O que Belo Horizonte pode aprender com Bremen?

Muitos brasileiros possuem uma admiração pelas cidades europeias que vai além do interesse turístico. É muito comum vermos matérias de televisão, colunas de jornal e até ouvirmos amigos e familiares dizendo o quanto as coisas na Europa funcionam. Quando o assunto é mobilidade urbana, tema que ganha a cada dia mais o interesse e a atenção das pessoas, essa admiração vira deslumbramento, principalmente por algumas cidades que mostram possibilidades que parecem inatingíveis na realidade brasileira.

Foto: Marcelo Cintra

Sistema bike-sharing de Londres. Foto: Marcelo Cintra

Mas muitas dessas pessoas que adoram andar de metrô e de bonde na Europa, de pedalar em bicicletas públicas, de caminhar e ver os carros respeitarem os pedestres nas travessias europeias, voltam às suas cidades e aos seus carros e às suas crenças de que andar de transporte público é degradante, de que pedalar é impossível e não caminham nem para ir à padaria da esquina.

Esses somos nós! Homo urbanus brasileiro descrentes da possibilidade de ver nossas cidades transformadas. Mas basta um olhar um pouco mais atento e interessado para perceber que muitas coisas estão mudando, para melhor, e que essa transformação já começou.

Ainda temos muito a aprender com as cidades europeias e mundiais, com suas soluções que nos mostram a possibilidade da transformação. E isso não é tema apenas para as políticas públicas, como vem nos ensinando a Natália Garcia, desde 2011 com seu projeto “Cidade para as pessoas” e o próprio  “TheCityFix Brasil”. Natália é jornalista e decidiu percorreu 12 destinos pelo mundo (Copenhague, Amsterdam, Londres, Paris, Friburgo, Estrasburgo, Lyon, Barcelona, São Francisco, Portland, Cidade do México e Nova Iorque) para entender o que está dando certo por lá e o que temos a aprender com essas cidades. Os resultados desse projeto inteiramente realizado por financiamento coletivo (crowdfunding) podem ser vistos no site: http://cidadesparapessoas.com.

Colaboração entre cidades

Quando iniciei minhas atividades profissionais, há mais de vinte anos, parecia inatingível um intercâmbio entre cidades europeias e brasileiras, como as que tenho tido oportunidade de conhecer nos últimos cinco anos. Além de redes colaborativas entre cidades, alguns projetos específicos focados na potencial transferência de boas soluções entre realidades diferentes estão acontecendo de forma cada vez mais frequente. Pessoalmente, tenho tido oportunidade de participar desses projetos, especialmente do Turblog.ww (focado em logística urbana e realizado entre 2009 e 2011) e recentemente do projeto SOLUTIONS que pretende justamente promover essa troca entre cidades, onde Belo Horizonte começou uma parceria com a cidade de Bremen, na Alemanha.

Apesar das diferenças evidentes entre as duas cidades, tanto em tamanho, quanto em cultura e infraestrutura instalada, iniciamos o trabalho focados em quatro temas potenciais a trabalhar: plano de mobilidade urbana, logística urbana, carros compartilhados (car sharing) e infraestrutura para uso de bicicletas, Ainda estamos no início deste projeto, que pretendemos aprender bastante, e a questão inicial que nos colocamos foi: o que Bremen tem a nos ensinar em cada um desses temas?

Ruas para bicicletas em Bremen, onde os carros e motos são apenas admitidos. Foto: Marcelo Cintra

A inovação no desenvolvimento do Plano de Mobilidade Urbana da cidade foi o uso de ferramentas de consulta pública, onde as propostas da prefeitura foram avaliadas e foram recebidas 4.241 sugestões da população. Em logística urbana, desde a década de 1990, existem iniciativas, destacando-se seu Freight Village, um grande distrito que concentra empresas transportadoras e distribuidoras com ganhos de eficiência. A experiência de car sharing em Bremen (cambio) vem obtendo sucesso por estar totalmente integrada aos demais modos de transporte e por discutir com os moradores a instalação de cada novo ponto.

Bicicletário integrado à estação de trens de Bremen. Foto: Marcelo Cintra

Mas o mais impressionante em Bremen é a incrível marca de 26% de seus deslocamentos feitos em bicicletas, conquistada ao longo do tempo por condições culturais e topográficas locais, mas que vem sendo reforçada por uma infraestrutura para bicicletas invejável. São ciclovias e ciclofaixas por todos os lados, ruas onde a prioridade são as bicicletas (carros e motos são admitidos) e uma incrível liberdade de circular de bicicleta em qualquer lugar, incluindo parques, ruas de pedestres e na contra mão de suas ruas. Sinalização indicativa, bicicletário integrado ao trem e permissão de levar as bicicletas nos vagões. Além disso, há uma Associação de Ciclistas bem atuante (ADFC), que iniciou atividades em Bremen e posteriormente virou uma associação nacional.

Bicicleta tem prioridade. Foto: Marcelo Cintra

Nos próximos meses, receberemos a visita da equipe de Bremen para nos ajudar a identificar uma das medidas que podem ser experimentadas em Belo Horizonte. Em seguida, com o apoio dos especialistas envolvidos no projeto SOLUTIONS, faremos sua implantação e avaliação. A julgar pela primeira visita realizada, em maio de 2014, uma das características marcantes da cidade de Bremen tem sido justamente uma certa humildade em não precisar inventar e nem querer ter a melhor solução, mas um bom conjunto de soluções que de fato resolvam seus problemas. Essa primeira lição, totalmente adequada à realidade de Belo Horizonte, parece indicar que conseguiremos trazer parte dessa rica experiência com bicicletas.