As manifestações e a mobilidade urbana

Texto por Luísa Zottis e Priscila Kichler Pacheco

Manifestações em diversas cidades brasileiras pedem um transporte público de qualidade (Foto: Rodolfo Buhrer/Reuters)

Os brasileiros saíram às ruas nas últimas semanas para pleitear uma série de direitos enquanto cidadãos. O movimento, que teve início em razão do aumento das tarifas de ônibus de várias cidades, tomou proporções cada vez maiores e ampliou a reivindicação também para outras esferas.

Para ter a dimensão dos protestos, só na quinta-feira (20) mais de 1 milhão de pessoas se reuniram em 25 capitais brasileiras, além de outras cidades.

Diante deste cenário histórico no país, o TheCityFix Brasil elencou quatro das grandes reivindicações do movimento que estão diretamente inseridas em uma questão bastante pertinente: a mobilidade urbana.

Entendemos que cada cidade tem suas singularidades. Por isso, nosso objetivo é contribuir com esse debate abordando aspectos centrais, que podem ser aplicados tanto a uma cidade quanto outra.

Também convidamos você a somar esforços conosco e contribuir com comentários, críticas e sugestões sobre cada reivindicação.

Confira o que está sendo pleiteado e a opinião de especialistas: 

Redução tarifária do transporte coletivo

“A tarifa urbana resulta de um calculo onde entram muitos fatores”, explica o diretor-presidente da EMBARQ Brasil, Luis Antonio Lindau. Um deles, muitas vezes ignorado, é o congestionamento. Quanto mais congestionadas as vias e menor a velocidade, mais ônibus são necessários para atender à demanda com o mesmo intervalo entre um e outro. A conta é lógica: mais ônibus, mais funcionários, mais custos. Daí a importância da priorização do transporte coletivo.

O ônibus é o principal modal de transporte de massa do país, portanto, retirá-lo do congestionamento é uma medida que vai contribuir para a redução da tarifa. A iniciativa de muitas cidades brasileiras de implantar corredores exclusivos com ônibus de alta capacidade e eficiência – os chamados BRT (Bus Rapid Transit) – têm grande potencial para isso.

O BRT TransOeste, no Rio de Janeiro. (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

Conheça todos os fatores levados em consideração no cálculo da tarifa pelo custo médio acessando o manual Geipot, do Governo Federal, utilizado em grande parte das cidades brasileiras:

Clique na imagem para acessar o manual.

Transporte público de qualidade

Uma das principais reivindicações dos manifestantes é um transporte público de qualidade. As exigências de transparência no processo, eficiência no serviço e melhorias na mobilidade urbana estavam nos cartazes e nas palavras entoadas pelas ruas. Quem mora ou circula nas grandes cidades brasileiras sente esses problemas diariamente. Sabemos, a solução para a mobilidade urbana não é imediata, mas o caminho para alcançá-la pode começar a ser percorrido agora. Engenheiro, PhD em transportes, o diretor-presidente da EMBARQ Brasil, Luis Antonio Lindau, acredita que aliando “incentivos ao transporte não motorizado e a restrição ao uso do automóvel, pode-se dar início ao movimento de retomada das cidades por seus habitantes”. E o transporte coletivo entra nesse cenário como uma das principais alternativas ao veículo privado.

Ao oferecer um serviço que una eficiência, velocidade, conforto e capacidade tanto de atender a demanda de passageiros quanto de atrair os motoristas para que abandonem ou utilizem menos o carro, os sistemas de transporte coletivo têm um papel central quando o assunto é promover e melhorar a mobilidade urbana. Para Lindau, o Brasil ainda tem grandes desafios nessa área: “Os primeiros passos estão sendo dados. Algumas cidades estão implantando corredores prioritários que livram o ônibus do congestionamento. A Europa nos mostra o caminho: a necessidade de trabalhar em várias frentes para alcançarmos mobilidade com qualidade”.

Corredor exclusivo do Transoeste (Foto: Daniela Facchini/EMBARQ Brasil)

Ampliação e melhoria dos sistemas BRT (Bus Rapid Transit) e metrô

O arquiteto e urbanista e ex-prefeito de Curitiba Jaime Lerner defende o transporte de superfície em detrimento do metrô. “O futuro está na superfície, mas é fundamental que cada implantação do BRT seja bem operada, integrada ao uso do solo e com visão de crescimento das cidades”, explica, em entrevista  concedida ao portal do CongressoSIBRT. Para ele, é necessário “metronizar” o ônibus. A expressão, de sua autoria, significa dar ao ônibus a mesma performance do metrô, onde o usuário paga a passagem em estações externas e não dentro do ônibus, agilizando a entrada dos passageiros.

“Com os ônibus é possível ter frequência de minuto em minuto, com o metrô não. As pessoas simplesmente não irão acreditar em uma alternativa que não é melhor. Temos que oferecer um sistema de altíssima qualidade para mudar o paradigma”, explica Lerner.

Segundo o urbanista, uma das grandes vantagens do transporte de superfície é o custo: 20 vezes menor por quilômetro se comparado aos subterrâneos.Além disso, a rapidez na implantação, que é de 2 a 3 anos. A operação em si já se paga, ou seja, não há necessidade de subsídios, se bem planejado; não é preciso sacrificar gerações para oferecer um sistema de transporte de qualidade”.

O BRT em Bogotá, na Colômbia. (Foto: Mariana Gil/EMBARQ Brasil)

Valorização e segurança de pedestres e ciclistas 

Pelo Código de Trânsito Brasileiro, ciclistas e pedestres têm preferência sobre veículos, mas, na prática, quem costuma passar na frente é o carro. Por isso, são fundamentais medidas e políticas que promovam a valorização e a segurança dos ciclistas e pedestres, os elos mais vulneráveis no trânsito. O Vá de Bike, organização criada em 2002 que trabalha para incentivar o uso da bicicleta, reúne dicas de segurança para os ciclistas urbanos. Não pedalar na contramão, sempre usar as ciclovias (quando disponíveis), utilizar os itens de segurança (capacete, luzes, espelho retrovisor), fazer a sinalização em conversões e trocas de pista, prestar atenção aos carros em movimento e às portas dos que estiverem parados, entre tantas outras.

Mas é imprescindível considerar também os cuidados que cidades e governantes devem ter com ciclistas e pedestres. Ações integradas entre os diversos setores que gerenciam as políticas urbanas são fundamentais para a redução de acidentes e a valorização dos meios não motorizados. Além do incentivo ao uso da bicicleta como meio transporte, por meio da construção de uma rede cicloviária nas cidades, como parte de um sistema único, muiltimodal e abrangente de transporte urbano, na concepção de Luis Antonio Lindau, mais uma vez o estímulo ao transporte coletivo e a redução de veículos circulantes são as mais significativas dessas ações.

Guillermo Petzhold também colaborou com este post