As Origens do Problema

Trânsito congestionado na Av. 23 de Maio em São Paulo. (Foto: Milton Jung CBNSP)

As cidades brasileiras vivem um momento em que já não se pode mais deixar de reconhecer a mobilidade urbana  como uma das grandes questões de suas agendas políticas locais. Surgem, agora, teses variadas a respeito do entupimento das ruas e do declínio da nossa faculdade humana de ir e vir.

Há quem ainda não tenha superado as ideias modernistas e pregue o alargamento de vias, a construção de viadutos e o asfaltamento massivo. Esses vivem a velha ilusão da liberdade baseada na posse de um veículo automotor. Ainda não perceberam que um cenário onde cada cidadão possua um carro é inviável, tanto do ponto de vista global quanto no que diz respeito à boa forma das cidades.

Em um nível de maturidade um pouco mais elevado estão aqueles que perceberam que o excesso de veículos individuais é um problema a ser enfrentado. Esses costumam culpar os governantes e o parco investimento nos sistemas públicos de transporte coletivo. Resistem a tornarem-se usuários desses sistemas, alegando que a qualidade dos serviços é baixa. Não notam que as coisas só vão mudar quando usuários mais influentes passarem a exigir melhorias.

A análise do problema começa a ficar interessante quando começamos a julgar os interesses que estão em jogo na definição da agenda política de mobilidade urbana. Indústrias, transportadores, construtores e outros lobbies têm um papel importante na priorização dos investimentos estatais.

A falta de cultura política da sociedade civil brasileira faz com a visão do cidadão comum, sem maiores compromissos com agendas econômicas específicas, não seja representada nos processos decisórios.

Uma visão ainda mais ampla da questão dá conta da chamada cultura automobilística. Trata-se de um valor da nossa sociedade que tem impacto em muitos hábitos e decisões. Desde o trabalhador informal, que abandona o ônibus para comprar uma motocicleta assim que a oportunidade bate à porta, até o ministro,

que decide reduzir o imposto sobre os veículos individuais como forma de aumentar o giro da economia. Todos temos um pouquinho de gasolina no sangue.

Em outra ponta do mapa conceitual da mobilidade urbana está a quantidade de deslocamentos desnecessários que realizamos no cotidiano. Quantas viagens poderiam ser evitadas se tivéssemos processos burocráticos mais inteligentes ou se utilizássemos massivamente ferramentas tecnológicas como o Dropbox, que permite disponibilizar arquivos para a edição de diversos usuários, evitando o envio de documentos por via física.

É verdade que o problema é complexo. Mas é importante que façamos um esforço para perceber de maneira precisa os nexos causais que envolvem a situação de nossas cidades. Para não sucumbirmos a eventuais armadilhas midiáticas nem aos reducionismos que servem a um ou outro interesse.