Jan Gehl dá receita para criar cidades para as pessoas

Arquiteto defende menos espaço para os carros. (Foto: Gene Driskell)

A jornalista Natália Garcia, criadora do projeto Cidade Para Pessoas, foi até Copenhague entrevistar Jan Gehl, um dos maiores responsáveis por mudar a cara da cidade, nos anos 1960, e torná-la referência de planejamento urbano voltado para as pessoas. Especialista em criar cidades melhores, o arquiteto estuda os aspectos humanos antes de criar projetos de arquitetura, o que o fez criar uma metodologia de planejamento que prioriza as pessoas. Famoso por esse tipo de trabalho, ele é um dos profissionais da área mais requisitados do mundo.  Seu escritório, o Gehl Architects, já fez projetos, inclusive, para São Paulo e Rio de Janeiro. Confira a entrevista publicada na revista Vida Simples:

O que significa criar uma cidade para as pessoas?

Você já notou que sabemos tudo sobre o habitat ideal dos gorilas, girafas, leões, mas nada sobre o Homo sapiens? Qual o lugar ideal para essa espécie viver? Boa parte dos profissionais que definem o futuro de uma cidade – os arquitetos, urbanistas e políticos – está preocupada com outras coisas. Eles querem melhorar o trânsito, criar monumentos, pontes, mas nenhum deles tem na agenda o item “criar uma cidade melhor para as pessoas viverem”.

E qual seria o lugar ideal para o homem viver?

Certamente não é uma cidade em que se precise passar três horas por dia dentro de um carro preso no congestionamento. Em meu livro Cities for People (“Cidades para pessoas”) eu falo, por exemplo, sobre a síndrome de Brasília, uma prática repetida em várias cidades do mundo. É tudo grande demais, as distâncias são impossíveis de serem percorridas pelo corpo humano e os monumentos são grandes demais para apreciarmos a partir de nossa altura. Isso sem contar a falta de calçadas e ciclovias. Se você não tem um carro em Brasília, fica impossível se locomover.

O senhor fala em trânsito, problema grave no Brasil. Quais as soluções para essa questão?

O congestionamento é, sem dúvida, um dos maiores problemas das grandes cidades do mundo. E a chave para resolvê-lo é entender que a demanda correta não deve ser por mais transporte público ou ciclovias ou calçadas. Deve ser por mais opções, por mais liberdade de escolha de meios de se locomover do ponto A ao ponto B. Só ciclovias ou só transporte público não resolvem, mas uma combinação dos dois com boas calçadas e vias exclusivas de pedestres começam a deixar a cidade mais interessante e a dependência que se desenvolveu do carro começa a diminuir. Mas, ainda assim, muita gente vai continuar se locomovendo de carro, por comodidade. Então, junto com o aumento de opções de locomoção, é preciso diminuir o uso dos carros, dando menos lugar a eles.

Parece tão difícil e tão longe da nossa realidade…

Sim, é um processo complicado. Hoje Copenhague é um exemplo mundial de uma cidade boa para se viver, mas começamos nossa mudança de paradigma 50 anos atrás. A chave para que tenhamos chegado até aqui foi dar um passo de cada vez. Não dá para, de uma hora para outra, proibir os carros de estacionarem nas ruas. Mas que tal proibir em um bairro? Ou em apenas uma avenida? E, no lugar onde os carros estacionariam, criar uma ciclovia? Esse acaba sendo um projeto piloto, as pessoas teriam tempo para se acostumar. E, quando começar a dar certo, fazemos isso em outro ponto. Pouco a pouco a população vai entendendo como a cidade pode melhorar.

Como a população deve participar do processo da criação de cidades para pessoas?  

É fundamental que haja informação sobre como uma cidade pode ser melhor para que a sociedade exija as coisas certas. Enquanto exigirem mais ruas para dirigirem seus carros, as cidades vão continuar crescendo do jeito errado. Quando passarem a exigir mais liberdade de locomoção, daí o governo terá que fazer algo a respeito.

O planejamento urbano pode fazer as pessoas mais felizes?

Planejamento urbano não garante a felicidade. Mas mau planejamento urbano definitivamente impede a felicidade. A pior coisa para a felicidade das pessoas é perder tempo paradas no congestionamento. Se a cidade conseguir diminuir o tempo que você fica parado no trânsito e lhe oferecer áreas de lazer para aproveitar com seus amigos e sua família, ela lhe dará mais condições de ter uma vida melhor. O planejamento urbano é uma plataforma para as pessoas serem felizes.