O triste destino dos carros

Se reciclados, eles valeriam um bom dinheiro. Mas as leis para isso estão emperradas (Foto: Victor Moriyama)

Reportagem de Afonso Capelas Jr, para o Especial Lixo (dezembro de 2013) da National Geographic Brasil. Fotos de Victor Moriyama.

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Em tempos de trânsito cada vez mais caótico nas grandes cidades, a reputação dos automóveis anda arranhada.

São eles os grandes vilões a atravancar uma eficiente mobilidade urbana. No Brasil, há ainda outro fator que denigre a imagem dos veículos automotores – no caso, aqueles que não estão mais rodando: a imensa frota nacional de carros abandonados. Relegados ao deus-dará nos pátios dos departamentos estaduais de trânsito por questões legais – ou até mesmo esquecidos pelas ruas por motivos como falta de pagamento de impostos ou multas em excesso -, eles são milhares espalhados pelas cidades brasileiras, incluindo motocicletas, ônibus e caminhões.

Para agravar a situação, só em 2012 foram emplacados mais de 5,5 milhões de veículos 0 km, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Isso significa que mais veículos deixarão de circular e terão como destino um ferro-velho qualquer.

Quem usava este pequeno caminhão para trabalhar? Mais que qualquer outro tipo de lixo, os veículos parecem ocultar histórias.

Além do perigo ambiental que representam, esses restos mortais de lata também revelam a fortuna que o país deixa de arrecadar por não reciclá-los. O Sindicato do Comércio Atacadista de Sucata Ferrosa e Não Ferrosa do Estado de São Paulo (Sindinesfa) estima que só 1,5% dos veículos fora de circulação é enviado à reciclagem. Nos Estados Unidos e na maioria dos países europeus, o índice alcança 95%. Segundo o Sindinesfa, tudo em um carro pode ser reaproveitado. Em especial, a carcaça e as demais peças de metal. Elas voltam a ser matéria-prima nobre para as indústrias siderúrgicas, que depois abastecem os fabricantes de novos veículos.

Só a cidade de São Paulo abriga uma mina de ouro em carros que já não rodam mais e poderiam ser reprocessados. Em um dos maiores depósitos de veículos apreendidos do país, o Pátio Santo Amaro, milhares deles apodrecem, de forma perigosa, à beira do mais importante manancial de abastecimento de água da capital paulista, a represa de Guarapiranga, na zona sul da cidade. Na área de 80 mil metros quadrados, situada a menos de mil metros do manancial, estão armazenados cerca de 20 mil veículos, retirados das ruas pelo poder público. São automóveis e motocicletas roubados, com chassi adulterado ou com irregularidades a ameaçar de contaminação as águas que boa parte dos paulistanos bebe. Pela lei, cada um deles só poderia estar ali por até três meses. Caso os proprietários não regularizem a situação, esses automóveis deveriam ir a leilão.

Mas grande parte dessa frota fantasma enferruja no Pátio Santo Amaro há mais de dez anos. A área é particular, e foi alugada pelo estado só para a guarda dos veículos irregulares. O que era para ser um bom negócio ao proprietário se transformou em estorvo e um grande imbróglio judicial, contra o governo, que se arrasta há anos. Amargando um prejuízo do tamanho de seu terreno, o proprietário demitiu os funcionários que cuidavam dos veículos, que agora estão à mercê das intempéries e dos ladrões, que abastecem de peças desmanches clandestinos. “O Tribunal de Justiça de São Paulo acaba de intimar, pela quinta vez, o governador para retirar os veículos daqui. E isso deve ser feito antes que aconteça um grande estrago ambiental”, diz um representante do Pátio Santo Amaro, que não quis se identificar por temer represálias. Há muitas áreas semelhantes ao redor da represa de Guarapiranga.

Nem mesmo o Conselho Nacional de Trânsito (Contran) sabe exatamente quantos veículos estão sepultados em cemitérios irregulares. Questionado, o Contran – por meio da assessoria de comunicação social do Ministério das Cidades, ao qual está subordinado – limita-se a dizer que o assunto é de competência de cada órgão de gestão viária dos estados e municípios. Mas reconhece que as questões legais emperram a liberação dos veículos para a reciclagem, já que “a alienação de sucata de veículo por órgão público deve cumprir de forma rigorosa a lei de licitações, e envolve muitas formalidades”, informa a assessoria.

Fungos tingem de verde parte dos milhares de automóveis amontoados a céu aberto no Pátio Santo Amaro, em São Paulo.

É uma pena saber que essa rica matéria-prima poderia retornar à cadeia produtiva – incrementando a economia e gerando empregos -, sem comprometer os recursos naturais, escassos, mas definha à sombra do descaso. O Sindinesfa contabiliza, hoje, entre 3 milhões e 4 milhões o número de veículos em condições de reciclagem no país. “Não é por falta de empresas recicladoras muito menos de tecnologia”, garante Valentin Scamilla, presidente do sindicato dos sucateiros. “Podemos processar mais de 12 milhões de toneladas de sucata ferrosa ao ano.” Ele diz ainda que nossa indústria de reciclagem de ferro e aço é uma das mais modernas do mundo. “O processo com máquinas trituradoras destrói um carro em menos de um minuto. E tudo de forma ecologicamente correta”. E acrescenta: “Muitos dos veículos depositados nos órgãos de trânsito estão sub judice, o que requer alvará judicial para ser alienados, providência também cercada de exigências legais”. A assessoria conclui que “os órgãos estão administrando essas formalidades com desenvoltura”. Não é o que se vê em São Paulo.

O procedimento começa com eventuais descontaminações e separação do material ferroso das demais peças de plástico e borracha, fios e cabos elétricos, além da parafernália eletrônica com que são equipados os modelos mais modernos. “Damos destinação correta a todos os materiais e acessórios do veículo. Tudo é separado e encaminhado à reciclagem”.

A passeio ou a negócio? Janela ou corredor? Memórias de antigos viajantes habitam o vazio de uma carcaça de ônibus.

Para o presidente do Sindinesfa, além das tais formalidades, são muitos os empecilhos que dificultam o reaproveitamento de carros em desuso. “A falta de incentivos e de uma legislação de abrangência nacional está entre as principais lacunas. Para ter uma ideia, a reciclagem de veículos ainda nem consta como obrigação na nova Política Nacional de Resíduos Sólidos”. Scamilla confirma que seu sindicato – ao lado do Instituto Nacional das Empresas de Sucata Ferrosa (Inesfa), do qual é afiliado – enviou documento aos poderes legislativo e executivo federais com sugestões para que uma eficiente regulamentação permita a logística reversa e a reciclagem de veículos automotores em fim de vida útil.

De olho em um incremento na renovação da frota nacional, a Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave) também propôs um plano que, desde 2012, está nas mãos de representantes do governo federal. Chamado de Programa de Reciclagem Veicular, o foco é ainda mais abrangente. “A premissa é retirar de circulação, via incentivos, veículos antigos que podem causar congestionamentos e acidentes”, diz Flávio Meneghetti, diretor da Fenabrave.

Tanto esforço por parte do empresariado deu algum resultado. Em julho de 2013, foi aprovado um projeto de lei do Senado que garante a obrigatoriedade da reciclagem de veículos fora de circulação no país. Ele prevê que veículos leves ou pesados de carga e de passageiros, no fim de seu ciclo de vida, entrem no sistema de logística reversa da PNRS. Quem deverá promover o recolhimento e o encaminhamento das sucatas à reciclagem será o próprio fabricante, de acordo com o projeto de lei, que, por enquanto, está nas mãos de três comissões do Senado, sem data para aprovação: a de Assuntos Sociais, a Econômica e a do Meio Ambiente. “A lei representará o primeiro passo para que o Brasil siga exemplos bem-sucedidos de outros países e institua um programa de renovação na frota de veículos de forma correta e organizada”, comenta Scamilla sobre a determinação que pode, enfim, acabar com essas latas velhas no Brasil.

Antes proteção para o motorista, a cruz no retrovisor vela agora pelo carro que, sem uso ou reciclagem, não passa de lixo.