A visão de Jaime Lerner para Curitiba

Este post foi publicado originalmente em inglês por Dario Hidalgo no TheCityFix

Ele faz parte da série “Hall da Fama do Urbanismo”, exclusiva do TheCityFix, que traz os paradigmas líderes em planejamento urbano e transporte sustentável e desafia os leitores a pensarem cuidadosamente sobre o que define liderança e inovação nestes tópicos. 

Jaime Lerner é conhecido como “O arquiteto de Curitiba” por seu pioneirismo em reiventar o lixo como uma oportunidade, e expandir o espaço verde para os residentes. (Foto: The International Transport Forum/Flickr)

Jaime Lerner posicionou a cidade de Curitiba no mapa como um exemplo global líder em sustentabilidade urbana. Durante seus três mandatos como prefeito de Curitiba e governador do Paraná, ele e sua equipe fizeram grandes avanços tanto no meio ambiente quanto no espírito da cidade. Sob a liderança de Lerner, seu time projetou um novo plano piloto que integrou o uso do solo e o transporte, introduziu o BRT (Bus Rapid Transit), ampliou os espaços verdes, e fez pioneirismo em esforços de reciclagem. A ideia que Lerner avançou – de que o transporte deveria ser, simultaneamente, eficiente, acessível e sustentável, contribuindo para cidades orientadas pela saúde e coletividade – inspirou inovações em toda a cidade e deu uma lição para cidades pelo globo.

Uma nova visão para a integração entre uso do solo e transporte

No final dos anos 1960, um grupo de jovens arquitetos da Universidade Federal do Paraná, que eram contra o plano oficial de desenvolvimento criado por Alfred Agache em 1940, propuseram uma visão diferente. Esta visão implicava na criação de empreendimentos densos ao longo dos corredores de transporte de massa, reduzindo a expansão, ampliando as áreas verdes, e preservando bairros históricos. Para implementar esta estratégia ambiciosa, Lerner tornou-se o primeiro diretor do IPUCC (Instituto de Planejamento Urbano de Curitiba). O núcleo na nova estratégia de design urbano reside o sistema trinário, que buscou integrar o transporte de massa, as vias de acesso e o uso do solo juntos. Esta visão exigiu uma opção de transporte capaz de criar mobilidade acessível e conveniente para conectar as diversas regiões da cidade.

O BRT constrói uma cidade conectada

Para apoiar a visão de uma cidade sustentável e conectada, Lerner compreendeu a necessidade de um sistema de transporte de alta capacidade, mas reconheceu também a necessidade de afastar-se das tendências do planejamento em transportes que eram dominantes nas cidades do mundo desenvolvido. Incapaz de aportar um sistema debaixo do solo, como metrô, Lerner decidiu “metronizar” o ônibus. A cidade priorizou os ônibus, permitindo-os se mover com rapidez e mais eficiência – introduziu corredores exclusivos para ônibus troncais, projetou uma rede de ônibus alimentadores e, em 1982, introduziu as “estações-tubo”, com ônibus maiores e com pré-pagamento.

Estes elementos são o núcleo do que mais tarde viria a ser chamado de Bus Rapid Transit (BRT). Desde sua época como prefeito, a cidade cresceu com o trabalho de Lerner, criando uma rede integrada de transportes, a qual foi expandida também para a região metropolitana. O conceito BRT também se espalhou por todo globo terrestre, com 168 cidades operando linhas BRT que transportam mais de 31 milhões de pessoas todos os dias.

Curitiba foi a cidade pioneira a contar com um sistema BRT. Hoje, já são 168 cidades pelo mundo a utilizar o sistema projetado por Lerner. (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

Expandindo parques e espaço público para um futuro mais verde

Com o intuito de expandir as áreas verdes e evitar a expansão urbana, o Plano Piloto de Curitiba nos anos 60 reservava áreas para parques, especificamente em áreas sujeitas a inundações, e criou um cinturão verde em volta da cidade. Meio século depois, a cidade inteira está lucrando com 16 parques, 14 florestas e mais de mil espaços públicos verdes, muitos dos quais são dedicados a celebrar a história multicultural do país. A visão de Lerner para a cidade teve um grande papel no crescimento da área verde de 1 metro quadrado para 52 metros quadrados por habitante, uma mudança que tornou Curitiba a terceira cidade mais verde do mundo em 2007.

Mais uma vez, realizando esta reflexão essencial além dos padrões estipulados por cidades desenvolvidas. Por exemplo, enquanto ampliar áreas verdes era uma prioridade, a cidade não era capaz de arcar com custos de serviços de manutenção e queria evitar espaços não planejados. Para combater este problema, a cidade introduziu ovelhas que comeriam a grama e produziriam esterco para os fazendeiros locais.

Como a simples solução de deixar as ovelhas no pasto, outra das intervenções sustentáveis também estavam ocultas em plena vista.

Transformando lixo em oportunidade

Durante seu primeiro mandato como prefeito de Curitiba, Lerner criou um programa de reciclagem voltado a tornar o lixo valioso. O programa “Lixo que não é Lixo – a troca verde”, a ideia do programa era que lixo e papel reciclável poderiam ser trocados por passes de transporte público, por notebooks para estudantes ou por comida. O programa de trocas trouxe a populações de baixa renda acesso a emprego no centro e refeições de mais qualidade, e também permitiu aos estudantes o acesso aos recursos educacionais que eles precisavam.

Só os 62 bairros mais humildes da cidade trocaram 11,000 toneladas por quase um milhão de passes de ônibus. O programa tem servido como o exemplo perfeito de como utilizar recursos de forma criativa para ajudar a trazer maior sustentabilidade para uma cidade e uma melhor oportunidade para os moradores de uma cidade.

Espaço público acessível, seguro para todos em Curitiba. (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

Soluções criativas para criar recompensas duráveis

O sistema de transporte conectado e a dedicação às áreas verdes que Lerner encabeçou valeram a pena para a cidade. De 1975 a 1995, o PIB de Curitiba aumentou 75% a mais do que o estado geral do Paraná, e 48% a mais do que o PIB do Brasil como um todo. A cidade tornou-se um local atraente para as indústrias multinacionais, da fabricação de automóveis à tecnologia da informação.

Ao mesmo tempo, Curitiba vem mantendo elevados níveis de qualidade do ar e de segurança viária, assim como outras cidades emergentes têm lutado com tais fatores em sua corrida para se desenvolver. Curitiba conseguiu aumentar a produtividade econômica e ao mesmo tempo ter a quota modal mais sustentável entre 15 cidades da América Latina. Lá, 42% das viagens diárias são feitas a pé e de bicicleta, enquanto os outros 28 % das viagens são por transporte público, com somente 4,2 mortes no trânsito por 100 mil habitantes (em comparação com uma média de 9,6 na região). Lerner é uma figura célebre entre urbanistas por sua visão perspicaz. O atual sucesso de Curitiba foi possível através de dois elementos-chave que Lerner identificou logo no início: menos carros e reciclagem do lixo. Mesmo que as palavras dele podem parecer simples, Curitiba mostra como soluções imaginativas, complexas e convincentes podem realmente tornarem-se realidade.

Tradução: Luísa Zottis, do TheCityFixBrasil.