Entrevista: Chris Carlsson, precursor do Massa Crítica

Carlsson ganhou reconhecimento como ativista e fundador do Massa Crítica nos EUA. (Foto: Media Sanctuary)

Por Daiane de David e Luiz Eduardo Kochhann, entrevista publicada pelo Jornal da Universidade / UFRGS, na edição de agosto de 2011.

Um dos precursores do movimento Massa Crítica, o norte-americano Chris Carlsson é escritor, historiador da contracultura e ativista do espaço público. É autor de livros como Nowtopia (A Utopia do Agora – tradução livre), sobre pessoas comprometidas com políticas alternativas de trabalho que vão além da lógica de mercado e que levam uma forma mais artística de pensar para seus projetos. Em entrevista ao JU, Carlsson contou que o movimento, iniciado em 1992, em São Francisco, nos Estados Unidos, é resultado de encontros e discussões entre um grupo de amigos que tentava imaginar uma maneira de ligar ciclismo e política. Ele está organizando um livro e promovendo um encontro entre ciclistas de diversos países em comemoração aos 20 anos do Massa Crítica.

JU – Nos conte sobre o livro e o encontro em comemoração aos 20 anos do Massa Crítica.

Estamos solicitando textos ensaísticos de vários cantos do mundo. O Massa Crítica vem acontecendo há duas décadas em San Francisco, menos em outros lugares, mas cada local tem a sua história particular. Nessa singularidade, há sagas em comum que unem experiências que estamos tendo ao redor do planeta. Esperamos que os ensaios que apareçam ampliem nossa compreensão deste momento da história para ajudar-nos a situar o renascimento do ciclismo – que está claramente em andamento no contexto do papel da Massa Crítica, que é de empurrar os limites para a ação direta, tomando as ruas, reabitando paisagens urbanas, revigorando nosso compromisso com o uso do espaço público, e muito mais. Durante a última semana de setembro de 2012, realizaremos passeios diários, uma conferência, um festival de cinema, shows artísticos, mostras de arte, refeições coletivas, festas e concertos em um grande festival para celebrar os vinte anos de transformação política e pessoal.

JU – 20 anos depois, o que mudou no cenário das bicicletas?

A mudança mais óbvia é o aumento considerável do uso diário da bicicleta nas maiores cidades do mundo. Junto com isso, está o amplo crescimento de uma cultura da bicicleta, baseada no faça-você-mesmo, em oficinas de conserto, fanzines sobre ciclismo, programas de rádio, roupas, arte, e muito mais. Muitas cidades introduziram ciclovias para acomodar o aumento de ciclistas, enquanto outras implementaram áreas de passeio nos finais de semana ou eventuais rotas para facilitar a recreação. Os ciclistas são muito mais aceitos e parte integrada do transporte urbano do que eram há 20 anos.

JU – O que você aprendeu com a Massa Crítica?

Aprendi que a atuação coletiva é mais aceita e bem-sucedida se for ligada ao dia a dia das pessoas e se não exigir uma ruptura drástica no seu ritmo de vida. Isso também confirma algo que eu já sabia: políticas radicais só são bem-sucedidas e atrativas quando são agradáveis, baseadas mais no prazer do que no sacrifício, no sofrimento e na raiva. A urgência por dignidade embasa o desejo da Massa Crítica e dos ciclistas por um tratamento justo. Dessa maneira, ecoa em outros movimentos sociais e manifestações que iniciaram em uma circunstância mais difícil, mais precária, e que buscam a dignidade básica e os direitos humanos.

JU – Você acredita nas bicicletas como meio de transformação social?

Com certeza, mas somente se os ciclistas se engajarem em políticas e estiverem dispostos a repensar seu jeito de viver. Bicicletas também podem ser veículos do tédio capitalista naturalizado.

JU – O que você espera do futuro das bicicletas em todo o mundo? Você acredita em uma progressiva aceitação e no aumento do uso delas?

Sim, claramente. As múltiplas crises econômicas, a ecologia e a anomia social estão levando as pessoas a optarem por bicicletas como uma alternativa saudável e divertida, em vez de sofrer com a estupidez, as despesas e a sujeira da cultura dos automóveis.

JU – Quais países servem de modelo para políticas públicas na área? Como você avaliaria o Brasil e os Estados Unidos nessa questão?

Na minha opinião, há um empate entre Dinamarca e Holanda no topo da lista. Já nos EUA, a cultura do carro está acima de tudo, e todas as conquistas dos ciclistas são resultados de uma grande luta. Ainda passarão alguns anos antes de a bicicleta ser totalmente aceita como uma alternativa normal de transporte, não sendo mais vista como um brinquedo, mas como um passo para a vida adulta, que implica a posse de um automóvel. Acredito que o Brasil está mais próximo dos EUA do que do Norte Europeu. Mas, entre os brasileiros, com a sua fantástica cordialidade e a sua incomparável vontade de aproveitar a vida, além do excelente clima do país, as bicicletas têm um grande futuro.

JU – Quais são as vantagens de optar pela bicicleta como meio de transporte?

Saúde, melhor coesão social com o mundo que circundante, melhor compreensão da realidade, mais interação com os sistemas ecológicos e naturais, menos tempo perdido trabalhando para pagar um carro, mais tempo para aproveitar a vida.