Saiba como será o sistema de aluguel de bicicletas em Porto Alegre

Arte / ZH

Por Lara Ely. Publicado em Zero Hora, em 30/07/2012.

Se você ainda não pedala, prepare-se: vem aí uma novidade que poderá fazê-lo adotar este hábito. Porto Alegre receberá, a partir de outubro, um sistema que permitirá o aluguel de bicicletas inspirado no modelo de outras capitais do país e do mundo. A cidade contará com estações que permitirão o empréstimo das magrelas mediante um sistema informatizado, via internet, celular ou cartão de crédito.

Confirmado pelo prefeito José Fortunati em junho, o projeto teve um importante passo nos últimos dias, com o lançamento do edital para a empresa que instalará o projeto. Com a publicação no Diário Oficial do último dia 19, os candidatos têm um mês para apresentarem suas iniciativas. Até o final de agosto, será escolhido o projeto que melhor se adapta à capital gaúcha.

O estudo técnico desenvolvido pela equipe da Empresa Pública de Transporte e Circulação (EPTC) prevê pelo menos 250 unidades e 25 estações distribuídas em pontos de grande circulação. Entre eles, estão áreas centrais, a orla do Guaíba, os parques e zonas intermediárias. Os pontos pré-determinados buscam conciliar o interesse dos ciclistas com locais onde há maior, explica o gerente de projetos da EPTC, Antônio Vigna:

— Os parques funcionam como um ferrolho. Mas para melhor a segurança de um ponto a outro, teremos que aprimorar a rota.

Os pontos previamente destacados, que terão uma distância média de 400 metros, não contemplam as zonas Sul e Norte, nem passam pelos estádios de futebol da dupla Gre-Nal. A localização das estações, porém, poderá mudar de acordo com o projeto selecionado, explica o diretor-presidente da EPTC, Vanderlei Cappellari:

— O volume de bicicletas e estações e o menor custo para o usuário serão itens de avaliação nas propostas.

O serviço poderá ser acessado por meio de aplicativo no celular, com acesso à internet. Será necessário fazer cadastramento junto à operadora. A EPTC estuda ainda a possibilidade de as bicicletas serem liberadas por meio do cartão TRI, usado nos ônibus.

Além de trazer mais atenção para o deslocamento sobre duas rodas, o projeto pode deixar a cidade mais amiga do ciclismo. Quem explica é o arquiteto urbanista Ricardo Corrêa, da TCUrbes:

— Significa tornar a cidade acessível para qualquer ciclista que quiser pedalar. Mas só terá sucesso se tiver mais segurança.

Corrêa recorda que em Paris — primeira grande cidade europeia a adotar o sistema — , a implantação veio junto com a construção de ciclovias, o que permite mais tranquilidade para quem pedala pela primeira vez.

Mais bikes na rua

Para o publicitário Cadu Carvalho, um dos fundadores da Associação pela Mobilidade Urbana em Bicicleta (Mobicidade), o aluguel das bikes no Brasil costuma ter uma função mais turística. Só deverá melhorar o trânsito, segundo ele, caso as estações sejam bem posicionadas em relação aos meios de transporte público.

— Precisa haver bikes espalhadas em pontos eficazes. Não funciona se não houver planejamento — afirma Carvalho.

O publicitário é cético quanto à adesão de novos ciclistas a partir do sistema de aluguel. Para ele, “quem não pedala não é por falta de bicicleta, mas por falta de segurança”. Independentemente de novas adesões, a presença de mais ciclistas nas ruas ajudará a chamar a atenção para o tema.

Antônio Vigna, da EPTC, recorda que o atropelamento de dezenas de ciclistas no bairro Cidade de Baixa, em 2011, levou à diminuição do número de acidentes, apesar de ter aumentado a quantidade de ciclistas. Ricardo Corrêa, do TCUrbes, concorda que o mesmo possa acontecer com a implantação do sistema de aluguel.

— O fato de ter mais ciclistas vai garantir mais segurança. Quanto mais a bike estiver na rua, mais o motorista passa a respeitar o ciclista.

Números de acidentes envolvendo bicicleta na Capital:

2007 — 394

2008 — 296

2009 — 296

2010 — 303

2011 — 250

Fonte: EPTC

Cinco iniciativas no Brasil

1. Compartibike

O modelo desenvolvido por um aluno de graduação da Faculdade de Engenharia da USP, encubado em uma empresa na universidade e testado como projeto piloto por 15 meses, é a semente da empresa chamada Compartibike. O responsável, Ricardo Corrêa, explica que o protótipo de estações com destravamento a partir do cartão de estudante tornou mais prático o deslocamento entre os prédios no campus da universidade. A regra é que os usuários têm meia hora para ficar com a magrela. Se exceder esse tempo, a pena é a suspensão do aluguel por dois dias. Com mais de 2,5 mil cadastrados e cerca de 7 mil empréstimos, o projeto conta com 16 bikes e será ampliado para 25 pontos com 10 unidades, resultando em 250.

2. Bike Rio

Inaugurado em outubro de 2011, o projeto de compartilhamento de bicicletas da prefeitura do Rio e parceiras contabiliza mais de 700 mil viagens. São mais de 75 mil usuários cadastrados, cerca de 120 mil viagens por mês, uma média superior a 4 mil por dia. O projeto prevê 60 estações e 600 bikes. Já estão ativas 58 estações, disponibilizando 580 bicicletas em 15 bairros. Os horários de pico são das 7h às 10h e das 17h às 20h. Para usar o sistema compartilhado, é preciso preencher um formulário na internet e adquirir o passe Samba. Realizado o cadastro, é preciso apenas uma ligação do celular ou interação pelo aplicativo para smartphones para destravar a bicicleta da estação e pedalar.

3. Bike Sampa

Lançada em maio, a parceria da prefeitura com as empresas Samba, Serttel e Itaú Unibanco já conta com dez estações em operação na Vila Mariana, com 100 unidades à disposição. Até novembro, serão mil bikes. As rotas mais adequadas serão sinalizadas com o desenho de uma bicicleta no chão. A previsão é que até 2013 sejam inauguradas 3 mil estações. Na cor laranja, as magrelas podem ser alugadas todos os dias, de 6h às 22h. As estações são alimentadas por energia solar, têm fabricação 100% nacional e pesam em torno de 16 quilos. Para usar o sistema, também é preciso preencher cadastro na internet. O Bike Sampa é uma iniciativa semelhante ao Bike Rio.

4. Escola de Bikes

O programa da Secretaria Municipal de Educação de São Paulo promete levar 4,6 mil crianças à escola em bicicletas feitas de bambu. Os alunos do Centro Educacional Unificado (CEU) Heliópolis já receberam as primeiras unidades e iniciaram treinamento de quatro semanas na escola. Voltado para crianças entre 12 e 14 anos, o projeto é desenvolvido com a consultoria de especialistas dinamarqueses. Quinhentas crianças já pedalam nesse esquema. E todas as bicicletas saem das mãos dos 12 jovens do Jardim Paulistano. Isso porque os próprio alunos produzem suas magrelas em uma fábrica. Desde março, já foram construídas 1,5 mil unidades. Até novembro, serão 4.680.

5. Bikes Livres

A Bicicleta Livre é um sistema de bicicletas comunitárias instalado no campus Darcy Ribeiro como projeto de extensão da Universidade de Brasília. Com início em 2007, surgiu por iniciativa do estudante David Ramos ao cursar a disciplina Programas Preventivos, da Faculdade de Educação Física. Embora esteja em reestruturação, com retorno previsto para 2013, o projeto já foi contemplado em dois editais da Agenda Ambiental da UnB (em 2008 e 2009) e estabeleceu parcerias com diversos setores da universidade. Qualquer pessoa que frequente a universidade pode usar as bicicletas, sem realizar cadastro. Basta pegar uma, pedalar e devolver nos locais de retirada.

Como funcionará em Porto Alegre

— Custo

O valores serão em média R$ 5 a diária e R$ 10 o mês (com uso ilimitado)

— Segurança

As bikes serão adaptadas e o ciclista será identificado pelo cadastro de usuário. Isso ajuda a prevenir vandalismo.

— Estilo

Bikes comuns, de marchas, com a adaptação de segurança.

— Sistema

A quantidade de unidades por estação será informada no site e poderá ser visualizada a partir de aplicativo no celular.

— Integração

O sistema deverá ser integrado com ônibus, lotação e futuramente com o metrô.

— Propaganda

A marca do patrocinador estará nas estações e, talvez, nas bicicletas.

— Vigência

O primeiro contrato será experimental, até ser licitado em definitivo. O prazo mínimo é de um ano, prorrogável por mais três anos.

Fontes: Vanderlei Cappellari e Antônio Vigna, da EPTC