Limitropias: a Cidade do México além do horizonte

Foto: Feike de Jong

Até onde vai uma cidade? Que cara ela tem? As pessoas, as moradias e as ruas da margem urbana revelam um mundo a parte, que espera por um olhar. Foi com este propósito que o jornalista holandês Feike De Jong iniciou o projeto Limitropias, na Cidade do México. Durante 51 dias, entre 1º de novembro e 21 de dezembro de 2009, o pesquisador percorreu a pé os 800 km que circundam a caótica megalópole, a fim de mapear comportamentos urbanos e sociais das áreas periféricas.

Na “expedição jornalística/urbanística”, como o próprio De Jong define sua jornada, o jornalista descobriu um mundo que estava além daquilo que os nossos olhos costumam enxergar, na área metropolitana do Vale do México.

Analisando a pesquisa do expedicionário e suas fotos que falam por si só, percebe-se que, em muitas regiões, a margem urbana se revela a olhos nus, quase como um corte feito a faca no grande tecido vivo da cidade. Já em outras áreas é difícil perceber a fronteira, que dança conforme a música das armas disparadas por gangues que disputam território e poder.

As experiências destes 51 dias de exploração resultaram numa rica pesquisa urbanística e social que pode ser acessada aqui. Abaixo, veja o relato de De Jong no texto que introduz e resume sua aventura:

“A margem é caprichosa. Não que seja difícil de encontrá-la. Normalmente é tão evidente quanto seria um muro ao redor da cidade. Há partes onde a metrópole termina de uma forma dispersa, mas são poucas. O mais agoniante de andar pela margem é o zig-zag. O limite pode ser claro, mas não é uma linha reta. Às vezes, você caminha meio dia para o oeste e depois, outro meio dia para o leste, onde há uma planície que entra na cidade, como uma baía ou fiorde do mar.

Sinto uma afinidade melancólica com a margem. É como um cemitério de elefantes, onde coisas velhas e grandes vão morrer. É o lugar onde as crianças escrevem os versos de seu primeiro amor nas paredes e os membros de gangues colocam as iniciais de seus nomes para marcar territórios, batalhas no vazio, soldados anônimos na guerra urbana. Nem campo, nem cidade, a margem é a região de caminhões e peças mecânicas que já terminaram sua vida útil e oxidam-se entre poeira e graffiti.

A margem é o atalho de cães vadios em seu xadrez de poder e território. É a área do canal preto de superfície tão opaca, que reflete como um espelho de obsidiana. É o território da criança e do idoso. O adulto não está, porque não é um lugar para adultos. O adulto está ausente, foi trabalhar, ou está na rua ou em casa, mas não aqui na margem onde o tempo é mais lento e o grande teatro da vida pública não atinge os espaços escondidos atrás das casas. Há apenas passos e memórias, e a grande muralha que se estende ao infinito.”

Foto: Feike de Jong

Sobre o pesquisador

Feike de Jong é jornalista, músico e artista holandês que reside na Cidade do México há mais de 10 anos, onde trabalhou para CNN México, edição Internacional da Fortune Magazine, revistas Checa TYPO, Expansión e Obras. Ganhou o Prêmio Alemão de Jornalismo Walter Reuter por uma reportagem sobre as mudanças climáticas em 2010. Realizou trabalhos investigativos sobre as mudanças climáticas, recursos hidráulicos e a migração no México. Mestre em Filosofia pela Universidade de Nijmegen, Holanda.

  • Cfreitas

    Que experiência fantástica! A margem é tão poética e fascinante. Dá vontade de embarcar em uma aventura dessas também, sair pra conhecer os misteriosos limites entre o urbano/cotidiano e o rural/intocado.