30 anos de transporte na América Latina: 15 anos atrás e 15 anos à frente

Curitiba, Brasil: pioneira dos sistemas avançados de ônibus. (Foto: Robert Blackie)

Por Dario Hidalgo, diretor de Pesquisa e Prática da EMBARQ. Originalmente publicado, em inglês, no TheCityFix em 06/03/2013.

Quinze anos atrás, a América Latina passou por um ponto crucial para se tornar uma líder global em sistemas avançados de ônibus, provando que os municípios podem inspirar verdadeiras mudanças através de uma combinação de liderança, apoio institucional e financiamento. Hoje, a América Latina tem 50 cidades com sistemas avançados de ônibus – BRTs e corredores de ônibus – chegando perto de 16 milhões de passageiros por dia (BRT Global Database). A maioria dos avanços aconteceu nos últimos 15 anos, inspirado pelas experiências marcantes das cidades de Curitiba, Brasil; Quito, no Equador; Bogotá, Colômbia, e Cidade do México. Várias barreiras foram superadas no processo, mas existe ainda um longo caminho a percorrer.

Cidades latino-americanas precisam enfrentar, adequadamente, os principais obstáculos institucionais e financeiros para continuar aprimorando os sistemas integrados de transportes públicos e de dar exemplos para o resto do mundo nos próximos 15 anos e mais. As cidades precisam reforçar seus esforços em duas áreas fundamentais. A primeira: qualidade e subsídios associados para a operação, e a segunda: integração dos sistemas. Essas ideias foram compartilhadas durante uma apresentação da EMBARQ no Banco Mundial, em 27 de fevereiro de 2013. A apresentação fez parte da Semana da Rede de Desenvolvimento Sustentável 2013, na qual o Banco Mundial reuniu sua equipe global para promover o conhecimento e melhorar o diálogo com os países membros e parceiros externos. A apresentação da EMBARQ ilustrou o exemplo de Bogotá e como ela tem influenciado outras cidades e países na região. Também destacou algumas questões pendentes no processo de expansão de sistemas de ônibus em toda a cidade dentro de redes integradas de transportes públicos. Na sessão, também foram apresentadas as experiências sobre as reformas institucionais de transporte na Romênia e na Índia.

Liderança da América Latina em sistemas de ônibus: a experiência de Bogotá e sua influência

Quinze anos atrás, a cidade de Bogotá, na Colômbia, mudou sua prioridade de mover carros para deslocar pessoas, através da criação de investimentos e instituições para transportes não-motorizados e públicos. Bogotá criou espaços para pedestres e ciclovias, passou a controlar o uso dos carros, colocando restrições administrativas e aumentando impostos de combustíveis, além de implementar um sistema Bus Rapid Transit (BRT) inspirado no de Curitiba, Brasil. Hoje, após 15 anos de implementação, Bogotá tem sido capaz de manter a quota do transporte público acima de 70% do total de viagens, aumentou o uso do transporte não motorizado de 8% para 13%, e reduziu o uso de carro particular de 18% para 15% – enquanto a renda pessoal continuou aumentando. Um dos principais resultados desta iniciativa tem sido a redução de mortes no trânsito, de 1200 para 500 por ano.

Desde as mudanças em Bogotá, 117 cidades ao redor do mundo adotaram sistemas avançados de ônibus, e grande parte delas se inspirou diretamente em Bogotá. A inspiração resultou em sistemas avançados em muitas cidades no México (León, Cidade do México, Guadalajara, Guayaquil), também em Lima, Peru; em Lagos, na Nigéria; na Cidade do Cabo, África do Sul; em Ahmedabad, na Índia; e em Guanghzou, China, para citar alguns. A América Latina tem sistemas avançados de ônibus na Colômbia, México, Equador, Peru, Argentina, Chile, Venezuela, Panamá, Guatemala e experimenta um grande crescimento no Brasil, na onda da Copa do Mundo 2014 e dos Jogos Olímpicos 2016.

Ainda que a reforma seja um “trabalho em andamento”, tem mostrado resultados interessantes: em 2012 vimos a implantação do BRT no bairro histórico da Cidade do México, com a Linha 4 do Metrobus;  a construção do primeiro corredor BRT, o Transoeste, no Rio de Janeiro, e da expansão do BRT TransMilenio, em Bogotá. Esses e outros sistemas têm alcançado grandes ganhos em termos de segurança, tempo e confiabilidade, bem como a redução do consumo de energia e emissões, e desenvolvimento da paisagem urbana.

Apesar dos avanços na América Latina, tem ocorrido alguns problemas comuns. As duas áreas-chave para a melhoria são a qualidade do serviço, bem como a integração em larga escala de sistemas de transporte integrados.

Estimule o uso dos sistemas de ônibus ao melhorar a qualidade do serviço e o financiamento

A melhoria da qualidade de serviço é importante para manter estes sistemas atraentes para o público, e oferecê-los como uma alternativa real aos carros e motos. Para proporcionar essa qualidade de serviço, os operadores de ônibus foram obrigados a pagar por novos ônibus, e pagar por sistemas avançados de cobrança e sistemas de controle fora de sua base de receitas ou tarifas. Esse difícil planejamento financeiro resultou em níveis de ocupação muito elevados, mais passageiros cobrados, resultando em maiores receitas para pagar por investimentos. Sistemas latino-americanos foram planejados para 160 passageiros em ônibus articulados, o que significa mais de seis passageiros em pé por metro quadrado. Isto não é aceitável para os passageiros que usam o sistema todos os dias, e vários sistemas viram suas pesquisas de satisfação do usuário cair, por causa da falta de qualidade das operações.

A América Latina pode olhar para cidades europeias, como Estocolmo, Suécia; Amsterdã, Holanda, e Copenhague, na Dinamarca como modelos para atenção à qualidade. Assim como Singapura e Xangai, na China, onde ferramentas fiscais de valorização do desenvolvimento do solo e da propriedade do veículo financiam operações, para somar às receitas das tarifas. Esta abordagem, de fontes adicionais de financiamento, é necessária na América Latina para aumentar o nível de conforto e o número total de passageiros que utilizam o transporte público.

Olhar para um transporte público integrado

A segunda área de melhoria de sistemas avançados da América Latina está na integração com outros meios de transporte. Os corredores de ônibus avançados desenvolvidos também não tinham conexões com outros serviços de transporte público. Algumas iniciativas para a integração do transporte público municipal estão em andamento em Santiago, Chile, que implementou uma reforma em toda cidade, em um processo que acabou sendo doloroso. No entanto, cinco anos depois, a cidade resolveu a maioria dos problemas, depois de decidir subsidiar as operações de forma permanente e renegociar os contratos com prestadores privados de serviços de ônibus, para melhor alinhar os incentivos e introduzir controles melhorados. O Transantiago passou por uma integração completa com um metrô de alta qualidade e reduções impressionantes na poluição do ar e emissões de gases de efeito estufa. Acidentes de trânsito envolvendo todos os tipos de ônibus caíram pela metade nos últimos cinco anos, de mais de 6000 para menos de 3.000, de acordo com estatísticas nacionais (CONASET).

O exemplo de integração de transporte público em Santiago está sendo agora reproduzida em Cali, Medellín e Bogotá, na Colômbia, e foi anunciado no México, Lima e Quito. Assegurar a prestação de um serviço de qualidade em toda a experiência do usuário do sistema de transporte é a chave para esses esforços. A maioria das cidades brasileiras já avançou na integração, com um setor privado forte e instituições governamentais sólidas, e é esperado que continuem investindo na integração durante os próximos anos.

O modelo global de integração avançada permanece na Europa, em lugares como Madri, Espanha (Consorcio de Transportes de Madrid), Londres, Inglaterra (Transport for London) e Paris, França (STIF). Operações de metrô, trams, trens suburbanos, BRT e ônibus locais e regionais são administrados por instituições consolidadas, que planejam e financiam operações e investimentos em redes de transportes públicos, de forma integrada.

Os próximos 15 anos: aprendizagem com o peer-to-peer e a troca de conhecimento

Parceiros internacionais, como os bancos de desenvolvimento e ONGs internacionais são fundamentais para o processo de assistência técnica e operacional para trazer melhorias de transporte público para mais cidades da América Latina. Esses “stakeholders” precisam continuar com seu apoio e compartilhamento de conhecimento para construir uma base sólida a partir da experiência adquirida nos últimos 15 anos. Uma das maneiras mais importantes de capacitar é através da colaboração peer-to-peer (ponto-a-ponto).

Com a colaboração peer-to-peer e iniciativas de reforma pública, a América Latina tem uma oportunidade única nos próximos 15 anos para manter a liderança no desenvolvimento de sistemas de transporte público avançados, e construir mais sobre o seu sucesso histórico.

Para mais informações, por favor, veja minha apresentação Public Transport Reform in Latin America.

Benoit Colin e Elise Zevitz também contribuíram para este artigo.