“O carro é o cigarro do futuro”

Jaime Lerner é o pai do sistema BRT de Curitiba e acredita que a cultura do carro logo será coisa do passado (Foto: Antonio Milena)

Por Luis Gutierrez, diretor da EMBARQ na América Latina

De acordo com Jaime Lerner, o escapamento do carro é novo fumo passivo. O visionário arquiteto, urbanista e ex-prefeito de Curitiba há muito tem sido claro a respeito do crescente estigma social em torno do uso de veículos particulares. De fato, Lerner prevê que o carro particular em breve se tornará um incômodo social tal qual o cigarro: “Você pode usá-lo”, diz, “mas as pessoas vão se sentir incomodadas”. Em uma palestra no III Congresso As Melhores Práticas SIBRT na América Latina, Lerner insistiu nesse ponto, afirmando que “não há futuro para as cidades se elas dependerem apenas dos carros”.

Apesar da certeza de Lerner, o número de veículos privados no Brasil tem aumentado nos últimos anos. De acordo com o Banco Mundial, existem atualmente 209 veículos particulares por mil pessoas no país, contra 164 há dez anos. No mesmo período, a demanda pelo transporte coletivo caiu 33%, de 60 milhões de passageiros por dia para 40 milhões. Então o que deixa Lerner tão confiante de que os carros particulares serão trocados pelo transporte coletivo? Segundo ele, são três os seus aliados na luta contra a cultura do carro: congestionamentos cada vez maiores, danos ao meio ambiente e a alta qualidade do transporte coletivo.

Trânsito e congestionamento

Imagine ficar em uma sala de 50 m² com uma pessoa fumando um cigarro. Agora imagine estar na mesma sala com 50 pessoas, todas fumando, e você não pode sair. Para Lerner, essa experiência pode ser vivenciada quando se está preso no trânsito: preso, sem saída, obrigado a respirar a fumaça liberada pelos carros. Mas ele prevê que a reação pública contra o aumento do tráfego não está longe. Embora o número de veículos particulares em Curitiba sejam mais altas que a média nacional, o Transportation Research Board revela que 70% das pessoas que circulam na cidade usam o transporte coletivo como principal meio de deslocamento. O próximo passo, diz Lerner, é que essas pessoas nem mesmo comprarão carros no futuro. Se o Brasil e outras cidades puderem cumprir a visão de Lerner de que os usuários de transporte “não devem ter que esperar mais de um minuto” para pegar o ônibus ou trem, essa mudança pode acontecer mais cedo ou mais tarde.

Solidariedade ambiental e o movimento das cidades sustentáveis

Junto à frustração diária perante o trânsito e os congestionamentos, está um crescente sentimento de responsabilidade ambiental individual. Lerner explica que há três questões principais que se colocam frente às cidades e aos cidadãos em sua interação com o mundo: “mobilidade, sustentabilidade e tolerância”. A fim de enfrentar esses desafios, é “crucial ter solidariedade”, ele diz. O movimento ambiental do Brasil, de que Lerner é considerado o catalisador, é responsável por tornar os cidadãos mais conscientes dos impactos negativos do uso de veículos particulares – má qualidade do ar, emissões de gases de efeito estufa, diminuição do espaço público e consumo excessivo de recursos naturais, para citar alguns. De acordo com Lerner, desde que o movimento mantenha a solidariedade, essa conscientização vai logo se traduzir em uma mudança de uso do carro particular.

Transporte público responsável e de alta qualidade

Talvez o elemento mais crucial da estratégia de Lerner para desmantelar a cultura do carro seja sua meta de significativamente aumentar a qualidade e a responsabilidade dos sistemas de transporte coletivo. Lerner imagina um mundo no qual transporte e urbanismo são inerentemente integrados – onde os sistemas de transporte sejam a espinha dorsal de cidades sustentáveis e acessíveis. Para isso acontecer, o transporte coletivo não pode ser apenas uma opção, deve ser a melhor opção. E é por isso que Lerner atualmente atua como presidente honorário da SIBRT, organização dedicada a promover melhores práticas sistemas de transporte integrado e BRT, modalidade em que foi pioneiro. Uma experiência de qualidade para o usuário, dizem Lerner e SIBRT, é a chave necessária para convencer a sociedade a deixar o carro em casa e a optar pelos metrôs, ônibus e bicicletas.

Não importa o assunto, para Jaime Lerner o tempo e o pensamento expansivo são fundamentais: “Às vezes temos boas ideias, mas precisamos começar a inovar. Temos que ser rápidos para evitar a nossa própria burocracia. Nós frequentemente pensamos em termos de problemas, mas qual é o nosso sonho?”

Obrigado a Anais Cisneros, Ryan Schleeter (EMBAR) e Fagner Glinski (SIBRT) por suas contribuições para este texto.

 

Post originalmente publicado no TheCityFix, em 17/06/2013.

Traduzido por Priscila Kichler Pacheco.