Principal desafio é promover a mobilidade humana, e não urbana, dizem especialistas

Por Felipe Castro. Publicado no Mobilize em 13/04/2013.

Como criar uma cidade que seja convidativa às pessoas, e, ao mesmo tempo, favorável à mobilidade urbana sustentável? Esta foi a discussão central do II Fórum Mobilize Brasil “Cidades para pessoas: uma utopia no Brasil?”, realizado nesta sexta-feira (12), no Salão Nobre da Fundação Getúlio Vargas (FGV), em São Paulo.

Participante do debate, o promotor Mauricio Lopes, da Promotoria de Habitação e Urbanismo no Ministério Público do Estado de São Paulo, questionou, primeiramente, o emprego do termo “mobilidade urbana”.

“Mobilidade urbana não é privilegiar o automóvel para ele chegar mais rápido ao seu destino. Temos que privilegiar a mobilidade humana”, afirmou.

Para o professor da FAU-USP, Alexandre Delijaicov, o grande desafio do poder público é criar o que ele chama de “esquinas de convivência”, um “sistema de passeios públicos que promovam encontros e a convivência das pessoas nas cidades”.

E como reduzir o papel do carro? Ciclista militante, Delijaicov acredita que “o automóvel sempre vai ser insaciável”. “O melhor jeito de lutar contra ele é colocando semáforos a cada cem metros, que permitam que os pedestres atravessem as ruas normalmente, e não como se fossem coelhos acuados”, brincou.

Festival Baixo Centro reuniu milhares de pessoas no Minhocão, em São Paulo. (Foto: Tiago Queiroz / AE)

A jornalista e criadora do projeto Cidades para Pessoas, Natália Garcia, foi além: “A cidade não te convida a estimular a diversidade, a criar e estimular conexões”.

Ela lembrou que as placas em São Paulo, por exemplo, não conversam com as pessoas, e sim com os carros, e usou o exemplo do Festival Baixo Centro realizado no elevado Costa e Silva, o Minhocão, na região central de São Paulo, como uma boa iniciativa para aproximar as pessoas da cidade. “Aos fins de semana, o Minhocão passa do pior para o melhor espaço público possível, simplesmente pela ocupação das pessoas”, disse.

Sobre a responsabilidade das calçadas, se é dos municípes ou do poder público, o promotor Maurício Lopes foi enfático: “A calçada é obrigação pública e deve ser vista como tal”. Para o promotor, trata-se do primeiro contato da pessoa com a cidade. “As calçadas devem respeitar quem anda e caminha sobre elas.”

Representante do governo federal no debate, a subsecretária de mobilidade urbana do Ministério das Cidades, Isabel Lins, acredita que “ter uma cidade sustentável, feita para as pessoas, acessível, não é utopia. Temos as ferramentas necessárias”.

Transmitido ao vivo pela Ucan e realizado com apoio do banco Itaú e da FGV, o II Fórum Mobilize Brasil terminou abrindo para as perguntas da plateia. Um ciclista de Manaus, um médico do tráfego, uma ativista do Rio de Janeiro e um rapaz de 16 anos cujo sonho é ser urbanista foram alguns dos participantes.