Uso do carro atinge o limite nos países desenvolvidos

Nova Iorque optou pela reurbanização da Times Square, bloqueando vias para os carros e aumentando o espaço dos pedestres (Foto: Aterix611)

por Bruno Calixto, artigo publicado na Época, em 18 de julho de 2011.

Os longos congestionamentos e o estresse que as pessoas enfrentam todos os dias para se locomover nas grandes cidades podem estar chegando ao fim. Ao menos nos países desenvolvidos. Pesquisadores estão identificando um novo padrão na forma como as pessoas se movimentam, com queda no uso do carro e aumento de embarques em trens, ônibus e metrô. Um artigo dos pesquisadores Peter Newman e Jeff Kenworthy, do Instituto de Sustentabilidade da Universidade de Perth, na Austrália, afirma que o uso do carro nos grandes centros urbanos dos Estados Unidos, Europa e Austrália pode ter atingido o pico em 2004, e, desde então, começou a cair.

Segundo o estudo, os dados mostram claramente que o uso do carro chegou a um ponto máximo e começa a diminiuir. Na década de 1960, a quantidade de quilômetros rodados por carro aumentou 42%. Na década de 70, 26% e em 1980, 23%. O período de 1995-2005 mostra um aumento global de 5,1%, mas queda em várias metrópoles nos países desenvolvidos: Londres (-1,2%), Estocolmo (-3,7%), Viena (-7,6%). Nos Estados Unidos, Houston teve queda de 15% e Atlanta, 10%. As duas cidades tinham níveis bastante altos de uso de transporte individual em 1995.

Além disso, muitas cidades europeias estão propositalmente tornando mais difícil a vida dos motoristas. Viena, por exemplo, fechou diversas ruas do centro da cidade para os carros [fenômeno conhecido como “evaporação do tráfego”]. Londres e Estocolmo cobram taxas de congestionamento – conhecidas no Brasil como pedágio urbano – para os motoristas trafegarem no centro da cidade, e várias cidades alemãs criaram “zonas” onde só podem circular carros com baixa emissão de poluentes e gases de efeito estufa.

Em compensação, esses países estão vivendo um renascimento do transporte público. A quantidade de embarques em ônibus, trens e metrô cresceu 12% nas cidades americanas, 8% no Canadá e 6% na Austrália. Segundo o estudo, uma pequena melhora no transporte público pode ser suficiente para que um grande número de pessoas deixe o carro na garagem.

Os principais motivos para essa tendência são econômicos: os autores relacionam a alta do preço do petróleo, que encarece o transporte individual, com a queda do uso do automóvel. Em 2008, o preço do barril de petróleo chegou a US$ 140, e foi considerado um dos fatores que contribuíram para a crise financeira. No momento, o barril está cotado em US$ 90, e a tendência é que o valor continue alto nos próximos anos.

Economizar tempo também pode ser um fator relevante: viagens longas para chegar ao trabalho são cada vez menos toleradas. Os pesquisadores acreditam que exista um “limite de tolerância” do tempo que as pessoas aguentam gastar para se locomover na cidade de cerca de uma hora. Se os infindáveis congestionamentos tornam a viagem mais longa, as pessoas tendem a substituir o carro, buscando alternativas como bicicleta, caminhada e transporte coletivo, o que pressiona o poder público a investir nessas áreas. Para se ter uma ideia, hoje cerca de 20% da população dos centros urbanos no Brasil leva mais de uma hora para se deslocar para o trabalho.

Segundo o ambientalista e consultor de Mobilidade Sustentável Lincoln Paiva, o uso do carro está, de fato, diminuindo na Europa, mas não a venda de veículos, que está estabilizada. “Não importa muito o número de automóveis nas cidades, o importante é como utilizamos os automóveis e como o governo está trabalhando para equilibrar essa balança. O ideal seria passar a seguinte mensagem aos motoristas: continuem comprando automóveis, mas use-os com moderação”.

Tendência inversa: no Brasil, sobe o uso de carros; cai o de transporte público 

No Brasil, a tendência é praticamente oposta à dos países desenvolvidos. De acordo com um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) realizado em 12 regiões metropolitanas do país, na última década o uso do carro aumentou 8% ao ano, e o de motocicletas, 15% ao ano. Enquanto isso, o uso de transporte público caiu 30% nos últimos dez anos. “Esse crescimento do transporte individual é muitas vezes interpretado pelas pessoas como uma melhora na qualidade de vida. Mas, do ponto de vista da cidade, é um problema sério: gera congestionamentos, poluição, acidentes de trânsito”, diz Carlos Henrique Carvalho, pesquisador o Ipea.

Segundo Carvalho, o Brasil viveu um período de degradação do transporte público, com perda de qualidade e aumento de tarifas. Com a economia aquecida, os brasileiros que podem manter um carro evitam usar os serviços públicos. O resultado é um círculo vicioso em que as pessoas não usam transporte coletivo porque o serviço é ruim, o que diminui a arrecadação de empresas de ônibus e metrô e, consequentemente, aumenta a tarifa e piora o serviço prestado. Para Carvalho, a solução é inverter as prioridades de transporte no Brasil, investindo mais em transporte público e estimulando o uso racional de carros e motos.

Para Paiva, reduzir o uso do carro pode ser bastante positivo tanto para as cidades quanto para as pessoas. O ambientalista cita estudos que mostram que o crescimento da motorização está relacionado com a obesidade nos EUA: ir a pé ou de bicicleta ao trabalho seria uma forma de poluir menos e ainda manter a própria saúde. “No Brasil, cerca de 25% dos trabalhadores moram até 30 minutos a pé do trabalho, e outros 45% até 60 minutos a pé. De bicicleta, essa distância em termos de tempo cairia para 10 e 15 minutos. Ou seja, 75% dos trabalhadores poderiam adotar formas alternativas de deslocamento”. Resta ao poder público criar mecanismos que incentivem essa mudança, além de garantir a segurança de pedestres e ciclistas no trajeto.

Paiva acredita que a solução para a mobilidade passa por ações integradas, e cita as cidades alemãs que trabalham com o conceito de Transport Demand Management, o gerenciamento da demanda por transporte. Nesse conceito, a cidade estuda quais são as demandas de mobilidade e atua onde há excesso de automóveis, com o objetivo de melhorar todo o sistema. “Isoladas, medidas como pedágio urbano não passam de arrecadadores de receita para a prefeitura, mas bem projetadas e em sinergia com outros programas, podem transformar a forma de se locomover na cidade.”

Sem dúvida, andar de carro pode ser mais confortável em uma cidade que não possui a infraestrutura de transporte para atender seus moradores. Para que a tendência de aumento do uso do carro seja revertida nas grandes cidades brasileiras, é necessário convencer os motoristas a deixar o carro na garagem. Quais medidas você acha que ajudariam a tornar essa decisão mais conveniente do que enfrentar os engarrafamentos?

  • http://twitter.com/prips_santos Priscilla Santos

    Acredito que a solução é mesmo a melhoria do transporte público, aumentando a disponibilidade dos meios de transporte aos motoristas. Infelizmente o Brasil preferiu nos últimos anos estimular absurdamente o crédito com medidas populistas para que qualquer um consiga comprar um carro, em vez de investir em melhoria de transporte público. E pior: o aumento do crédito não foi acompanhado de melhoria na infraestrutura viária, e o resultado está aí: caos no trânsito todo santo dia. Agora, às vésperas dos Grandes Eventos (2014 e 2016), o governo “acordou” para o dilema que será levar todas as pessoas aos estádios, arenas, etc. Um pouco tarde, mas ainda sim melhor que nunca.

  • Helton Moraes

    Estive na Europa recentemente (Amsterdam e Praga) e apesar de maravilhado com a estrutura ciclística de Amsterdam e com o transporte público de Praga, não posso deixar de pensar que é impossível querer transferir o modelo de lá para cá, porque a estrutura sócio-cultural, histórica e econômica é completamente diferente. Acho que lá foram desenvolvidas soluções que valem lá, e aqui devem ser desenvolvidas soluções que tenham o mesmo efeito, mas possivelmente sejam implementadas de forma diferente. Um problema complexo, sem dúvida.