Como o “zero” se tornou o maior número na segurança viária

Este post foi publicado originalmente em inglês por  e  no TheCityFix.

(Foto: New York City Department of Transportation/Flickr)

Conforme o relatório Global status report on road safety 2013, da Organização Mundial da Saúde (OMS), apenas 7% da população mundial é regida por leis abrangentes de segurança viária. Num mundo que já se depara com 1,24 milhão de mortes por colisões de trânsito e com o aumento do uso de veículos motorizados, esta é uma perspectiva assustadora e faz com que entendamos a segurança no trânsito somente pelo comportamento dos condutores.

Países como a Suécia, no entanto, têm dados passos holísticos e ambiciosos para melhorar a segurança no trânsito e salvar vidas através de uma iniciativa chamada Visão Zero, uma política de segurança viária que afirma que “nenhuma perda de vida é moralmente aceitável”. O conceito se espalhou para lugares como Nova York, onde o recém-eleito prefeito Bill de Blasio vem adotando a mesma abordagem.

Ambas as estratégias, tanto da Suécia quanto de Nova York, são avançadas por duas razões. Primeiro que elas estabelecem objetivos claros. Um estudo revelou que fixar metas ambiciosas nesta área ajudar a motivar as partes interessadas para o cumprimento delas. Em segundo lugar, essas políticas transferem a responsabilidade pela segurança viária , antes somente do comportamento pessoal dos condutores e passageiros – como usar o cinto de segurança ou capacete – para uma responsabilidade compartilhada entre os usuários das vias e os planejadores urbanos. Isso significa criar infraestrutura mais segura para pedestres, fiscalização eletrônica, e redução da velocidade máxima permitida. Juntas, essas ideias podem mudar drasticamente a forma como os países e cidades ao redor do globo atuam sobre a segurança no trânsito.

O SURGIMENTO DO VISÃO ZERO

O Visão Zero é talvez a política de segurança viária mais ambiciosa já implantada. Criada em 1994 e adotada pelo Parlamento Sueco em 1997, o Visão Zero determinou a meta de zerar os acidentes com mortes ou ferimentos graves nas rodovias da Suécia. A abordagem mais ampla de responsabilidade compartilhada resultou em mudanças no design de estradas e vias da cidade. De acordo com a The Economist, a construção de 1.500 km de vias “2+1” (um modelo de via onde cada faixa pode retornar utilizando a faixa do meio para passagem) salvou cerca de 145 vidas ao longo da primeira década de Visão Zero. Além disso, para os 12.600 cruzamentos melhorados com sinalização e traffic calming estima-se que as mortes de pedestres caíram pela metade nos últimos cinco anos. A nova medida ajudou a Suécia a aproximar-se da meta, com apenas 3 mortes para cada 100 mil pessoas no trânsito. O dado contrasta com as 5,5 pessoas para cada 100 mil na União Europeia e com as 11,4 pessoas para a mesma parcela nos Estados Unidos.

Aprendendo com a Suécia, Nova York adotou a política de Visão Zero num esforço ambicioso para repensar a segurança viária e salvar vidas. Uma análise dos últimos cinco anos sobre as fatalidades no trânsito da cidade tem mostrado que 70% das mortes de pedestres resultam de causas fora do controle do pedestre. Isto significa que a raiz do problema estava em falhas sistêmicas, como a velocidade do veículo, o design urbano e a infraestrutura. Esta nova legislação concede à Nova York autoridade para controlar os limites de velocidade, melhorar a coleta de dados de tráfego, endurecer a penalidade a motoristas perigosos e fazer uso de pardais. A cidade relata que interseções com pardais respondem por 20% na diminuição de todos os acidentes de trânsito e de 31% na redução de acidentes com pedestres. Nova York também planeja fazer melhorias de segurança em 50 cruzamentos com base no sucesso das melhorias em design urbano dos últimos anos, que resultaram em uma redução de 34% das mortes onde foram implantadas.

COMBINANDO VISÃO COM ESTRATÉGIA: A ABORDAGEM DO SISTEMA DE SEGURANÇA

Visão Zero faz parte de uma abordagem mais ampla, o chamado Sistema de Segurança com foco no trânsito, que tem nomes diferentes conforme o país. Na Holanda, é segurança sustentável. Em Minnesota e Washington, EUA, o esforço é chamado A Caminho de Zero Mortes enquanto na Nova Zelândia é Jornadas Mais Seguras. Eles partilham uma metodologia comum que reconhece que os seres humanos podem errar, e os planejadores das vias devem considerar isso. A abordagem do Sistema de Segurança analisa de forma mais ampla as forças físicas em jogo, incluindo aplicação, coleta de dados, infraestrutura, limites de velocidade, tecnologia e comportamento dos condutores. Nos Estados Unidos, este é às vezes chamado de os quatro E’s: engineering, enforcement, education, and emergency response/medical elements, elementos que correspondem, no Brasil, a engenharia, fiscalização, educação e serviços de atendimento de emergência.

O problema crescente de mortes no trânsito globalmente está mais presente em países de baixa e média renda. Na Índia, cerca de 134 mil mortes no trânsito são reportadas a cada ano, e o índice está crescendo. No Brasil, são 40 mil mortes relatadas por colisões, das quais 50% destas vítimas são pedestres, ciclistas e motociclistas. Em países e cidades de altos índices de mortes, há vastas oportunidades para a implantação de políticas e medidas abrangentes como o Visão Zero e políticas públicas efetivas por mais segurança. Com o sucesso que se espalhou da Suécia a Nova York, e desceu para a Nova Zelândia, os líderes municipais devem considerar esta compreensiva abordagem, particularmente onde sua implantação pode gerar grandes impactos.

Tradução: Luísa Zottis, TheCityFix Brasil.