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Descobrindo paraísos para andar a pé

(Foto: Urban Grammar)

Para muita gente, os Estados Unidos são o ápice da chamada “civilização do automóvel”. Cidades espalhadas, uma infinidade de highways e uma cultura voltada ao transporte individual parecem fazer com que a vida só seja possível sobre quatro rodas naquele país.

Verdade? Nem sempre, é o que revela a urbanista americana Julie Campoli em seu recente livro Made for Walking – Density and Neighborhood Form (“Feito para Caminhar – Densidade e Forma Urbana”), lançado no final de 2012 pelo Lincoln Institute de Política Territorial (EUA).

Em sua obra, Julie selecionou, fotografou e analisou doze comunidades norte-americanas onde um conjunto de características urbanísticas combinadas diminui o uso do automóvel e faz com que caminhar, pedalar e usar transporte público sejam opções cada vez mais presentes no dia-a-dia das pessoas.

Ao identificar os “paraísos para pedestres”, divulgando-os no livro e em diversas palestras pelos Estados Unidos e Canadá, Julie pretende inspirar planejadores urbanos a seguir o exemplo desses lugares e criar mais ambientes propícios à mobilidade sustentável, com impactos positivos para a economia, o meio-ambiente e a saúde da população.

Os seis elementos-chave da “andabilidade”

Segundo a autora, todas as doze comunidades se tornaram lugares exemplares porque reúnem o que ela chama de os cinco “D”s e um “E” da mobilidade sustentável:

“Descentralizar”: um bairro onde os serviços estejam acessíveis é fundamental para as pessoas irem a pé. (Foto: Urban Grammar)

Densidade: intensificar o uso do solo urbano (ou seja, aumentar o número de pessoas, moradias, negócios e empregos por quilômetro quadrado) foi durante anos considerado nos Estados Unidos um fator capaz de, sozinho, provocar a diminuição do uso do automóvel. Embora continue não havendo dúvidas da importância da densidade para o êxito de política públicas a favor da mobilidade sustentável, a autora menciona em seu livro estudos recentes comprovando que este elemento depende de outras variáveis para fazer diferença. “Você pode morar num arranha-céus, mas se seu bairro for isolado, desagradável para caminhar e mal atendido pelo transporte público, você vai dirigir constantemente e para longe”, resume Julie.

Diversidade: um bairro diverso é aquele em que o morador ou trabalhador encontra tudo o que precisa sem sair da vizinhança: restaurantes, farmácias, supermercados, bancos, cabeleireiros, lanchonetes, creches e outros serviços, tudo alcançável a pé ou de bicicleta. Segundo a urbanista, um elevado nível de diversidade – o que inclui múltiplas opções de moradia para os distintos perfis etários e de classe social – também aumenta a possibilidade de mais pessoas trabalharem perto de casa, reduzindo ainda mais a dependência do carro.

Distância para o transporte público: na hora de optar entre o carro ou uma condução, pesam fatores como tempo de espera, confiabilidade, conforto e impacto no orçamento pessoal. Entretanto, Julie chama a atenção para pesquisas indicando que a pergunta mais importante, ao menos no contexto americano, é “quanto vou ter que andar até o ponto ou estação?”. Ela completa: “uma rede densa de rotas e paradas deve garantir que os passageiros não tenham longas jornadas a pé associadas ao início ou ao fim do percurso”, o que aumenta a atratividade do sistema.

Distância, qualidade e rapidez do transporte público são decisivos na hora de optar pelo automóvel particular. (Foto: Whl Travel)

Destino acessível: o fator mais fortemente ligado à diminuição do uso do automóvel, sustenta a especialista, é a chamada acessibilidade do destino (ou destination accessibility, formando a letra D do original em inglês). Ou seja: um bairro próximo do centro de negócios da cidade, ou de onde facilmente se chega a áreas com grande número de empregos e atrações, pode ser considerada um local de alta acessibilidade do destino, reduzindo a necessidade de grandes deslocamentos de carro.

Design: para aumentar a atratividade da caminhada, do uso da bicicleta ou do transporte público, é necessário tornar a paisagem urbana mais convidativa: o trajeto não pode ser um obstáculo a ser vencido para ir de um ponto ao outro, mas sim uma experiência agradável, uma atração à parte. Calçadas largas, praças, arborização abundante e um traçado de ruas com quadras pequenas e muitas esquinas são elementos importantes para conferir qualidade e flexibilidade aos percursos sem carro.

Estacionamento: Priorizar o pedestre e ter estacionamento farto são dois objetivos inconciliáveis no planejamento urbano: só é possível alcançar um em detrimento do outro. Isso acontece porque reservar extensas áreas para vagas encoraja o uso do transporte individual, aumenta desnecessariamente as distâncias e degrada o espaço do pedestre. De acordo com especialistas consultados pela autora, ao invés de exigir um número mínimo de vagas para cada empreendimento, as municipalidades deveriam limitar a criação de vagas, principalmente no centro das cidades, ruas comerciais e arredores de pontos de ônibus. Substituir vagas por bicicletários também é uma importante medida no esforço integrado em prol da mobilidade sustentável.

Paisagem urbana convidativa também influencia na mobilidade urbana. (Foto: Paul Kruger)

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