Como o transporte público pode reduzir as mortes no trânsito enquanto as cidades crescem

Com o aumento das populações urbanas, é preciso reforçar os sistemas de ônibus e trens nas cidades se quisermos reduzir o número de acidentes de trânsito (Foto: EMBARQ Brasil)

Por Claudia Adriazola*

As cidades em todo o mundo estão prestes a ficar muito mais ocupadas. Hoje, mais de 50% da população global vive em áreas urbanas; em 2050, esse índice terá chegado a 75%.

Essa migração em massa pode resultar em ruas  repletas de poluição atmosférica, acidentes de trânsito e congestionamentos. Ou poderia gerar um boom de centros urbanos limpos e compactos, com áreas seguras e saudáveis. A maneira como as cidades serão no futuro será moldada pela forma como são planejadas e desenvolvidas agora.

Muitas cidades enfrentam grandes obstáculos quando se trata de segurança no trânsito, qualidade do ar e inatividade física. À medida que as populações aumentarem, esses desafios vão se tornar ainda mais urgentes.

Mais de 90% das mortes no trânsito acontecem em países de média e baixa renda, justamente onde o processo de urbanização está se acelerando mais rapidamente. Cerca de 1,3 milhão de pessoas morrem prematuramente a cada ano em decorrência da poluição do ar nas cidades, um número que só vai aumentar à medida que mais carros entrarem nas ruas. Atualmente, 1,2 milhão de pessoas morrem e aproximadamente 50 milhões são feridas em acidentes de trânsito todos os anos. Quase metade desses acidentes acontece nas cidades.

Enquanto as cidades enfrentam grandes desafios, são ao mesmo tempo motores de crescimento econômico. É importante que os planejadores urbanos trabalhem para manter essa atividade econômica, mesmo enquanto desenvolvem projetos urbanos que sejam sustentáveis e bons para a saúde pública. Planejamento urbano inteligente pode melhorar consideravelmente a segurança viária, a qualidade do ar e a atividade física nas cidades em todo o mundo.

À medida que as populações aumentam, os desafios com a segurança viária tornam-se ainda mais urgentes (Foto: Departamento de Estradas de Rodagem-DER)

Tudo começa com uma visão: em que tipo de cidade nós queremos viver? Quanto tempo nós queremos gastar com deslocamentos para o trabalho, ou com nossos amigos e familiares, ou com nossa atividade favorita? Queremos aceitar os mortos e feridos no trânsito como a norma? Quão importante é para nós viver em um ambiente saudável? Para os moradores das cidades, essas questões podem impactar muito a qualidade de vida.

Alguns planejadores escolhem expandir os limites de uma cidade conforme a população cresce; o resultado é um espalhamento urbano. Em cidades como Mumbai, Cidade do México, Rio de Janeiro e Istambul, muitas pessoas são forçadas a percorrer distâncias consideráveis para ir trabalhar, ter acesso aos serviços de que têm necessidade e geralmente isso se estende por suas vidas. O número de carros nas vias aumenta com esse espalhamento urbano, assim como o risco de acidentes. A poluição atmosférica fica ainda pior, e a qualidade de vida diminui.

Por outro lado, planejadores com visão de futuro são capazes de projetar cidades compactas que geram um impacto positivo sobre a saúde humana. Em áreas com quarteirões pequenos, os veículos fazem paradas com mais frequência e normalmente circulam em velocidades menores. Cidades com velocidades médias dos carros mais baixas e menos interseções complexas são mais seguras tanto para os motoristas e passageiros quanto para os pedestres.

Planejamento urbano compacto também pode estimular a atividade física. Cidades densas como Amsterdã, Nova York e Copenhagen oferecem aos moradores mais oportunidades de caminhar ou andar de bicicleta. Porque mais deslocamentos podem ser feitos sem carro, menos veículos são vistos na rua. Isso reduz o risco de acidentes e diminui as emissões de gases de efeito estufa e outras formas de poluição atmosférica. Finalmente, cidades mais densas fazem com que a implementação de um transporte público de alta qualidade seja muito mais viável economicamente.

São boas notícias sob a perspectiva da saúde pública. Uma pesquisa da EMBARQ, o Centro de Transporte Sustentável do World Resources Institute, mostrou que sistemas de transporte de massa bem planejados são muitas vezes mais seguros do que os veículos particulares, o típico meio de transporte em uma cidade expandida. Por exemplo, em Guadalajara, 99% dos acidentes envolvem carros particulares. Apenas 1% dos acidentes acontece no corredor do Macrobus (BRT).

A magnitude dos desafios que as cidades enfrentam pede novas soluções estruturais. E algumas cidades estão fazendo progressos. A EMBARQ está trabalhando com profissionais em mais de 50 cidades em seis países para redesenhar ruas e espaços públicos, dar às pessoas melhores opções de deslocamento e melhorar os sistemas de transporte de massa. Na Cidade do México, por exemplo, a EMBARQ apoiou a construção de quase 997 km de corredores BRT. Esses sistemas de transporte diminuíram o tempo dos deslocamentos relacionados a trabalho e estudo em aproximadamente 12 milhões de horas por ano, reduziram os índices de feridos e mortos em acidentes de trânsito em cerca de 40% e eliminaram mais de 113 mil toneladas de emissões de dióxido de carbono por ano.

Muitas das cidades em crescimento hoje estão se expandindo, o que vem aumentando os desafios urbanos. Mas não precisa ser assim. Os planejadores urbanos precisam focar em design inteligente, transporte público e na criação de novos espaços e oportunidades para caminhar e pedalar. As comunidades urbanas e o meio ambiente dependem disso.

*Claudia Adriazola é diretora do programa de saúde e segurança viária do World Resources Institute.

Este artigo foi publicado originalmente pelo The Guardian, em 03/09/2013.

Traduzido por Priscila Kichler Pacheco.