Entrevista: Carlos Dora fala sobre a relação entre transporte e saúde

Carlos Dora: impactos do modelo de transporte urbano na saúde são grandes (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

Na palestra que oficializou o início do Seminário Nacional NTU 2013, o epidemiologista Carlos Dora, coordenador do Departamento de Saúde e Meio Ambiente da Organização Mundial da Saúde (OMS), falou sobre a relação entre transporte e saúde. Por ano, são 3,3 milhões de mortes no mundo em decorrência de problemas causados pela poluição atmosférica e pouco mais de um milhão por acidentes. “O transporte tanto pode ser um facilitador quanto um empecilho para a qualidade da saúde. Os lugares com mais espaço dedicado aos ciclistas e pedestres e ao transporte coletivo são aqueles onde estão os menores índices de acidentes”, afirmou.

Na ocasião, Dora recebeu de Eurico Galhardi, presidente do Conselho Diretor da NTU, a Medalha do Mérito Social do Transporte Urbano Brasileiro 2013. O epidemiologista trouxe ao público informações sobre doenças diretamente ligadas ao sistema de transporte utilizado e ressaltou que “a combinação de percursos percorridos a pé, de bicicleta e por meio do transporte coletivo é o melhor modelo para a mobilidade urbana”. Ao final da palestra, Dora conversou com a equipe do TheCityFix Brasil:

Qual a relação da saúde com transporte urbano?

CD – É fortíssima e fácil de entender. O modelo de transporte urbano visto hoje causa acidentes de tráfego, poluição do ar e a dificuldade de as pessoas caminharem nas ruas ou andarem de bicicleta de forma segura. Só esses três impactos já são muito grandes. Além disso tem os ruídos e uma série de outras situações. Um questionamento básico para perceber é se perguntar: uma criança pode brincar na rua? Você se sentiria seguro em deixar uma criança brincar na calçada? Qual o sistema de transporte pode ser usado por todos e de forma útil – gestantes, idosos, crianças? É fácil de perceber essa relação. E ela fica mais evidente ainda se quantificarmos em números. [Atualmente, mais de 6 milhões de pessoas morrem todos os anos em decorrência de problemas causados pela poluição atmosférica; pelo menos metade desse número vem da poluição decorrente do trânsito.]

O que uma cidade pode fazer para melhorar o transporte e, ao mesmo tempo, a saúde da população?

CD – Na OMS nós temos estudado muito essa questão. Por meio de embasamento científico, nós constatamos que existe um trio, que nós chamamos de trio virtuoso, saudável para as cidades: BRT (ou transporte coletivo de alta qualidade), associado a espaços públicos e seguros para pedestres e ciclistas. Uma cidade em que boa parcela da população faça uso desse trio como meio de locomoção é uma cidade cuja população vai ter mais saúde. Isso é fato. Além de mais sustentabilidade no sistema de transporte.

Quais as principais doenças relacionadas ao sistema de transporte da forma como ele é hoje?

CD – As mais características são as não transmissíveis: doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes, doenças respiratórias e cânceres. A poluição atmosférica, por exemplo, causa mais as respiratórias e cardiovasculares. A falta de atividade física está relacionada, além da obesidade, a outras doenças cardiovasculares e alguns tipos de câncer. Essa relação depende de como o transporte funciona – ele pode aumentar ou diminuir esses riscos. Ou seja, ao optar por um meio mais sustentável, você acaba conseguindo muito mais benefícios. O ideal é olhar para qual sistema de transporte que a cidade utiliza, em que proporção, e o quanto isso traz de benefícios para a população, essa é a maneira ideal de medir essa relação.