o do Brasil (US$ 2,2 trilhões).

Enquanto o setor aporta anualmente entre US$ 569 a US$ 905 bilhões, o setor privado investe de US$ 814 bilhões a US$ 1,2 trilhão na mobilidade urbana. As regiões de alta renda, como EUA e União Europeia, concentram 75% dos investimentos mundiais em transportes. Para os países em desenvolvimento, justamente os mais carentes de um transporte coletivo de qualidade, restam apenas 25%.

Em 2012, os maiores bancos multilaterais de desenvolvimento do planeta comprometeram-se a prover mais de US$ 175 bilhões, durante os próximos 10 anos, para fomentar um transporte mais sustentável nos países em desenvolvimento. Aqui, resta o desafio de engajar, à causa, os grandes bancos nacionais de desenvolvimento de países como China e Brasil.

No Brasil, os investimentos em mobilidade disponibilizados pelos PACs, adicionados àqueles anunciados pelo Governo Federal após os protestos de junho de 2013, somam 110 bilhões de reais. Espera-se que grande parte desses investimentos seja realizada ao longo dos próximos anos, e que resulte na implantação de corredores de transporte coletivo estruturantes do desenvolvimento urbano. Além destes, os investimentos no transporte brasileiro incluem programas de pavimentação, qualificação portuária, ferroviária e rodoviária que, ao todo, prometem a injeção de mais 200 bilhões de reais até 2025. Apesar dos grandes números, os investimentos em infraestrutura de transportes devem totalizar, em 2014, apenas 27 bilhões de reais ou 1% do orçamento da União.

Nossos investimentos públicos precisam ser utilizados de forma mais estratégica. Devem ser prioritariamente direcionados para alavancar recursos privados e proporcionar a implantação de sistemas de transporte mais sustentáveis e capazes de gerar menos emissões de carbono do que vias para automóveis. Contudo, no Brasil, uma maior captação de recursos privados depende da capacidade de atrair mais os investidores. Um ambiente mais estável, seguro e transparente minimiza os riscos e provê um terreno fértil para aumentar o aporte de recursos privados ao transporte sustentável.

Referências:

1) Dalkmann e Sakamoto (2011) Green Economy Report 10 – Transport: investing in energy and resource efficiency.
2) ITF (2012) Transport Outlook 2012: Seamless Transport for Greener Growth. International Transportation Forum, Paris, France.
3) IEA (2012) IEA statistics: CO2 Emissions from Fuel Combustion.
4) http://www.wri.org/sites/default/files/trillion_dollar_question_working_paper.pdf
5) Brasil (2013) Orçamento Federal ao Alcance de Todos. Disponível em: http://www.orcamentofederal.gov.br/orcamento-cidadao/revista_ofat_2014_web.pdf