A mobilidade de Curitiba depende de quatro fatores

Curitiba foi referência em transporte público ao implantar os ônibus BRT (Foto: Thomas Hobbs)

Por Paulo Finatto Jr.

Curitiba possui atualmente 881.664 automóveis circulando diariamente. Se dirigir pelas ruas da cidade já se mostra um desafio frequente, as perspectivas para o futuro próximo são ainda menos animadoras. A capital paranaense deve atingir em 2020 a atual densidade de veículos dos Estados Unidos, considerado o país mais motorizado do mundo.

A taxa americana é de 628 carros para cada mil habitantes, segundo o US Bureau of Transit Statistics. Curitiba conta hoje com cerca de 503 carros para o mesmo número de pessoas, índice superior ao de cidades como Londres, que ainda não ultrapassou a marca de 400 automóveis por mil moradores. Os números mostram que está na hora das autoridades – e também da população – tomarem uma atitude.

A difícil tarefa de melhorar a mobilidade de Curitiba tem encontrado em pesquisas de especialistas em trânsito um consenso. O uso individual do automóvel – fonte de efeitos negativos como congestionamentos e poluição – deve ser freado por medidas práticas que priorizem, sobretudo, outros meios de transporte. Além disso, as políticas de incentivo ao uso do transporte coletivo e de bicicletas só serão eficazes se vierem acompanhadas por instrumentos de restrição ao tráfego de carros, pesando no bolso do motorista ou impedindo o deslocamento em horários específicos.

O fato de o automóvel ser compreendido como o “vilão da história” é endossado por números da Associação Nacional de Transportes Públicos. Enquanto que os veículos de transporte coletivo consumiram no ano passado 25% da energia total gasta pelo transporte urbano, automóveis e motocicletas consumiram os outros 75% e responderam por menos da metade do total de deslocamentos. Outros dados mostram ainda que, caso a taxa de crescimento da frota se mantenha, o número de veículos dobrará nos próximos dez anos, enquanto que a rede viária levará 35 anos para ser duplicada.

Como impedir, então, que esse cenário desfavorável se concretize? A mobilidade urbana de Curitiba depende de quatro fatores, que já estão sendo – ou estão próximos de serem – adotados pela cidade:

Taxa de congestionamento

É o chamado “pedágio urbano”, a cobrança feita aos motoristas pelo uso das vias mais congestionadas, normalmente na área central da cidade. A medida é prevista na nova Política de Mobilidade Urbana e vai ser absorvida por Curitiba. De acordo com a lei, a arrecadação deverá ser destinada para a melhoria do transporte coletivo e para obras de infraestrutura. Londres e Estocolmo já adotaram projetos similares, em 2003 e 2006, respectivamente.

Restrição de tráfego

É a medida mais comum entre as cidades brasileiras: consiste em restringir o tráfego de determinados veículos, principalmente caminhões, em certos trechos e horários específicos, nas vias urbanas ou em rodovias. No centro de Curitiba, existe a Zona Central de Tráfego (ZCT) desde 1997, que restringe o deslocamento de veículos de carga – acima de sete toneladas. A mesma medida, por exemplo, já contribuiu para melhorar o fluxo de veículos em vias congestionadas de Buenos Aires.

Restrição de estacionamento

Com o intuito de desencorajar o uso do automóvel, a iniciativa – que será adotada em Curitiba até o próximo ano – prevê a diminuição da oferta de vagas para estacionar, removendo os espaços disponíveis ou transformando-os em áreas de uso comum, como pequenos parques. Em Salvador, por exemplo, o estacionamento gratuito oferecido pelo município foi reduzido em toda a área central da cidade, que passou a servir aos veículos do transporte público.

Investimento em transportes alternativos

A principal diretriz da nova Política Nacional de Mobilidade Urbana consiste em dar prioridade aos meios de transporte coletivo e aos não motorizados, como as bicicletas. Curitiba já foi um exemplo em transporte público, ao implantar o modelo BRT, com corredores exclusivos para os ônibus. Inspirada no modelo curitibano, Bogotá, na Colômbia, acabou se tornando uma das principais referências internacionais, ao abolir o metrô e criar uma rede de ônibus eficaz e moderna, com 1.787 veículos, que transportam em dias úteis 1,74 milhão de passageiros.