O etanol de segunda geração está próximo?

Relatório da Bloomberg New Energy Finance indica que o etanol celulósico pode se tornar competitivo em menos de cinco anos; No Brasil, 1ª usina do chamado EG2 chega em 2014

O etanol celulósico é fabricado por meio de reações químicas que promovem a quebra das cadeias dos principais polímeros que formam a estrutura das plantas: celulose, hemicelulose e pectina.

Por Vanessa Barbosa. Publicado pela Exame, em 13/03/2013.

São Paulo – O tão aguardado etanol celulósico, também conhecido como etanol de segunda geração (EG2), pode deixar de ser uma perspectiva e se tornar em breve uma tecnologia disponível a preço competitivo.

Um novo estudo feito pela Bloomberg New Energy Finance sugere que o preço do álcool produzido a partir de resíduos agrícolas, como o bagaço, palhas e outros tipos de biomassa, tem chances de se tornar mais competitivo em relação às fontes convencionais de bicombustível já a partir de 2016.A pesquisa coletou dados e previsões de custos de produção junto a 11 grupos empresariais que estão tomando a frente em pesquisa e desenvolvimento de EG2 no mundo.

Segundo a análise, em 2012, o custo da produção de EG2 foi de US$0,94 (R$ 1,84) por cada litro, cerca de 40% a mais que os US$ 0,67 (R$1,31) gastos na produção da mesma quantidade de etanol de milho, fonte que domina o mercado de biocombustível nos Estados Unidos, competindo diretamente com a gasolina.

Os maiores elementos de custo para os produtores de etanol celulósico, em 2012, foram as despesas com matéria-prima e enzimas. Todas as empresas que estão à frente no desenvolvimento usam uma mesma técnica, chamada de hidrólise enzimática, para quebrar e converter a celulose da matéria residual, e também a etapa de fermentação que dá origem ao etanol.

Em contrapartida, os custos operacionais do processo caíram significativamente desde 2008, devido aos avanços da tecnologia. Para se ter uma ideia, o custo da enzima para produzir um litro de EG2 caiu 72% entre 2008 e 2012.

Indústria em amadurecimento

A melhoria nos custos operacionais das plantas de etanol celulósico promete virar os holofotes diretamente para os custos de capital. “Os desenvolvedores terão de encontrar formas de reduzir o investimento inicial na planta, e reduzir o risco para atrair financiamento mais barato” avalia Harry Boyle, principal analista do setor da Bloomberg New Energy Finance.

“Esperamos ver, portanto, uma mudança de foco ao longo dos próximos cinco a 10 anos, de melhorias tecnológicas para o planejamento logístico, que por sua vez sugere que a indústria está amadurecendo”.

De acordo com o estudo, existem 14 projetos-piloto de hidrólise enzimática em curso no mundo; nove empresas em estágio de demonstração, e 10 plantas de escala semi-comercial em implantação ou previstas para breve.

A Bloomberg New Energy Finance define como instalação semi-comercial uma planta com capacidade de produzir 90 milhões litros por ano, o que requer um desembolso inicial de aproximadamente US$ 290 milhões (cerca de R$ 567 milhões). Cinco das instalações semi-comerciais estão localizadas nos EUA.

Devido à economia de escala e redução do preço de instalação das plantas nos próximos anos, a expectativa é que o investimento inicial por litro instalado deverá cair dos atuais US$ 3 para US$ 2 em 2016. Uma mudança com poder de acelerar a revolução do etanol de segunda geração.

EG2 no Brasil

Em um momento em que a expansão da área agrícola para produção de bicombustível está em xeque no Brasil, o etanol celulósico apresenta-se como um uma fonte promissora.

Calcula-se que essa tecnologia pode aumentar em 50% da produção de álcool nacional apenas usando o bagaço da cana-de-açúcar, sem necessidade de expandir a área de plantação.

De olho nesse mercado, o setor sucrooenergético já começa a se mexer. A primeira usina de porte comercial no país está sendo construída em Alagoas, e deve entrar em operação no início de 2014. Responsável pelo projeto, a empresa de biotecnologia GraalBio recebeu em janeiro deste ano um aporte de 600 milhões de reais do BNDESpar.

Outras empresas que também estão acelerando projetos na área são a Raízen, Odebrecht Agroindustrial e Usina São Manoel, que tem parceria com o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC).