Curitiba: As dez maiores conquistas da bicicleta em 2011

Curitiba, Paraná (Foto: Elisandro Dalcin)

Por Alexandre Costa Nascimento (originalmente publicado em 28/12/2011, no blog Ir e Vir de Bike / Gazeta do Povo)

O ano está acabando, mas a luta do movimento cicloativista de Curitiba está apenas em seu início. Ainda falta muito para construirmos uma cidade verdadeiramente amiga das bicicletas, mas as conquistas ao longo de 2011 nos deixaram algumas pedaladas mais próximos desse grande objetivo.

Este foi o ano em que os diversos movimentos pela causa das bicicletas em Curitiba se articularam e conseguiram atingir a massa crítica. As bikes ganharam as ruas e o tema da mobilidade urbana sustentável conquistou espaço na cobertura da mídia, nas redes sociais e no debate público sobre o futuro da nossa cidade.

Futuro esse, aliás, que continuará a ser construído em 2012, ano de eleições municipais. Será a oportunidade de fazer da bicicleta o veículo da cidadania para cobrar de quem deveria ter feito e nada fez; de quem fez, mas fez errado; e de quem prometer que vai fazer apenas na esperança de angariar mais votos.

Para fazer uma retrospectiva e lembrar os principais fatos que marcaram o ano, o blog Ir e Vir de Bike perguntou: para você, qual a principal conquista do movimento cicloativista curitibano em 2011? A enquete ficou disponível por 20 dias na fã page do blog no Facebook e recebeu 210 votos. Confira os resultados:

VotoLivre.org com mais votos que 90% dos vereadores de Curitiba (27%)

Ato de lançamento do VotoLivre.org na Praça 29 de Março: Lei da Bicicleta. (Foto: Lucas Pontes)

Candidata a modal de transporte em Curitiba, a bicicleta conseguiu em 2011 mais votos que 34 dos 38 vereadores eleitos em 2008 para a Câmara Municipal.

Com o lema “Vote em ideias, não em pessoas” a iniciativa VotoLivre.org, que busca reunir apoios para um projeto de iniciativa popular que estabeleça políticas públicas para a bicicleta, fecha o ano com cerca de 12 mil votos. (Como apresentamos aqui.)

Na prática, isso significa que um objeto inanimado de duas rodas tem mais legitimidade que 90% dos supostos representantes da população curitibana.

Para que o projeto de lei possa ser apresentado, entretanto, são necessárias 65 mil assinaturas, o equivalente a 5% do eleitorado da capital paranaense. A meta do movimento é atingir esse objetivo antes das eleições de 2012.

• : Marcha das 1.000 Bicicletas no Dia Mundial sem Carro (13%)

O Dia Mundial Sem Carro, comemorado em 22 de setembro em mais de 2 mil cidades ao redor do planeta, foi solenemente ignorado pela prefeitura de Curitiba, que não preparou nenhuma ação específica para marcar a data na cidade.

Mas a comemoração ficou por conta dos ciclistas, que formaram um verdadeiro batalhão e tomaram as ruas para lutar por uma da cidade com menos carros e mais bicicletas nos 365 dias do ano. Segundo informações da Polícia Militar, a Marcha das 1.000 Bicicletas mobilizou cerca de 1,2 mil ciclistas.

• Criação da CicloIguaçu (12%)

As diversas iniciativas em defesa da causa das duas rodas saíram da informalidade e ganharam personalidade jurídica e um estatuto com a criação da Associação de Ciclistas do Alto Iguaçu (CicloIguaçu ).

A entidade, formalmente constituída como representante do movimento cicloativista de Curitiba e municípios da região metropolitana tornou-se um eixo de comunicação, articulação e mobilização do movimento, alavancando ganhos concretos para a bicicleta na cidade.

• Ganhar voz e ser um movimento ouvido pela sociedade (10%)

O ano de 2011 poderá ser lembrado com aquele em que o tema da bicicleta rompeu os limites da blogosfera e das redes sociais para ganhar espaço na cobertura da chamada “grande mídia”.

A Bicicletada ocorre simultaneamente em 200 cidades do mundo, inclusive em Curitiba, no último sábado do mês: segundo os ciclistas, as pedaladas têm o poder de transformar as cidades (Foto: Gazeta do Povo)

Percebendo a importância do assunto, tevês, jornais, revistas, rádios e sites ajudaram a promover o debate sobre esse meio de transporte sustentável, ajudando a desconstruir o mito de que bicicleta é coisa de “pobre” ou de “eco-chato”. O Ir e Vir de Bike, que passou a ser hospedado pela Gazeta do Povo, é uma prova dessa transformação.

Além disso, a própria Prefeitura passou a dar mais atenção ao tema, como quando, por exemplo, marcou uma reunião às pressas com os cicloativistas e publicou em seu site oficial quatro das principais matérias relacionadas ao tema da bicicleta.

• Protesto contra a “Ciclofarsa de Lazer” (9,5%)

Era para ser uma festa, marcando a entrega de uma “grande obra” da prefeitura para os ciclistas de Curitiba. Mas a inauguração do “Circuito Ciclofaixa de Lazer” virou motivo de piada. Tanto que nem o prefeito, nem nenhum secretário municipal, deram as caras para inaugurar oficialmente a tal “ciclofaixa” após as pesadas críticas dirigidas ao projeto.

O circuito, de apenas 4 quilômetros de extensão, no centro da cidade, funciona somente uma vez por mês – ao contrário das outras 15 cidades brasileiras que implantaram projetos como esse com periodicidade semanal.

Além disso, a proposta trata a bicicleta como equipamento de lazer, e não de transporte. O circuito acabou sendo inaugurado simbolicamente pelos 300 cicloativistas, que ignoraram a demarcação e pedalaram no lado direito da via.

• Fundação da Bicicletaria Cultural (8,5%)

Fundada em 19 de agosto de 2011 pelos cicloativistas Fernando Rosenbaum e Patrícia Valverde, a Bicicletaria Cultural tornou-se um ponto de convergência para discussão de política, cultura e arte relacionadas à temática da bicicleta em Curitiba.

O espaço oferece aos ciclistas da capital um lugar seguro e bem localizado no centro para estacionar as bikes, além de oficina mecânica, oficinas de arte, exposições e palestras.

• Participação representativa na Câmara Técnica de Mobilidade do Concitiba (7,5%)

Nataraj (esq.) e Ducci: compromissos e câmara técnica para discutir uso da bicicleta em Curitiba (Foto: CicloIguaçu)

A institucionalização do movimento cicloativista garantiu representatividade à causa das bicicletas com a participação formal da CicloIguaçu na Câmara Temática de Mobilidade do Conselho da Cidade de Curitiba (Concitiba), órgão consultivo da Prefeitura.

Com uma cadeira no conselho, a entidade ajudou a aprovar o projeto dos paraciclos públicos de Curitiba — da escolha do modelo à sugestão de locais para instalação dos equipamentos.

A participação também garantiu a inclusão da bicicleta no projeto de revitalização da Avenida Cândido de Abreu, no Centro Cívico e a instalação de um semáforo com acionamento para pedestres e ciclistas no cruzamento da rua Mariano Torres com a avenida Visconde de Guarapuava, no centro da cidade.

Ainda no âmbito da Câmara Técnica, o movimento busca a melhoria na sinalização e revitalização das ciclovias do anel central e bairros adjacentes, além da inclusão de paraciclos no projeto de revitalização dos terminais de ônibus da capital.

• Incentivar pessoas se locomoverem de bicicleta (4%)

Optar pelo uso da bicicleta como meio de transporte na capital mais motorizada do país não é tarefa fácil. Mas nem mesmo a falta de incentivo oficial ao uso da bike foi capaz de intimidar os “bicicleteiros”.

O número de curitibanos que pedalam vem crescendo sensivelmente, derrubando de uma vez por todas as falácias de que o clima ou a topografia da cidade são fatores que impedem o uso desse modal.

“O movimento me mostrou que eu podia ter uma bike e que eu podia usá-la como meio de transporte. Fiz por conta dos exemplos. A maior conquista é esse incentivo que o movimento proporciona ao mostrar para cada vez mais pessoas que dá sim para se locomover de bicicleta”, relata a ciclista Lailana Krinski.

• As “serenatas” em frente ao prédio do prefeito Luciano Ducci (2,5%)

Ciclistas fazem "serenata" em frente a casa do prefeito e gritam: "pedala Ducci". (Foto: Lauro Borges/Reprodução)

De forma ousada e irreverente, os ciclistas de Curitiba criaram uma nova forma de protesto: as “serenatas” em frente à casa do prefeito Luciano Ducci (PSB). Lá, os manifestantes se reuniram em três ocasiões para exigir políticas públicas voltadas ao uso da bicicleta não apenas como lazer.

A ação deu resultados na forma de uma reunião entre os ciclistas e a Prefeitura, que assumiu alguns compromissos importantes. Além disso, segundo fontes próximas a Ducci, o protesto literalmente “tirou o sono” do prefeito.

• 10ºAção “Sinal Verde para a Bicicleta” (2%)

Às vésperas do Dia Mundial Sem Carro, um grupo de ciclistas de Curitiba fez uma intervenção artística urbana para conscientizar e sensibilizar a sociedade sobre necessidade da bicicleta ser tratada como meio de transporte.

A ação, chamada de Sinal Verde para a Bicicleta, colou máscaras no formato de bicicletas em 108 semáforos da cidade. A ação gerou críticas dos órgãos de trânsito e da Prefeitura, mas, de acordo com os organizados, atingiu o objetivo de chamar a atenção para a necessidade de espaço para as bicicletas no trânsito de Curitiba.