Uma cidade segura é uma cidade justa

Medellín, na Colômbia, passou por uma drástica transformação urbana e agora é sede do WUF7 (Foto: PehMed2020/Flickr)

Post originalmente publicado por Ben Welle e Robin King no TheCityFix.

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À medida que as cidades no mundo em desenvolvimento continuam crescendo, também aumenta a preocupação com a segurança viária. A América Latina registra hoje três vezes mais mortes no trânsito do que a Europa, e a maioria delas vem de acidentes ocorridos dentro das cidades. E as partes mais vulneráveis são as que correm o maior risco: pedestres e ciclistas idosos representam, respectivamente, 45% das mortes entre pedestres e 70% das mortes entre ciclistas no mundo todo.

Melhorar a segurança viária nas cidades em desenvolvimento é crucial para assegurar que esses centros urbanos em constante crescimento tornem-se lugares seguros, sustentáveis e justos para se viver. A chave para alcançar essa segurança? Planejamento urbano inteligente e sustentável.

A conexão entre segurança e justiça é o tópico maior a ser debatido na sétima edição do World Urban Forum (WUF7), organizado pela ONU Habitat, cuja temática deste ano é “igualdade urbana em desenvolvimento – cidades pela vida”. No evento, especialistas da EMBARQ comandarão a sessão “Cities Safer by Design for All”. O painel vai reunir alguns dos principais nomes da área para explorar maneiras pelas quais o design urbano pode melhorar a segurança – e consequentemente a justiça – nas cidades em desenvolvimento.

Na interseção entre segurança, justiça e planejamento urbano

Comunidades em desvantagem são impactadas de forma desproporcional por escolhas míopes de planejamento urbano, sejam os mais pobres – forçados a viver nas periferias da cidade – ou os portadores de deficiência – que encaram obstáculos de mobilidade todos os dias. Princípios de planejamento urbano inteligente podem melhorar a qualidade de vida dessas pessoas e ao mesmo tempo reforçar a segurança geral de uma cidade.

Por exemplo, implementar princípios de planejamento urbano como o desenvolvimento de trânsito orientado (TOD), que encoraja o uso misto dos espaços (residencial e comercial), um layout compacto, o acesso a transporte coletivo de alta qualidade e cria ruas amigáveis aos pedestres, é um passo importante para a criação de cidades habitáveis para todos. Cidades construídas dessa maneira oferecem infraestrutura para caminhar, pedalar e utilizar o transporte coletivo em vez de se apoiar diariamente em um carro – despesa que muitos não podem pagar. Além disso, a implantação de elementos de planejamento urbano sustentável, como ciclovias e calçadas, pode trazer significativos benefícios de segurança por meio da redução da exposição – diminuindo a necessidade do uso de um veículo para se deslocar – e dos riscos – limitando a velocidade máxima e priorizando a segurança de pedestres e ciclistas.

Três cidades mais seguras graças ao planejamento

Conectar segurança e planejamento urbano ainda é um conceito pouco utilizado por grande parte das autoridades locais e mesmo entre os planejadores urbanos. Mas algumas cidades começam a emergir como lideranças nessa área.

  • Cidade do México, México

Para combater seu histórico de expansão urbana, a Cidade do México está investindo nos sistemas de transporte sustentável e revitalizando espaços públicos. O último corredor do Metroplús (sistema BRT da Cidade do México) foi construído seguindo uma linha de “ruas completas”, com o objetivo de planejar ruas feitas para todos – oferecendo infraestrutura segura para transporte coletivo, carros, ciclistas e pedestres. Um bom exemplo da transformação ao longo da Avenida Eduardo Molina é a decisão da cidade de mudar o desenho de um cruzamento confuso e perigoso que forçava carros e ônibus a passar do lado direito da via para o lado esquerdo no semáforo. Uma pesquisa da EMBARQ constatou que ruas com esse tipo de planejamento confuso registram 82% mais acidentes graves e fatais que outras estradas.

A Cidade do México também introduziu os chamados “parklets” que redirecionam o uso do espaço viário – áreas anteriormente ocupadas por carros estacionados são transformadas em novos espaços públicos de interação e convivência. Esses espaços ajudam a diminuir o tráfego e reduzir as distância necessária para atravessar a rua e oferecem áreas protegidas de lazer para as pessoas. A capital mexicana construiu cinco parklets no ano passado e espera chegar a até 150 nos próximos anos.

  • Rio de Janeiro, Brasil

Sede da Copa do Mundo de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, o Rio de Janeiro está usando esses mega eventos como catalisadores para grandes melhorias de infraestrutura e planejamento. Um carro-chefe dos projetos do Rio é o Morar Carioca, iniciativa que está investindo 8,4 bilhões de reais em melhorias de acessibilidade, saúde, educação e meio ambiente nas favelas da cidade.

As favelas colocam um desafio interessante às autoridades municipais, na medida em que se configuram como o espaço de residência dos moradores mais pobres da cidade e são frequentemente excluídas da prestação de serviços. Além disso, a pesquisa de deslocamentos familiares feita pela EMBARQ Brasil revelou que 90% dos moradores se deslocam a pé dentro das favelas e pelo menos 70% utilizam o transporte coletivo quando saem. Em resumo, a proximidade ao transporte é a chave para assegurar que esses moradores tenham acesso a oportunidades de trabalho e demais possibilidades oferecidas pela cidade.

Com isso em mente, o Morar Carioca é uma das primeiras iniciativas de investimento em melhorias estruturais para as favelas do Rio que focam na conexão dessas comunidades com a cidade ao redor via BRT, como é o caso da novo corredor TransCarioca, que vai ligar o coração da cidade à Vila Olímpica em 2016. Sistemas como o TransCarioca vão oferecer às pessoas um acesso que é vital: aos locais de trabalho e demais oportunidades no centro da cidade, além de ajudar a assegurar que os moradores das favelas não sejam excluídos de serviços e benefícios urbanos.

  • Bangalore, Índia

Bangalore é uma das cidades que mais crescem na Índia, com quase 10 milhões de habitantes. A maioria da população depende do transporte coletivo – principalmente ônibus e metrô – para se deslocar, de forma que se faz imperativo que esses serviços atendam as necessidades de todos os moradores. Bangalore, como muitas cidades indianas, abriga muitas pessoas que ganham a vida na economia informal – como vendedores de rua e motoristas de rickshaws – e que dependem do trânsito de pedestres para sobreviver. As estações de ônibus e metrô de Bangalore são centros de atividade econômica mas também de caos e congestionamento. Tentativas anteriores de amenizar esses congestionamentos e melhorar a segurança nessas áreas privilegiaram os carros em detrimento dos pedestres e usuários do transporte coletivo e apagaram a economia informal, atingindo os moradores mais pobres.

Para reverter esse cenário, a EMBARQ Índia está trabalhando com as autoridades locais para tornar os centros de transporte mais seguros tanto para os carros quanto para pedestres e ciclistas e ao mesmo tempo manter a vitalidade da economia informal. Um novo planejamento para as estações do metrô de Bangalore prioriza o acesso seguro ao transporte e reorganiza o espaço público no entorno. As estações replanejadas oferecem vias de acesso mais seguras a outros modais de transporte, como auto-rickshaws e ônibus, e melhoram a qualidade do espaço público. Com os planos agora em desenvolvimento, as autoridades municipais pretendem implementar o novo design das estações nos próximos dois anos, aumentando a acessibilidade e a segurança em algumas das partes mais movimentadas da cidade.

Planejamento urbano e segurança na agenda internacional

É hora de mudar a história do planejamento urbano. Não se trata de construir mais estradas ou condomínios residenciais luxuosos – trata-se de criar cidades mais seguras, habitáveis e saudáveis para uma população em crescimento. Como a edição deste ano do WUF explica, “uma cidade segura é uma cidade justa”.

As discussões no WUF7 podem desempenhar um papel fundamental nessa mudança. Enquanto o evento enfatiza a participação da sociedade civil, os diálogos oficiais levarão em conta os debates do Grupo de Trabalho Aberto Metas do Desenvolvimento Sustentável, esclarecendo questões relacionadas à prosperidade urbana. São tópicos como cidades sustentáveis, assentamentos, infraestrutura e crescimento econômico. O WUF7 é uma oportunidade para que organizações de todo o mundo mostrem exemplos reais para fortalecer e garantir igualdade ao desenvolvimento urbano. Em resumo, os debates do WUF7 são uma maneira de assegurar que cidades mais seguras e justas se tornem um objetivo primário.

Todos os dias, a cada minuto, novas cidades são construídas e as já existentes se modificam e se reestruturam. E o planejamento urbano inteligente pode assegurar que essas cidades sejam feitas para as pessoas – não para os carros.

Traduzido por Priscila Kichler Pacheco, do TheCityFixBrasil.