“Em Istambul, a população está ciente do problema de mobilidade, mas desconhece soluções”

Diretora do filme Overdrive participa de conferência também em Nova York. (Divulgação)

No último mês, São Paulo recebeu a Mostra Ecofalante de Cinema Ambiental, apresentando filmes relevantes para o debate ambiental. Entre as sessões mais esperadas estava o filme turco “Overdrive: Istanbul in the New Millennium”, produzido pela EMBARQ, exibido pela primeira vez no Brasil. O longa mostra o impacto do uso desmedido do carro em uma cidade com história única e complexa, como Istambul, e as soluções encontradas até o momento para minimizar o problema.

Responsável por um roteiro bastante humanizado, que vai além da crítica, a diretora do filme, Aslihan Unaldi, falou ao TheCityFix Brasil sobre a experiência de dirigir o filme em sua cidade natal e levar a discussão da mobilidade para o grande público. Acompanhe a entrevista abaixo:

O que significou para você escrever e dirigir esse filme?

Quando Sibel Bulay, da EMBARQ Turquia, falou-me pela primeira vez sobre este filme sua ideia era fazer um filme que lidasse com problemas de transporte e tráfego de Istambul. Á medida que Sibel e eu fomos conversando mais, descobrimos que tínhamos em comum um grande amor e preocupação por Istambul. Então, aos poucos o filme se tornou algo a mais. Tornou-se um filme sobre Istambul, através de um prisma de rápida urbanização e motorização.

Mas por que deveríamos nos preocupar? Essa é uma pergunta que nós, cineastas, sempre nos perguntamos. Bem, a gente se importa porque Istambul é um lugar incrível, um lugar mágico, e seria muito triste perder sua beleza e textura por causa de decisões erradas. Também nos importamos porque as consequências sociais e ambientais discutidas no filme estão ameaçando muitas outras grandes cidades do mundo: Mumbai, Xangai, Cidade do México, Cairo e, claro, São Paulo.

Pessoalmente, eu me importo muito com o futuro de Istambul. E há decisões sendo feitas agora que irão afetar muito negativamente esse futuro. Então, as questões discutidas no filme são muito pessoais para mim. E elas são pessoais para muitas outras pessoas cujas vidas são e serão afetadas por estas decisões.

Você estava ciente dos problemas de mobilidade?

Todos que vivem em Istambul reclamam do trânsito. É o assunto preferido quando se trata de viver em Istambul. Então, sim, por ficar presa no trânsito por muitas horas, muitas vezes, eu estava ciente de que a mobilidade é um problema. Eu também estava ciente, a nível pessoal, de que as opções de transporte de massa são limitadas. No entanto ao fazer esse filme eu aprendi muito mais o sobre a gravidade do problema, bem como os perigos ambientais do carro baseado no crescimento da cidade.

Ao mesmo tempo em que todo mundo em Istambul está ciente do problema do trânsito, eles também desconhecem as soluções. Especialmente a minoria de elite, que tem carros, e pensa que a solução está na construção de mais ruas e infraestrutura para o carro. Essa é uma área em que nós esperamos, realmente, educar as pessoas com este filme.

Você se surpreendeu com as histórias que ouviu?

Sim, muito. Por exemplo a história das irmãs que viajam seis horas todos os dias de casa para o trabalho e vice-versa! Esse é um momento do filme em que todos se supreendem.

Por quanto tempo você se envolveu com o projeto?

Nós começamos a falar sobre este projeto no início de 2007, foi quando comecei a fazer minha pesquisa. Eu gravei a maior parte do filme em 2008, e depois fiz alguns ‘takes’ adicionais em 2010. Eu tinha cerca de 70 horas de filmagens e a edição levou vários anos. Nossa estreia aconteceu em março de 2011, no Festival de Cinema Ambiental, em Washington DC.

Houve algum impacto significante na sua vida?

Aprender mais sobre os problemas ambientais relacionados ao transporte e conhecer muitas pessoas interessantes neste campo me tornaram uma defensora do transporte público e sustentabilidade.

A nível pessoal, esse foi o primeiro filme que gravei em Istambul e gostei bastante. No momento estou desenvolvendo meu primeiro roteiro de discurso narrativo, também filmado em Istambul.

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Aslihan Unaldi

Aslihan Unaldi é roteirista, diretora e produtora, nascida e criada em Istambul. Graduou-se em Relações Internacionais e em Fotografia pela Universidade de Yale e é Mestre em Cinema pela Tisch School of Arts da Universidade de Nova Iorque. Seu premiado curta-metragem “Razan” estreou no Festival de Cinema de Rotterdam em 2006 e passou a percorrer o circuito de festivais internacionais. “Overdrive: Istanbul in the New Millennium” é seu primeiro documentário de longa-metragem.