Entrevista: Paulo Saldiva aponta “remédios” para combater poluição nas cidades

Pesquisador defende transporte coletivo de qualidade e meios alternativos de mobilidade. (Foto: Carlinhos Rodrigues)

A antiga lógica de mobilidade centrada no carro já provou sua ineficiência. Além de estarmos presos em congestionamentos, a quantidade de veículos e seu uso desmedido são os responsáveis por 90% das emissões de gases poluentes em megacidades como São Paulo. E isto tem um preço alto para a população. A cada ano, milhões de pessoas morrem por problemas ocasionados pela péssima qualidade do ar de suas cidades e muitas padecem, ficando dependentes do sistema público de saúde. O médico e professor da Faculdade de Medicina da USP, Paulo Saldiva, é um dos grandes especialistas e porta-vozes do tema, no país, e falou com o TheCityFixBrasil sobre o assunto. Acompanhe:

Por que o problema da poluição ainda não é encarado como uma questão de saúde pública, no Brasil?

Primeiro porque é um tema novo e o conhecimento científico que relaciona de forma bastante sólida isto nasceu a partir dos anos 1995 – 1996 e ainda nossa tradição de lidar com a saúde pública é saneamento, vacinação, atenção básica e hospitais. Essa é uma medicina que se pratica fora dos hospitais, não é tão visível, mas ela atingiu um tamanho importante a ponto da Organização Mundial da Saúde considerar esse tema – essas mudanças ambientais tanto em nível de planeta quanto nas megacidades – entre os cinco mais importantes de saúde no século.

Outro aspecto é o setor produtivo, que ainda não internalizou esta questão. Todo mundo fala que é sustentável, desde que não interfira no seu negócio, isso é o que eu chamo de “maquiagem verde”. Você vai fazer uma ação sustentável no mato, mas onde você ganha dinheiro aí já fica mais difícil de mexer. Mas o mundo está evoluindo para melhor, essa reunião aqui é uma prova que está evoluindo. A própria atuação da EMBARQ Brasil é uma prova, medindo as emissões em corredores de ônibus – estudos em que nós também ajudamos e participamos. Então eu acredito que esteja melhorando.

Corredores exclusivos qualificam o serviço de transporte coletivo.

Como o senhor mesmo disse, os estudos existem e o conhecimento nós temos. O que está faltando é uma ação política mais efetiva?

O estudo existe e mostra os efeitos na saúde. O remédio também existe. Se tem uma coisa que o Brasil sabe fazer é corredor de ônibus com vários combustíveis: híbrido, diesel limpo, elétrico, etanol, gás, e outros. Nós sabemos fazer trem, metrô. Sabemos que temos que fazer telhados verdes para a recomposição do clima da cidade. Nós sabemos tudo. Não falta conhecimento sobre a doença e nem sobre o remédio para curá-la. Então, a gente sabe que falta a vontade política de fazer. Por isso tenho colocado muito o tema do dinheiro, pois num universo em que o político não tem recursos infinitos, é bom ele saber o quanto esta pagando de subsídio por uma política que, por vezes, não é muito sustentável.

Além disso, surge a intenção eleitoral…

Para a tomada de decisão o dinheiro conta. [O apelo da] saúde vai mesmo para a eleição. Mas no fundo eu nunca vi ninguém se impressionar muito com pilhas de corpos ou filas de hospitais, sabe. Eu acho que o dinheiro conta mais pesado.

Para mitigar o problema, o senhor acredita em medidas de restrição ao uso do transporte individual, como a cobrança de impostos por km rodado e outras ações?

Eu acredito, sim, no pedágio urbano, mas desde que haja o ‘plano B’, que é o transporte coletivo decente. Colocar só a taxação, desprovida de alternativas, me parece um pouco difícil. Hoje os centros das cidades estão ficando despovoados, pois estão tomados por escritórios. Quando fica caro, as pessoas vão para longe, mas você não prevê o transporte. Por isso fica muito difícil fazer isso sem um ‘plano B’. Tem que ter um investimento inicial para dar alternativa. Tendo alternativa, aí você pode cobrar pelo uso dos solos.

 

> Dr. Paulo Saldiva é Professor Titular da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, Departamento de Patologia Disciplina Patologia Pulmonar. Atualmente coordena os projetos: Avaliação da Toxicidade da Poluição por Material Particulado Gerado por Diferentes Fontes Emissoras: Proposição de Estudos Clínicos e Experimentais (CNPq – Edital 18); Instituto Nacional de Análise Integrada do Risco Ambiental – INAIRA (CNPq – Edital 15); Plataforma de Imagem em Sala de Autopsia (FAPESP), Coordena junto a Pró-Reitoria de Pesquisa da USP o Núcleo Integrado de Pesquisa em Autopsia (NUPAI). É Livre docente na área de Patologia, pós-doutorado em Anatomia Patológica e Patologia Clínica, doutorado e graduação na área das Ciências da Saúde. Concentra atividades de Pesquisa Patológica nas seguintes áreas: Anatomia Patológica e Patologia Clínica, Fisiopatologia Pulmonar, Saúde Ambiental e Ecologia Aplicada, Doenças Respiratórias. 

Conheça mais sobre o trabalho de Saldiva e os efeitos da poluição na saúde das pessoas.