Entrevista: Zé Lobo explica como a bicicleta transformará o centro do Rio

Zé Lobo, da ONG Transporte Ativo, prevê que a bicicleta terá importante papel integrador no novo conceito de mobilidade do centro do Rio de Janeiro (Foto: Veja Rio)

Uma paixão que virou negócio e aos poucos foi se tornando a causa de uma vida. Esse é, em resumo, o papel da bicicleta na trajetória do designer carioca Fernando José Lobo, fundador da ONG Transporte Ativo. Amante das “magrelas” desde criança e ex-dono de uma locadora de bikes, “Zé”, como é conhecido, toca agora o projeto mais ambicioso desde que resolveu, há mais de dez anos, mergulhar de vez no cicloativismo. Trata-se de uma malha cicloviária integrada para o centro da cidade (chamada Ciclo Rotas) envolvendo uma infraestrutura de 33 quilômetros, entre ciclovias, ciclofaixas e vias compartilhadas. O plano, concebido de maneira colaborativa, foi recém-aprovado na esfera municipal e promete tornar uma área que hoje é um domínio caótico de carros e ônibus em uma “zona franca” para o pedal, como elemento integrador de diversos meios de transporte de massa. Nesse bate-papo, Zé fala sobre as recentes conquistas do projeto e revela como essa ideia começou.

TheCityFix Brasil – Em que pé está o Ciclo Rotas?

Zé Lobo – A malha proposta foi aprovada pelo prefeito Eduardo Paes e já faz parte do planejamento do município. Essa foi a informação que tiveram em primeira mão representantes do nosso projeto após reunião com a Prefeitura. Ou seja, o efeito que a gente estava buscando aconteceu e essa rede tem tudo pra virar realidade.

TCFB – O Rio tem planos cicloviários de longa data, e boa parte deles não saiu do papel. É possível ficar tão confiante que o Ciclo Rotas vai emplacar?

ZL – Há importantes fatores contando a favor do projeto. O sistema de aluguel de bicicletas Bike Rio, que já conta com mais de 1,5 milhão de viagens, vai quadruplicar de tamanho na cidade. Somente no centro da capital estão previstas 70 estações, contra duas hoje, e é necessário haver uma infraestrutura que apoie a circulação de todas essas bikes. Além disso, o custo de implantação do Ciclo Rotas é baixo, cerca de R$ 6 milhões, podendo cair para apenas R$ 600 mil caso o valor esteja embutido em outras obras de infraestrutura, como contrapartida ambiental.

Com o projeto, centro do Rio será integrado por 33 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e faixas compartilhadas (ilustração: Transporte Ativo)

TCFB – Por que o centro foi escolhido para a proposta?

ZL – O centro vai passar por inúmeras transformações com o projeto de revitalização da zona portuária, que faz parte da região central da cidade. Então pensamos: por que não aproveitar que o padrão de mobilidade vai mudar totalmente naquela área, com a implantação de cinco linhas de VLT e uma de BRT, e acrescentar a questão da bicicleta? As pessoas vão ter que se acostumar a circular no centro de outras formas, então nada mais oportuno do que encaixar a bike nesse novo modelo mais racional e sustentável.

TCFB – O projeto de revitalização já não previa incentivar o uso da bicicleta?

ZL – O chamado “Porto Maravilha” já incluía a implantação de 17 km de ciclovias na área específíca do cais, mas essa rede ficaria isolada. No Ciclo Rotas, incorporamos essa malha e propomos integrá-la a uma estrutura ciclística maior, abrangendo toda a região central do Rio. Além disso, o projeto prevê ligações diretas com ciclovias atuais e futuras das zonas Norte e Sul do Rio, potencializando o uso da bicicleta por toda a cidade.

TCFB – O Rio de Janeiro é uma cidade espalhada, onde um imenso número de pessoas tem de percorrer diariamente dezenas de quilômetros entre casa e trabalho. Qual o papel da bicicleta nesse longo deslocamento?

ZL – O grande lance da bicicleta é a integração com o transporte público. A pessoa pode usar a bicicleta para se deslocar por perto do trabalho ou da residência, mas como o Rio é gigante, tem de haver conexões na hora de ir mais longe. E essas conexões vão existir no Ciclo Rotas, que ligará todas as estações de metrô, barcas e trens do centro, além das futuras estações de VLT e de BRT. Isso dará grande utilidade e flexibilidade ao uso de bikes.

TCFB – Como nasceu o projeto e essa abordagem colaborativa?

ZL -Tudo começou ano passado, quando surgiu a ideia, entre um grupo de cicloativistas, de um abaixo assinado em prol de ciclovias para o centro da cidade. Depois de muita conversa, pensamos melhor: porque não ir além e desenhar nós mesmos, os ciclistas, essa malha? O passo seguinte foi reunir as pessoas interessadas no Studio-X Rio (parceiro do projeto junto com o ITDP Brasil e a Transporte Ativo), juntar o que já existia de planos para o centro e desenvolver novas ideias.

TCFB – Houve também pesquisa de campo?

ZL – Sim, além de perguntar onde as pessoas estavam pedalando e onde elas gostariam de ir de bike, chegamos a fazer contagens de apoio, em que identificamos mais de 3 mil ciclistas passando por cinco locais-chave – atualmente sem qualquer ciclovia – num intervalo de apenas 12 horas. Depois, sobrepusemos todas as rotas, priorizamos os percursos mais utilizados e chegamos ao mapa final que está exposto no Studio-X Rio.

TCFB – O que mais o surpreendeu no projeto?

ZL – O Ciclo Rotas conseguiu unir em torno de um objetivo comum gente que pedala, que não  pedala, urbanistas, arquitetos e pessoas em geral interessadas pelo centro. Esse tipo de colaboração funciona para outras causas que não as das bicicletas, e pode ser reproduzida em qualquer cidade, em qualquer bairro. É algo simples, mas que pode mudar toda uma comunidade.

TCFB – Levando-se em conta a diferença que ainda separa as capitais brasileiras de cidades como Copenhague ou Amsterdã em termos de uso da bicicleta e respeito ao ciclista, é possível chegar algum dia ao ponto que esses lugares atingiram?

ZL – Diria que, no Rio, levaremos uns 15 ou 20 anos pra alcançar o patamar em que eles têm hoje.

TCFB – Otimismo?

ZL – Sim, sou um otimista. Hoje ainda vivemos o predomínio absoluto do carro, mas não há mais espaço pra eles reinarem sozinhos. É preciso haver outras maneiras para se deslocar nas cidades brasileiras, otimizar a mobilidade, criar opções. E nesse contexto a cultura da bicicleta nunca esteve tão forte, e só tem a crescer. Ela veio para ficar.

Os três tipos de tipologias cicloviárias se complementam e permitem mais flexibilidade à criação de rotas para bicicletas.