Novas tecnologias e transportes inteligentes no século 21

Nesta semana, iremos para o mundo virtual das novas tecnologias. Como as informações digitalizadas nos transportes podem contribuir para um melhor planejamento, e como a combinação delas com tecnologias mobile podem revolucionar a interação das pessoas com os sistemas de transporte. Apertem os cintos, o texto é uma viagem ao futuro que já vivemos. Não tenha medo se parecer ficção, o final da história é feliz!

Se exploradas, as tecnologias mobile podem mudar a maneira como utilizamos os sistemas de transporte urbano (Foto: Transurc/Reprodução)

Todas as manhãs, milhões de pessoas embarcam em ônibus e trens em São Paulo apenas com o toque de um cartão no leitor. Ao mesmo tempo, passageiros em Bogotá, Nova York, Londres, Lagos, Bangkok, Kuala Lumpur e outras centenas de cidades fazem o mesmo. Tecnologia recente, os Smart Cards (como o Bilhete Único em São Paulo) podem ser encontrados ao redor do mundo e são um ótimo exemplo de como a tecnologia pode mudar a maneira como nos deslocamos. No entanto, mesmo que a tecnologia tenha aumentado a utilidade dos sistemas, ainda resistimos a utilizá-la na interação com as nossas vidas. Certamente, os transportes estão mais rápidos e automatizados, mas não mais inteligentes. São ainda reativos como ferramentas analógicas em uma era digital. Isso porque, embora tenhamos evoluído os produtos, não atualizamos os sistemas e serviços.

Smart Cards são cartões magnéticos em que os usuários compram créditos e são cobrados automaticamente de acordo com suas viagens. Os benefícios são diversos, como a facilidade de não usar dinheiro a cada viagem, além de contribuírem para embarques mais rápidos e esperas mais curtas. Pense na eficiência trazida por eles. Se cada passageiro deixa de gastar 30 segundos no embarque ao automatizar o pagamento, uma cidade como a de São Paulo economiza mais de duas mil horas nos transportes por dia! Exemplos como esse mostram como novas tecnologias podem aumentar a eficiência dos sistemas, melhorando o serviço oferecido aos usuários, que por sua vez ganham horas para dedicar a outras atividades.

Para nós, planejadores, outro benefício é que a digitalização dessas informações gera uma quantidade incrível de dados sobre cada usuário e suas rotas e horários, o que contribui para modelos mais precisos e um planejamento proativo em tempo real. Como cada cartão é único e identificado por um código, é possível analisar cada um separadamente, ao invés de trabalhar com médias e picos. Saberemos os trajetos e horários de um cartão, assim como os meios escolhidos e média de compras em créditos, além de outras diversas informações. Com isso, poderemos planejar de forma cada vez melhor e preparar os sistemas de acordo com a demanda.

Smart Cards: mais eficiência para o transporte (Foto: Bruno Santos Terra)

Simultaneamente, outros avanços tecnológicos proporcionarão, em alguns anos, o que especialistas chamam de um paradigma de conectividade ubíqua. Este nome grande e complicado simplesmente quer dizer que é uma era onde a conexão com a internet está disponível em qualquer lugar, a qualquer hora, através de qualquer dispositivo que interaja com humanos. Por exemplo, a conexão 4G, entrando no mercado neste ano, já garante navegação a mais de 100Mbits/s, dez vezes mais rápida que uma conexão média domiciliar. Em alguns anos, as redes 5G, já em projeto em alguns países, poderão acelerar essa velocidade em até 80 vezes. Conexões assim rápidas em smartphones, que já possuem capacidade de processamento similares a dos melhores computadores, fazem dos aparelhos móveis dispositivos potentes e ilimitados na interação com os sistemas através da internet. A conta é simples. Quanto mais informações em tempo real podemos ter através dos nossos meios de comunicação, melhores serão nossas escolhas. E isso já acontece hoje em dia, sem que sequer notemos.

O aplicativo Waze é um perfeito exemplo do valor da informação em tempo real. O app funciona como um roteador GPS, similarmente ao Google Maps, indicando direções no mapa através da sua posição atual. Porém, a sacada do Waze é a possibilidade de enviar informações sobre o trânsito, que serão repassadas a todos os outros usuários conectados. Desde pontos de lentidão até acidentes, radares, etc, o Waze torna-se um mapa colaborativo para o qual os motoristas enviam e do qual recebem informações sobre o trânsito em tempo real, e recalculam suas rotas para maior eficiência. Os congestionamentos se espalham por rotas alternativas, e a economia de tempo é generalizada para todos no sistema.

Waze: aplicativo permite calcular a melhor rota com base nas informações compartilhadas pelos usuários em tempo real

Até aí, mil maravilhas. Mas o que isso tem a ver com os Smart Cards? Tudo. Assim como o Waze transforma o GPS em um roteador inteligente e proativo em tempo real (calculando e indicando rotas alternativas), os transportes públicos podem ser tão ou mais inteligentes. Hipoteticamente, vamos chamar nosso personagem de João, que mora em São Paulo. Pelas informações coletadas de seu Bilhete Único, sabemos que em dias úteis ele embarca na estação Brás da Linha 3-Vermelha entre 6:15 e 6:23 todas as manhãs, troca para a Linha 1-Azul na Sé 7 minutos depois e desembarca na estação Paraíso entre 6:35 e 6:45 diariamente. Sabemos também que, às terças e quintas, João pega um ônibus para a Barra Funda no final da tarde, onde depois pega o metrô de volta.

Para os planejadores, esta é a vantagem de ticketagem digitalizada: nós aprendemos sobre cada um dos usuários para os quais planejamos. E com isso podemos nos antecipar e pessoalmente interagir com cada usuário de maneira personalizada, facilitando as viagens ou até mesmo incentivando escolhas sustentáveis. Principalmente quando se envolve um smartphone e um aplicativo dedicado. Por exemplo, se a Linha 3-Vermelha opera com velocidade reduzida, podemos avisar João imediatamente, de modo que ele embarque um pouco mais cedo para não se atrasar. Ou então, se há algum acidente na via em seu caminho para a Barra Funda, podemos sugerir rotas e serviços alternativos que o levarão ao seu destino mais rapidamente. Da mesma forma, podemos beneficiar João por suas viagens de bicicleta. Se ele usar o Bike Sampa, podemos lhe dar créditos para as próximas viagens, ou oferecer-lhe um café em algum estabelecimento credenciado perto da estação Paraíso. Tudo através de seu mobile app integrado com o seu Bilhete Único.

A integração de bancos de dados com a comunicação por tecnologias mobile é virtualmente ilimitada. Como cada usuário tende a ter um único cartão, eles funcionam como um RG no mundo virtual, contanto apenas com informações seguras que não ofereçam riscos à sua segurança. Com isto, os sistemas de transportes podem se relacionar individualmente com cada usuário, agindo proativamente na comunicação a partir dos dados coletados das viagens anteriores. É um sistema que torna-se cada vez mais inteligente e mais eficiente a cada trajeto feito. Assim, na próxima vez que a Linha 3-Vermelha estiver saturada ou lenta, seu aplicativo pode oferecer alternativas que o levem à estação Paraíso para que não perca seus horários.

O RioCard, sistema de integração do Rio de Janeiro, é outro exemplo de conectividade (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

Essa história, na realidade, não é ficção científica. Ela já é realidade, e a tecnologia é usada por diversos serviços em outras atividades comerciais, conectando bilhões de usuários com smartphones conectados à internet. A história de João, por sua vez, também não é tão hipotética quanto parece. Ela é uma ilustração de um projeto que a AHEAD fez com a JMP Consultants para a cidade de York, na Inglaterra. É um projeto já em andamento, cujos perfis virtuais e Smart Cards já estão em uso, e aplicativos mobile já integrados no sistema.

Incorporar novas tecnologias digitais ao planejamento abre novos horizontes para a capacidade dos sistemas de transportes de serem mais inteligentes, proativos e personalizados sem grandes construções bilionárias. Não apenas melhoramos os serviços, como também a interação dos transportes com as atividades diárias de cada usuário. Portanto, com investimentos infinitamente menores do que em grandiosas infraestruturas, podemos usar as informações de nossos usuários de forma a servi-los de maneira mais eficiente e individual, transformando os transportes de meras ferramentas em interessantes facilitadores das atividades do dia a dia.