O mercado global de automóveis na próxima década

Países do BRIC devem dominar o mercado global de automóveis no fim da próxima década: o que fazer com tantos carros? (Foto: Valor Econômico/Reprodução)

Segundo informações do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), nos últimos dez anos o número de carros circulando nas grandes cidades do Brasil sofreu um aumento de 50%. E deve continuar crescendo.

Um estudo realizado pela empresa de consultoria KPMG prevê que o Brasil, atualmente o quarto entre os maiores mercados consumidores de automóveis, deverá se manter na posição até 2020.  Com uma frota de 77 milhões de veículos, 3,5 milhões vendidos em 2012, o país deve seguir a curva ascendente até atingir a marca de 5,8 milhões de automóveis vendidos em 2020.

O trabalho, intitulado Mercado varejista global de automóveis (parte 1, parte 2), mostra que hoje o mercado mundial é liderado pela China, onde mais de 19 milhões de veículos foram vendidos em 2012, seguida pelos Estados Unidos, onde foram vendidos 14,5 milhões de carros no mesmo ano, situação que também não deve mudar. O diferencial está por conta dos países que vem logo em seguida nessa lista, notadamente os que compõem o chamado BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China).

Os países do BRIC vão dominar o mercado global de automóveis dentro dos próximos dez anos, ocupando quatro das seis primeiras posições no ranking, conforme a tabela abaixo. A Índia apresenta a diferença mais significativa, passando do atual sexto lugar para o terceiro em 2020. O Japão, por outro lado, que até 2005 era o segundo maior mercado do mundo, atrás apenas dos Estados Unidos, deve cair para a quinta posição nos próximos anos.

(Tabela: KPMG Research & Analysis)

Mudança de mentalidade

A expansão do mercado automobilístico brasileiro não é um fato novo ou inesperado. De acordo com Aílton Brasiliense, presidente da ANTP, a frota nacional deve dobrar até 2023, chegando aos 140 milhões de veículos, segundo afirma em entrevista ao Portal Mobilize. Para ele e para outros especialistas da área, o problema não é a posse do carro, mas o uso irracional que costuma ser feito dele no Brasil.

Martin Gegner, doutor em Sociologia Urbana pela Universidade Técnica de Berlim e professor visitante da USP, atentou para a questão em um painel com especialistas brasileiros e alemães para discutir a mobilidade nas grandes cidades. Segundo o sociólogo, o Brasil e os brasileiros ainda associam o transporte coletivo às classes baixas, privilegiando o automóvel, e mudar esse paradigma depende não só de políticas públicas, mas de uma mudança na mentalidade do brasileiro.

Na Europa, por exemplo, temos quase o cenário oposto. Em agosto, as vendas de carro no continente caíram ao nível mais baixo desde que o dado começou a ser medido, em 1990. A queda foi de 4,9%, de 722 mil carros para 686 mil, em comparação ao mesmo período do ano passado. Considerando os oito primeiros meses do ano, a queda foi ainda maior, de 5,2%, ou apenas 8,14 milhões de carros vendidos, de acordo com a ACEA (Associação Europeia dos Fabricantes de Automóveis).

Isso se deve em parte à crise econômica de muitos países europeus, mas também à mudança de comportamento que vem se instalando nos últimos anos. Na Itália, em 2012, pela primeira vez em quase 50 anos a venda de bicicletas superou a de carros, e capitais como Copenhague, Paris, Amsterdã, entre outras, cada vez mais tomam medidas que priorizam os meios coletivos de transporte e a bicicleta em detrimento dos carros, chegando até a registrar congestionamentos do bem.