Qualidade do ar: fazer esporte em meio à poluição é melhor que ficar parado

Foto: Dan Braun

Por Rodolfo Lucena. Publicado na Folha de S.Paulo em 02/12/2012.

Quem vive em São Paulo respira fumaça de carros, ônibus e caminhões o dia todo. Sofre, aos poucos, os efeitos maléficos da poluição -ela está relacionada a problemas como hipertensão, infarto e derrame cerebral, além de alguns tipos de câncer e doenças pulmonares graves, segundo o cardiologista Nabil Ghorayeb, especialista em medicina do esporte.

Se para a população em geral os alertas à saúde já não são dos melhores, para aqueles que se exercitam ao ar livre e colocam os pulmões para funcionar com maior força as perspectivas são piores. Correto?

Não necessariamente. O raciocínio tem sua lógica e é bastante corrente entre especialistas e esportistas. Mas um grupo de pesquisadores ligados à USP, à Uninove e ao Instituto Oswaldo Cruz foi atrás de saber o que exatamente acontece com o pulmão da pessoa que pratica atividade física ao ar livre e em um ambiente poluído.

O estudo, feito em São Paulo por esse grupo e publicado na edição de julho da revista “Medicine in Science and Sports Exercise”, do Colégio Americano de Medicina do Esporte, que fica em Indianápolis (EUA), detectou justamente o contrário: quem se exercita continuará tendo pulmões mais saudáveis que aqueles que ficam parados, mesmo respirando fundo um ar carregado como o de São Paulo.

“Acreditávamos que a atividade física potencializaria os efeitos nocivos, já que o atleta, enquanto corre, tem respiração mais profunda e frequente”, diz o médico Rodolfo Vieira, coordenador da pesquisa. “Mas o estudo mostrou que o exercício tem um efeito protetor para os pulmões. Inibiu parcialmente a inflamação e as alterações induzidas pela poluição.”

Ilustrações Estudio Polyester

Os pesquisadores acompanharam 80 camundongos, ao longo de cinco semanas, divididos em quatro grupos: um grupo de controle, sedentário, um grupo que fez exercício em condições normais, um grupo sedentário exposto à poluição e outro que fez exercício também sob poluição.

A poluição era a paulistana mesmo –extrato da fumaça expelida pelos ônibus que circulam na cidade, captado diretamente dos escapamentos pela equipe e inserido nas narinas dos animais no laboratório.

Resultado: a turma que praticou exercício exposta à poluição apresentou níveis de inflamação pulmonar bem mais baixos que os verificados nos sedentários sob a mesma poluição, e bastante próximos daqueles que trabalharam em ar limpo.

Isso não quer dizer, no entanto, que liberou geral e você pode sair por aí correndo ou pedalando nas marginais e corredores fumacentos da cidade. “Correr aumenta o sistema de defesa do corpo contra a inflamação das vias aéreas. Mas isso não é ilimitado. Quanto mais poluído o ar, mais difícil fica se defender”, adverte Mauro Vaisberg, especialista em medicina do esporte e imunologia.

Para não abusar dos pulmões nem precisar abrir mão da insubstituível atividade ao ar livre, há uma série de cuidados que podem e devem ser tomados. Vão desde ações simples, como balanceamento das refeições, até outras mais mirabolantes e diretas, como o uso de máscaras.

“Há uma máscara para ciclistas, com filtro. É meio estranha, o sujeito fica parecendo o Darth Vader, mas é o mais seguro”, diz Vaisberg. “Mesmo a máscara cirúrgica, de hospital, já diminui um pouco a quantidade de material particulado inalado.”

Ilustrações Estudio Polyester

O presidente da Associação dos Treinadores de Corrida de São Paulo, Nélson Evêncio, recomenda que os praticantes devem procurar correr nas primeiras horas do dia. “É quando a quantidade de poluentes no ar está mais reduzida.” Também deve se evitar avenidas de muito trânsito e fugir de caminhões e ônibus, diz.

Outra forma é proteger a saúde de modo geral, segundo o treinador Miguel Sarkis: “Alimentar-se bem, descansar bastante e cuidar da hidratação deixam a pessoa mais resistente contra doenças”.

OZÔNIO: O VILÃO DO VERÃO

Poeira, monóxido de carbono, dióxido de enxofre e outros elementos exalados pelos escapamentos de veículos são os principais vilões de uma metrópole como São Paulo.

No verão, porém, quando mais chuva e uma maior circulação de ar ajudam a amenizar a concentração de fumaça, outro agente rouba a atenção: o ozônio. É ele que passa a ser o principal responsável pelos dias em que a qualidade do ar paulistano fica inadequada.

“O ozônio não é emitido por nenhuma fonte. Se forma na atmosfera, principalmente a partir dos gases que saem dos veículos. E, para se formar, precisa ter luz solar, dias quentes. Por isso, seus períodos de maior concentração são a primavera e o verão”, explica Maria Helena Martins, gerente da divisão de qualidade do ar da Cetesb, a agência ambiental paulista.

Por essas características, o pico do ozônio é das 11h às 17h, enquanto os outros poluentes tendem a coincidir com o trânsito. Além disso, é justamente nas áreas mais arborizadas -e com menos gases, portanto- que o ozônio se concentra. Isso acontece pois, ao mesmo tempo em que se forma a partir dos gases dos veículos, ele também reage e se destrói com eles, o que reduz sua presença no entorno.

Editoria de Arte/Folhapress
Fontes: “Anti-inflammatory Effects of Aerobic Exercise in Mice Exposed to Air Pollution” (efeitos anti-inflamatórios do exercício aeróbico em camundongos expostos a poluição do ar), em “Medicine & Science in Sports & Exercise”, de julho de 2012; Cetesb; FMUSP

“Isso não quer dizer que as pessoas não possam fazer exercício nos parques”, aponta Martins. “Os níveis de todos os outros poluentes são menores nesses locais.” E é melhor do que correr em vias de grande movimento, respirando a fumaça do óleo diesel.

“Fazer esporte regularmente é um anti-inflamatório natural”, diz Paulo Saldiva, chefe do laboratório de poluição atmosférica da Faculdade de Medicina da USP. “A poluição, nos níveis de São Paulo, tira cerca de três meses de vida, enquanto o esporte dá mais de dois anos. Os benefícios que traz superam de longe os prejuízos.”

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EXISTE ESPORTE EM SP
Alguns cuidados ajudam a se proteger da poluição

  • Evite sempre as vias de maior tráfego
  • No verão e em dias de calor, evite o horário da tarde, quando a concentração de ozônio está maior
  • Na dúvida entre a avenida, onde há muita poeira, e o parque, onde há muito ozônio,fique com o parque
  • melhor horário é no início do dia, até as 10h, quando a poeira ainda foi pouco agitada pelos movimentos dos veículos e do ar
  • Cuidar da saúde em geral, com descanso, muita hidratação e boa alimentação
  • Se quiser, utilize máscaras; elas são a forma mais eficaz de proteção