Duas Rodas e Salto Alto: 10 lições das melhores cidades para se pedalar

Kyoto (Foto: Christine M. Grant)

 

Por Christine M. Grant *

No subúrbio Seattle onde cresci, a principal escolha sobre transportes que os moradores se preocupavam era qual tipo de carro comprar. Eu me mudei para Seattle depois da faculdade e, inspirada pelo estilo de vida “menos dependente do carro” que vários amigos tinham, decidi dar uma chance à bicicleta.

E então eu me apaixonei por isso. O uso da bicicleta no meu dia-a-dia urbano me libertou de ônibus lentos, parquímetros e de equipamentos ergométricos. Eu chegava ao trabalho com mais energia. Perdi peso. Descobri charmosos restaurantes na vizinhança. Podia sentir o cheiro de roupas recém-lavadas e jantares no forno enquanto eu pedalava para casa por ruas residenciais. Ir de A a B em minha bicicleta se tornou a melhor parte do meu dia.

Recentemente, ganhei uma bolsa para passar seis meses vivendo sobre duas rodas nas cidades mais “amigáveis” à bicicleta. Trouxe para casa 10 lições e milhares de fotos para o movimento Cascadia**(ver descrição no fim do post):

1.) É a infraestrutura, estúpido! Uma infraestrutura incrível torna o ciclismo normal e seguro nas “Mecas” da bicicleta, mas ainda não na região do Cascadia (Noroeste Pacífico dos EUA). Por exemplo, veículos estacionados à esquerda da ciclovia não só fornecem uma barreira entre o tráfego motorizado e os ciclistas, mas também minimizam as chances de um ciclista ser acertado por uma porta. A maioria dos carros na Dinamarca (foto) só tem um ocupante, o motorista, que sai pelo lado esquerdo. O mesmo vale para o Noroeste.

Dinamarca (Foto: Christine Grant)

As bicicletas se movem em velocidades diferentes das que os carros ou pedestres se movem, por isso as interceções são mais seguras para os ciclistas se eles tiverem seu próprio ritmo nos semáforos. Os ciclistas em Copenhagen geralmente tem uma vantagem sobre os carros na hora que abre o semáforo, assim eles ficam mais visíveis enquanto cruzam a interceção. Na foto abaixo, o semáforo está fechado para os carros, mas um semáforo menor ao lado mostra que está livre para os ciclistas.

Copenhagen (Foto: Christine Grant)

2.) Bike sharing! Bike sharing! Bike sharing! Bike sharing! Bike sharing! Programas de compartilhamento de bicicletas estão se espalhando pelo mundo, mas ainda não chegaram a Cascadia. Esses sistemas têm muito sucesso em aumentar o número de ciclistas. Aparentemente, as pessoas costumavam apontar e olhar se você estivesse pedalando em Barcelona. O ‘Bicing’, programa compartilhamento de bicicletas de Barcelona, mudou esse costume poucos anos. O programa Bicing iniciou em 2007 e rapidamente triplicou as viagens feitas de bicicleta de acordo com Miquel Ruscalleda, que dirige os investimentos de Barcelona no ciclismo.

Barcelona (Foto: Christine Grant)

Atualmente, 46% das pessoas que se vê pedalando em Barcelona estão usando as bicicletas vermelhas do Bicing.

Barcelona (Foto: Christine Grant)

Ruscalleda também relata que o fenômeno da “segurança em números” está funcionando em sua cidade. Em 2005, os ciclistas tinham 0,008% de chance de estarem envolvidos em um acidente de trânsito, atualmente a taxa caiu para cerca de 0,005%. Aproximadamente 130.000 viagens em bicicletas públicas são feitas por dia em Paris, graças ao programa de bike sharing Vélib.

3.) É mais seguro que um sofá. Uma vida sedentária duplica o risco de doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade. Combater essas doenças requer 30 minutos de exercício moderado todo dia – um mínimo que mais e mais pessoas ao redor do mundo não conseguem atender. “Por que não bolar um convite amplo e cuidadosamente planejado que incentive as pessoas a inserir o hábito de caminhar e pedalar em suas atividades diárias sempre que possível?” pergunta Jan Gehl, consultor de qualidade urbana dinamarquês. Quase 40% da população de Copenhagen alcança seu mínimo de exercício físico necessário pedalando até o trabalho ou escola. O Departamento de Saúde Pública de Copenhagen calcula que mesmo quando os custos de acidente são considerados, cada quilômetro de ciclismo se transforma em um ganho de US$ 1,30 para a saúde. Uma campanha de saúde pública recente em Copenhagen lembrava os cidadãos desses benefícios com o slogan: “você está mais seguro em sua bicicleta do que no sofá!”.

Copenhagen (Foto: Christine Grant)

4.) Agradeça. Os ciclistas também poupam o dinheiro das cidades, reduzindo despesas com o congestionamento, o escoamento de águas pluviais, a poluição do ar, e a manutenção das estradas. Muitas cidades estão criando pequenas ações para mostrar sua gratidão. Barcelona instalou recentemente um contador em uma das principais rotas cicloviárias que mostra o horário, a temperatura, a contagem diária de bicicletas que passaram por ali e o progresso em direção à meta anual de viagens oficial para aquela rota.

Barcelona (Foto: Christine Grant)

Copenhagen começou com descansos para os pés nas interseções, que dizem “Olá ciclista! Descanse seu pé aqui… e obrigada por pedalar na cidade!”.

Copenhagen (Foto: Christine Grant)

5.) Esqueça os redutores de velocidade e as placas de “crianças brincando”: transforme as ruas em quintais. O engenheiro de estradas holandês Hans Monderman odiava sinais de trânsito nas cidades. Seu raciocínio era simples. A maioria dos motorista não presta atenção às placas. Lombadas e redutores de velocidade também não têm muito efeito, porque notoriamente os motoristas aceleram muito após as interrupções, para “compensar o tempo perdido”. Monderman redesenhou as cidades holandesas para que os motoristas sentissem como se estivessem atravessando o quintal de alguém. Os projetos de “quintal” de Monderman trouxeram os móveis às ruas – bancos, mesas de piquenique, caixas de areia, canteiros, árvores, floreiras, e mesas de pingue-pongue. Os motoristas viam ou sentiam a presença de pessoas e crianças, e as leis sociais básicas prevaleciam. Não é educado passar acelerando pelo quintal de alguém. Muitas ruas residenciais em toda a Europa, como na foto abaixo, em Basileia, na Suíça, agora incorporam os princípios de Monderman.

Basileia, Suíça (Foto: Christine Grant)

6.) Deixe os custos falarem a verdade. Donald Shoup, economista e autor do livro ‘The High Cost of Free Parking’ diz que “as pessoas que querem estacionar seus carros não deveriam fazer isso de graça nos locais mais valiosos do planeta”. Estacionar na rua custa geralmente US$ 4,50 por hora nas cidades europeias. No Japão, encher um tanque de gasolina custa cerca de US$ 7,25 por litro, e os preços de combustível na maioria dos países da Europa são muito mais altos do que no Noroeste (Cascadia).

Japão (Foto: Christine Grant)

7.) Você não precisa de “roupas de ciclista”. A maioria das mulheres e homens que vi andando de bicicleta na Europa e Japão não usavam roupas especiais. As pessoas simplesmente usavam seus trajes habituais, com sapatos de salto e tudo mais.

Paris (Foto: Christine Grant)

Mulheres de Londres a Tóquio pedalavam lindas, estilosas e femininas.

Tóquio (Foto: Christine Grant)

Homens frequentemente pedalam de terno.

“Estilo antes de velocidade”, diz Mikael Colville-Anderson, que iniciou o movimento Cycle Chic.

8.) Eletrifique. Pode ser difícil subir por ruas íngremes com uma bicicleta de carga com duas crianças e compras (foto abaixo).

Copenhagen (Foto: Christine Grant)

É por isso que muitos pais da montanhosa Zurique, Suiça, usam bicicletas elétricas. Elas também podem ajudar pessoas que estão lutando contra a obesidade ou se recuperando de um ataque cardíaco, pois permite que as pessoas descansem quando sentirem-se sobrecarregadas. O dono de uma loja de bicicletas que entrevistei em Zurique constrói bicicletas elétricas personalizadas (abaixo) para pessoas com dificuldade que, não fosse por isso, dependeriam do transporte público.

Zurique (Foto: Christine Grant)

9.) Admita: É emocional. O olfato e o tato são os sentidos mais ligados às nossas emoções. Na Europa e no Japão, falei com dezenas de ciclistas urbanos que falaram sobre a curiosa felicidade que vem da ativação dos sentidos e por se conectar com sua cidade quando se está em uma bicicleta. A voz de um pai em Amsterdam realmente falhou de emoção quando ele refletiu sobre seus passeios matinais e vespertinos com o filho. Seu bebê sentava em uma cadeira infantil na frente da bicicleta do pai. Ele lembra como era bom sentir o cheiro da cabeça do filho no caminho até a creche. Passar uma fração do dia exposto à natureza é refrescante para muitas pessoas e o ritmo “humano” do ciclismo nos permite perceber detalhes sobre a nossa comunidade que de outra forma perderíamos.

Kyoto (Foto: Christine Grant)

10.) É um círculo vicioso. “O ciclismo não é apenas uma parte do DNA holandês”, me disse Marc Van Woudenberg em Amsterdã – onde 47% da população faz no mínimo uma de suas viagens diárias por bicicletas. A Holanda tem os índices mais altos do mundo no uso de bicicletas como transporte porque os cidadãos deixaram claro para os políticos que infraestrutura cicloviária é prioridade. Melhores infraestruturas atraem mais pessoas a pedalar, o que gera mais defensores de boas infraestruturas, que gera mais pessoas pedalando, e assim por diante. Hoje, os holandeses continuam a lutar por infraestruturas que facilitem o ciclismo – como esse seguro estacionamento de bicicletas na estação de trem em Groningen (Holanda).

Groningen, Holanda (Foto: Christine Grant)

Depois de seis meses viajando em minha bicicleta, estou inspirada por todas as formas criativas com que as cidades estão se transformando para atender às necessidades do século 21: baixas emissões de carbono, aumento nos índices de atividade física, redução do barulho e do perigo, aumento da diversão e do estilo. Aqui em Cascadia temos empolgantes oportunidades para se juntar às melhores cidades para se pedalar, e redefinir o transporte urbano em duas rodas.

 

* Christine M. Grant frequentemente usa sapatos de salto alto quando pedala em Seattle. Você pode ler mais sobre as cidades que ela visitou de bicicleta em seu blog ShiftEsse artigo foi originalmente publicado no site Sightline Daily em 23 de janeiro de 2012.

 

** Cascadia é o nome proposto para a entidade política biorregional localizada dentro da região do Noroeste Pacífico da América do Norte. Os limites terrioriais propostos diferem, alguns sendo desenhados por linhas estaduais e provinciais já existentes, e outros ao longo de fronteiras ecológicas, culturais e econômicas.

Calculada apenas pela união da British Columbia (que seria separada do Canadá), de Washington e Oregon, a nação de Cascadia seria o lar de mais de 20 milhões de pessoas, com uma economia de US$ 750 bilhões em bens e serviços por ano. Só Seattle, sua maior cidade, tem uma economia pouco menor que a da Tailândia e maior do que a da Colômbia e da Venezuela. Por área, a Cascadia seria a 20ª maior nação do mundo, com uma área de 1.384.588 km², logo atrás da Mongólia.