Se a bicicleta fosse inventada hoje

Foto: Central Station

Por Pablo Hess*

Certas tecnologias parecem surgidas longe do “momento certo”. Um exemplo de tecnologia atrasada é o abridor de latas, inventado 83 anos após os alimentos enlatados, para substituir o uso inadequado das facas para esse propósito.

O melhor exemplo de tecnologia “adiantada”, no entanto, raramente é citado. A bicicleta, inventada e popularizada no século XIX, seria ainda mais apreciada se inventada hoje.

Imagine se tivéssemos vivido sem bicicletas até ontem e uma empresa idealizasse esse interessante veículo hoje? “O veículo perfeito para o ambiente urbano moderno”, diriam. Como transporte pessoal, seria visto como ideal para a sociedade individualista atual. Além disso, “ao contrário do carro, aquele monstro de aço com cara de século XX”, diriam, “não desperdiça espaço nem material”, pois o banco do carona não fica vazio e o veículo inteiro pesa bem menos de uma tonelada.

A emissão zero de gases estufa e outros poluentes seria, certamente, o principal aspecto a ser abordado pela equipe de marketing: “Bicicleta leva você de um ponto ao outro sem poluir!”. Seria o jeito mais altruísta de ser individualista. Sem dúvida, os primeiros a adotar a novidade ganhariam em popularidade.

Inacreditavelmente, descobririam pouco depois que, além dos benefícios ambientais, “Bicicleta faz bem à saúde, pois promove a queima de calorias com uma atividade aeróbica que não sobrecarrega as articulações. Enfim, um veículo que pesa menos que você”, diriam os cartazes e outdoors na tentativa de atiçar os obesos. E, para os muito atarefados, cada vez mais comuns nesse século XXI, uma ótima notícia: “Com Bicicleta, você não gasta tempo indo até a academia, pois faz seu exercício diário entre a casa e o trabalho”.

Para a administração pública e o planejamento urbano, a bicicleta traria grande alívio. Rapidamente eliminaríamos os congestionamentos, pois ganharíamos faixas exclusivas para elas nas principais avenidas, seguidas, alguns anos mais tarde, de ruas inteiras dedicadas à “Bicicleta”. As grandes ladeiras de algumas cidades receberiam elevadores de bicicletas, de forma a adequá-las a esse moderno meio de transporte. O antigo problema da falta de estacionamento seria facilmente resolvido, pois “Bicicleta cabe até nos menores espaços”. Livrar-nos-íamos da ultrapassada figura do flanelinha, que tanto mal já causou à humanidade.

Para a saúde pública, mais e mais vantagens. Atropelamentos, capotagens e os demais acidentes de trânsito diminuiriam em gravidade e fatalidade como se todos tivessem decidido vestir roupas inteiras de plástico-bolha. Isso, é claro, fora os benefícios de uma vida com mais exercício e menor inalação de fumaça de escapamentos.

Claro que todos gostam de se diferenciar dos demais; é por isso que “Bicicleta permite as pinturas mais variadas”, e com preços desde R$ 50 até estonteantes dez salários mínimos, dependendo do modelo — desde os chineses produzidos em grande escala até os das luxuosas marcas francesas e italianas de “alto ciclismo”. Um suposto visionário criaria uma variação da bicicleta com uma única roda, o monociclo, mas os mil exemplares vendidos às celebridades jamais alcançariam a aceitação do grande público, para tristeza dos investidores.

Instituições de pesquisa nos EUA, alarmadas com o crescimento do uso da “Bicicleta”, publicariam resultados de estudos mostrando que “a nova moda em veículo pessoal pode causar infertilidade masculina”, posteriormente esclarecendo que esse fenômeno só afeta quem passa mais de três horas por dia sobre o selim.

No décimo aniversário da bicicleta, em 2019, o número de “magrelas” no mundo seria ligeiramente maior que o de pessoas. Outrora símbolo de novidade e modernidade, o “veículo pessoal movido a pedaladas”, conforme descrito em sua patente, já estaria plenamente inserido na rotina das famílias e de todas as cidades, desde os vilarejos até as megalópoles. As pessoas habitariam locais mais silenciosos, limpos e agradáveis, à espera da próxima grande novidade em veículo pessoal. Mas os Patins (“tão fácil quanto caminhar!”) ainda levariam pelo menos 50 anos para ser inventados.

*Leitor de O Globo. Publicado em 18/11/2009.