Entrevista com David Byrne

David Byrne, Nova York (Foto: Trip/Gil Inoue)

No mês passado, o cicloativista David Byrne pedalou e contou suas experiências com a bicicleta por vários países da América Latina. A missão de defender e disseminar o uso da bike pelo mundo é rotina para o ex-vocalista da banda Talking Heads, que abriu as portas de sua casa em Nova York para a Revista Trip (edição nº201 / julho 2011) e contou sobre sua relação com esse meio de transporte saudável, simpático e não-poluente.

A bicicleta pode ser a principal arma da revolução silenciosa que tenta reinventar o mundo? Byrne responde! Acompanhe, abaixo, a entrevista na íntegra.

 

David Byrne, qu’est-ce que c’est? Ex-líder da banda Talking Heads, embaixador da world music, cineasta, artista plástico, escritor e, de uns anos para cá, garoto-propaganda da bicicleta. Depois de pedalar por Nova York e pelo mundo, o multiartista escreveu o livro Diários de bicicleta e passou a dar palestras sobre mobilidade sustentável. Este mês é a vez do Brasil: Byrne vem para a Flip, em Paraty, e para um fórum em São Paulo. Mas antes de embarcar ele contou à Trip como a bicicleta pode se tornar o símbolo maior de uma nova consciência urbana

Texto por MIllos Kaiser e Ricardo Calil, de Nova York

Se você quer se dar bem em Nova York, é preciso escolher o veículo certo. Nada de carro do último ano, táxi amarelo disputado a tapas ou o sempre eficiente, porém infestado de ratos, sistema de metrô. O negócio agora é ter uma bicicleta. De preferência, um modelo raro. Se por acaso cair nas suas mãos uma bike do século 19, aquela com a roda da frente gigante e a de trás minúscula, então você é o cara.

Foi só um passeio de meia hora entre Chinatown e o SoHo, levando a bicicleta na mão. Mas, pasme, também foi o suficiente para descobrir que no peito do nova-iorquino – talvez o povo mais marrento do planeta – também bate um coração. O policial abriu passagem na calçada, esquecendo por um momento que poderia se tratar de um terrorista em potencial. Garotinhas muçulmanas e velhinhos chineses sorriram e acenaram. A modelo eslovaca pediu delicadamente: “Posso tocar?”. E dezenas, literalmente dezenas, de pessoas soltaram aquele que ainda é o elogio supremo em Nova York: “Cool!”.

Uma cena simbólica para uma cidade que construiu o número recorde de 400 km de rodovias em quatro anos. E que descobriu que pedalar poderia ser a melhor maneira de contornar o baixo-astral causado por dois traumas recentes, o 11 de setembro de 2001 e a crise financeira de 2008.

Não por acaso, o destinatário daquela relíquia era o garoto-propaganda da revolução das bicicletas em Nova York. Não exatamente um garoto, mas um senhor de 59 anos, fala pacata e cabelos grisalhos – mais conhecido como o ex-líder do Talking Heads, uma das bandas mais influentes da história da música, e como o principal promotor de artistas brilhantes do mundo todo, em especial africanos e tropicalistas brasileiros como Tom Zé e Os Mutantes, através do selo Luaka Bop.

Mas, há tempos, David Byrne deixou de ser o “Psycho Killer” (título de seu maior sucesso), o Mr. World Music ou o sujeito que dançava esquisito com um terno três números maior no filme-concerto Stop Making Sense. Ele se tornou também o homem da bicicleta. Trinta anos atrás, Byrne pegou sua velha bike da adolescência na garagem da casa dos pais em Baltimore, tirou a poeira, levou-a para Nova York e acabou gostando da coisa. Passou a pedalar para todo canto, incluindo festas, exposições e os próprios shows.

Comprou também uma bike dobrável para levar em suas muitas viagens e usou-a como meio preferencial de transporte em cidades como Berlim, San Francisco, Roma, Istambul, Buenos Aires, Manila e muitas outras. Os relatos dessa experiência foram reunidos no livro Diários de bicicleta (Editora Manole – Selo Amarilys), que usa os passeios sobre duas rodas como ponto de partida para reflexões sobre arquitetura, urbanismo e “o que nós queremos das nossas cidades” – todos temas que já constavam em seu repertório no Talking Heads, vide, por exemplo, o álbum More songs about buildings and food (1978).

E, assim, o multiartista tornou-se, em suas próprias palavras, um “ativista relutante”. Em 2007, ele organizou um grande evento em Nova York sobre bicicleta e sustentabilidade, com debates, leituras de livros e alguns toques típicos de Byrne – como um coro de velhinhos cantando “Bycicle Race”, do Queen. Pouco depois, criou racks customizados para prender bicicletas nas ruas da cidade: o de Wall Street tinha forma de cifrão, o da Quinta Avenida, de sapato feminino e assim por diante.

Agora, ele pretende levar sua nova missão para a América Latina, em um tour por nove cidades, com duas paradas programadas para o Brasil. A primeira na Flip de Paraty, no dia 10 de julho, numa mesa com Eduardo Vasconcellos, especialista em planejamento urbano. A segunda no fórum “Cidades, bicicletas e o futuro da mobilidade”, dois dias depois, no Sesc Pinheiros, em São Paulo, em debate com três especialistas brasileiros ligados ao tema.

De certa forma, Byrne está fazendo hoje com a bicicleta o mesmo que realizou alguns anos atrás com os antigos discos de Tom Zé e de tantos outros: pegar um objeto que estava empoeirado, quase esquecido num canto, e mostrar ao mundo que aquilo é bacana, é moderno, é essencial. E, da mesma maneira que ele apresentou o compositor tropicalista para muitos jovens brasileiros, agora ele pretende lembrar aos nossos governantes e a nós mesmos que as ruas também são dos ciclistas.

Antes de viajar ao Brasil (onde ele pretende alugar uma bicicleta para pedalar pela costa de Paraty e pelas “avenidas insanas” de São Paulo), Byrne conversou com a Trip primeiro por e-mail e depois ao vivo em seu quartel general no SoHo, para onde ele vai todos os dias pedalando. Ali ele concebeu seus mais recentes projetos, como um novo disco com o velho parceiro Brian Eno e um musical sobre Imelda Marcos com Fatboy Slim. Já o Talking Heads ficou mesmo no passado, ele garante, descartando uma volta da banda.

Como muitos nova-iorquinos, Byrne ficou empolgado com a bicicleta modelo 1889, mesmo depois que nós revelamos para ele (e só para ele) que se tratava de uma réplica produzida 30 anos atrás na Califórnia. Ele teve o privilégio de subir nela para a sessão de fotos em seu escritório, mas não se arriscou a pedalar a traiçoeira “bone shaker” (balançadora de ossos), como a velha bike era conhecida. “Você sabe, eu não sou mais um garoto”, desculpou-se.

No caminho de volta até a loja onde a bicicleta foi alugada (a Frank’s Bike Shop, no 553 da Grand St.), um tiozinho porto-riquenho estaciona sua low rider e decreta: “Papi, você tem que pedalar um pouco! Esta bicicleta não pode voltar para casa virgem!”. Como se estivesse lidando com um garotinho, ele segura a bike para o repórter pedalar nos primeiros metros e o agarra antes que este se estabaque no chão de uma altura de quase 2 m. Definitivamente, Nova York não é mais a mesma.

Quando e como você adotou a bicicleta como seu transporte principal?
Foi há 30 anos. Começou como um experimento. Fui visitar meus pais, olhei para a minha bicicleta velha e pensei: “Por que não levá-la para Nova York?”. Minha vida na cidade era restrita a uma pequena área, então nem precisei lidar tanto com carros na rua, apenas com junkies e mendigos. Sempre havia algo para fazer – uma abertura de exposição de arte, uma festa, uma banda tocando… – e pedalar de um lado para o outro provou-se maravilhosamente eficiente.

Não devia ser uma cena muito comum na Manhattan dos anos 80…
Era uma coisa esquisita mesmo. Me chamavam de nerd, geek. As pessoas não entendiam, davam risada, mas uma ou outra mostrava-se receptiva. Eu pedalava até o Carneggie Hall para fazer um show e o pessoal da técnica dizia que eu podia guardar minha bicicleta lá dentro, que eles achariam um lugar para ela. Eles eram muito generosos.

Mas essa percepção mudou, não é? Nova York parece uma cidade amiga das bicicletas hoje.
Ainda é uma coisa de nerd, mas bem menos do que foi. A cidade ganhou ciclovias, bicicletários, o número de ciclistas aumentou e a presença deles não surpreende mais. E, por incrível que pareça, há menos acidentes também. Mais ciclistas, menos acidentes. Talvez não seja o que você esperaria, mas os números mostram isso. Estou vendo mais trabalhadores de bicicleta. Antes parecia que havia apenas jovens de Williamsburg [reduto de artistas no Brooklyn]. Ainda não há gente velha como eu [risos], mas já há pessoas não tão jovens, profissionais que vão a jantares, ou a shows, ou a eventos sociais com boas roupas, mas de bicicleta. Antes as pessoas de bicicleta eram consideradas guerrilheiras. Hoje vejo bicicletas em desfiles de moda, em vitrines, na publicidade… Isso significa que a imagem de casais bonitos e felizes em suas bicicletas está sendo inserida no zeitgeist cultural. Alguns irão resistir ao marketing, mas outros serão subliminarmente influenciados.

Ou seja, andar de bicicleta é cool agora. E você é o culpado.
[Risos] Não sei. Você vai ter que perguntar para outras pessoas. Acho que as garotas têm mais impacto do que os homens nessa questão.

Mais até que o David Byrne?
Ah, muito mais. As garotas estão liderando esse movimento. E os homens, claro, vão atrás.

Mas podemos ou não chamá-lo de um ativista da bicicleta?
Sou muito relutante em me considerar um ativista. Não gosto da ideia de dizer às outras pessoas o que elas devem fazer das suas vidas. Eu me sinto mais confortável contando às pessoas o que eu fiz da minha, como as coisas funcionaram ou não para mim, o que eu vi e aprendi. Eu tenho convicções fortes sobre esse tema, não apenas sobre bicicletas, como também sobre nossas cidades em geral. Mas eu tento não ser um deflagrador de rebeliões. Sinto que as pessoas saberão tomar suas próprias decisões. Se você disser a elas o que fazer, elas vão resistir. Se você mostrar a elas algo e deixá-las tomar as próprias decisões, fica mais fácil.

Posando para a Trip em seu escritório com a

Posando para a Trip em seu escritório com a "bone shaker" (Foto: Gil Inoue)

Você disse numa entrevista que muita gente ainda o reconhece como o cara do terno grande ou o cara do “Psycho Killer”. Em algum momento, você acredita que começará a ser reconhecido como o cara da bicicleta?

Sim. De certa forma, já está acontecendo. Estou no meio do caminho. Das pessoas que me param na rua, metade diz: “Eu gosto da sua música”. Mas a outra metade me fala: “Eu gosto do que você vem fazendo com as bicicletas”. É interessante ver como as coisas podem mudar. Talvez eu tenha a chance de não ser o “Psycho Killer” até o fim da minha vida.

Talvez o Cycle Killer…
[Risos] Verdade. Mas isso daria outro tipo de filme.

Vamos falar do seu livro. Como nasceu o Diários de bicicleta?
Eu sempre mantive um diário como forma de registrar pensamentos – pessoais ou não. É muito útil, e às vezes funciona como uma terapia também. Um editor e um livreiro notaram que vários relatos meus tinham a ver com pedalar por cidades diversas e perguntaram se eu poderia expandir e complementar os textos e transformá-los em um livro.

O título dele remete ao Diários de Motocicleta, de Che Guevara. Foi intencional? Você encara seu livro como uma obra política também?
É intencional fazer uma referência ao outro livro, mas como uma piada. A bicicleta não tem o caráter de aventura rebelde como a motocicleta. É uma maneira muito civilizada de circular por uma cidade, em vez de explorar todo um continente. Alguém pode fazer isso, claro, mas eu nunca empreendi uma dessas viagens longas. Por outro lado, há algumas similaridades entre os livros. O do Guevara é sobre um jovem descobrindo alguns tipos de relações no mundo pela primeira vez, entre o povo, governos, fazendeiros, comunidades, esse tipo de coisa. Meu livro tem algo parecido, não é tanto sobre bicicletas, mas sobre cidades, sobre como nós decidimos viver nelas, sobre como nós estamos lidando com problemas que criamos para nós mesmos no passado.

“A bicicleta pode ser o símbolo de uma revolução sem um evento violento ou repentino”

Mas você não acha que a bicicleta pode ser o símbolo não de uma grande revolução política, mas de uma revolução mais sutil, mais pacífica, de consciência?
Acho que sim. É um tipo de revolução em que cada um faz uma pequena mudança em sua vida. Se muitas pessoas tomarem a mesma decisão, em algum ponto você pode descobrir que tudo ficou diferente. Aí terá havido uma grande mudança na maneira como as pessoas vivem, sem um evento violento e repentino.

Há vários trechos no livro descrevendo cidades americanas que se tornaram “não lugares”, zonas sem vida, geralmente entrecortadas por grandes rodovias. Você acha que é possível reumanizá-las?
Completamente possível. Recentemente vi o ex-prefeito de Medellín [Colômbia] dar uma palestra mostrando exemplos de vizinhanças perdidas completamente transformadas por uma simples ação do governo: a construção de uma praça e de uma biblioteca. No Brasil também não faltam exemplos de comunidades transformadas pela cultura. Sobre as zonas abandonadas dos EUA, como os subúrbio de Atlanta, Phoenix, Los Angeles e Detroit, acho que elas podem voltar a ser pequenos vilarejos. Mas não precisa ser nenhum gênio para perceber que esses lugares estavam amaldiçoados desde o início. A bolha imobiliária que os povoou foi construída em cima de mentiras e recursos não renováveis.

Não se trata apenas de bicicletas e ciclovias então. O buraco é mais embaixo?
A questão fundamental é: como nós queremos viver nas nossas cidades? Temos lugares para caminhar? Temos acesso a outras partes da cidade? Temos a sensação de que somos prisioneiros da cidade ou de que ela pertence a nós? Acho que as respostas estão mudando rapidamente. Outro dia li um artigo noNew York Times sobre o UBS, um banco suíço gigante que se mudou para Connecticut depois do 11 de setembro, criou um enorme quartel-general nos subúrbios. Mas agora eles descobriram que as pessoas inteligentes que eles pretendem contratar não querem viver em Connecticut; querem morar em Manhattan ou no Brooklyn. Querem ter uma vida mais empolgante, perto de pessoas criativas. Isso é uma grande mudança. Desde os anos 50 existe essa ideia de que você tem que sair da cidade grande assim que juntar dinheiro suficiente. Você se mudava para o subúrbio e ia para a cidade trabalhar. Só que as coisas mudaram. Se as empresas quiserem ter funcionários de talento, eles têm que voltar. A maneira como as pessoas veem a cidade mudou. Elas a veem como um lugar excitante, cheio de energia, não só um lugar perigoso. Elas podem ter crianças na cidade, o que muitos achavam que não era possível até algum tempo atrás.

Você acha que o 11 de setembro e a crise financeira incitaram essa mudança de percepção? Fez as pessoas acharem que era hora de mudar alguma coisa em suas vidas?
Acho que sim. Sempre há muita resistência às mudanças. Infelizmente, na maior parte das vezes a resposta é encontrar alguém para culpar ou para atacar, em vez de perguntarmos como chegamos a determinado ponto. Eu encontro essas ilhas isoladas de otimismo, em lugares onde algo está sendo tentado. Na maioria dos lugares, nada foi feito. Ainda não existe regulação do sistema financeiro, três anos depois da crise. Mas eu acho que, finalmente os EUA começam a perceber que essas guerras que nós estamos criando, no Afeganistão, no Iraque, no Paquistão, não são de graça, que elas custam bilhões de dólares todos os dias. Enquanto havia uma bolha na economia, ninguém ligava. Agora que ela estourou, as pessoas ao menos estão perguntando por que gastamos tanto dinheiro para produzir mortes, por que não gastamos melhorando a situação do lugar onde vivemos. Acho que o país está lentamente virando as costas para essas guerras. E acho que isso aconteceu por causa da economia. Não é uma revelação espiritual. É uma questão de grana mesmo.

Há algumas pessoas do Queens e do Brooklyn reclamando que as ciclovias são para a elite de Manhattan, que não tem que vir de outros bairros para o centro, ou que os ciclistas atrapalham o fluxo do trânsito. O que você acha dessas reclamações?
Eu posso entender essas pessoas. Eu não sou um cara da classe operária. Eles veem os jovens de Williamsburg nas bicicletas e ficam pensando: “O que eles estão fazendo? Esses caras não trabalham? Por que eles estão no meu caminho?”. Há uma questão complexa de status por trás disso. Antigamente, quando você queria mostrar que era bem-sucedido, mesmo vindo da classe baixa, você comprava um carrão, para poder ser visto nele. A pessoa que andava de bicicleta era em geral pobre, porque não podia comprar um carro. Agora as coisas meio que viraram de ponta-cabeça. Você tem alguém como eu, que não se importa de não ter um carro. Há outros não tão velhos quanto eu com a mesma atitude, incluindo muitos profissionais bem-sucedidos. A questão de status ficou confusa: que classe social dirige um SUV? Que classe dirige uma bicicleta? Um Porsche ou um Cadillac? As pessoas ficam bravas quando os sinais são misturados.

Como mudar essa mentalidade dessas pessoas?
O desejo de ostentar não vai desaparecer, faz parte da própria seleção natural, do jogo sexual entre as espécies. Mas às vezes eu noto que o pessoal da bicicleta está criando uma sociedade mais cool, que implica um tipo diferente de status. Algo mais sutil, mais… musical.

Você usou duas vezes a frase “não tão velho quanto eu” na entrevista. Você está se sentindo velho?
Não. É só que eu sou mais velho que a maioria dos outros ciclistas.

Mas a experiência de andar de bicicleta está se tornando mais difícil?
Não. É muito fácil. As coisas não mudaram. Talvez, se eu fosse mais jovem, eu não me importaria de atravessar a ponte do Brooklyn no meio do inverno. Mas tenho amigos muito mais jovens que também reclamam. Não precisa ser um grande atleta para andar de bicicleta do jeito que eu ando. Dá para continuar pedalando até estar morto.

E como é o David Byrne ciclista? Atento às leis de trânsito?
Eu tento parar nos sinais vermelhos e nas placas de “pare” e pedalo na mesma direção do trânsito. Não ando nas calçadas para não assustar os pedestres. Posso não ser tão caxias ou aplicado nessas coisas, mas estou ciente de que a blogosfera está me vigiando. E eu sou visto como um tipo de representante da causa, então tenho que ter cuidado.

“O pessoal da bicicleta está criando uma sociedade com outro tipo de status. Algo mais sutil, mais musical”

Você usa capacete?
Em geral, não. Talvez eu devesse. Uso se vou para uma área de tráfego intenso, como o centro de Manhattan. Quando venho trabalhar, uso a ciclovia do rio Hudson, onde não há carros. E dou preferência às ruas que têm faixas para bicicletas.

Como você lida com a questão do suor? Não é um detalhe insignificante, certo?
Não mesmo. Eu mandei instalar um chuveiro aqui no escritório. Não é uma solução perfeita. Eu tive que negociar com a administração do prédio. Eles ficaram preocupados, porque acharam que alguém ia morar aqui, e é um prédio exclusivamente comercial. Mas não resolve o problema se você vai a uma reunião no verão. Então não há resposta perfeita para essa pergunta.

Não há nenhuma menção a acidentes no seu livro. Você já sofreu algum?
Nada muito grave. O único que tive foi num dia que ia para casa depois de beber. Estava numa dessas ruas de paralelepípedos, olhei em volta para procurar uma pessoa e caí da bicicleta. Quebrei duas costelas.

Você já foi atingido por um carro?
Não. Eu sou cuidadoso. E [batendo na madeira da janela três vezes] sortudo, eu acho.

Como são suas palestras sobre o assunto?
Em geral, falo sobre minha experiência, mas também sobre como as coisas chegaram ao ponto em que estão, dou um pouco do contexto da situação que vivemos hoje nas nossas cidades. Falo também um pouco de lugares que estão testando inovações em infraestrutura, ciclovias, parques, ruas para pedestres, esse tipo de coisa. Em geral há outras pessoas na palestra, um político local, às vezes alguém do departamento de trânsito, algum ativista sério de uma organização da cidade, um teórico que possa falar da história da cidade.

Diferentemente dessas pessoas, seu conhecimento sobre o tema é empírico. Você acha que ser um artista famoso o autoriza a falar sobre qualquer coisa e, mais que isso, ser ouvido?
Eu não falo como um expert. Estou, na verdade, convidando os experts a se juntarem a mim e escutarem o que eu tenho a dizer. Sim, meu conhecimento é apenas empírico, vem da minha experiência, o que é bom para contar história, mas não tão eficaz na hora de lidar com burocracias. Meus instintos me levam a perguntar por que as coisas estão desse jeito, como elas ficaram assim, o que isso significa, quem tomou as decisões… Mas as respostas geralmente vêm de outros que gastaram mais tempo investigando essas coisas.

Ouvimos dizer que você já pedalou com Caetano Veloso e Margareth Menezes em Salvador. É verdade? O Caetano não é conhecido exatamente como um tipo esportivo…
[Risos] É verdade, mas eu também não sou. Eu estava visitando Salvador num Ano-novo. Perguntei ao Caetano ou à Paula Lavigne se eu poderia alugar uma bicicleta. Eles disseram que sim. Eu e minha namorada ficamos pedalando por uns dias, nas ciclovias da costa. Um dia eles me disseram que havia uma bela ciclovia em uma reserva natural no meio da cidade e decidiram que iriam juntos! [Risos.]

Pelo visto, você achou tão curioso quanto eu…
Sim! E eu não sabia que a Margareth iria, e ela apareceu lá. No fim das contas, deu tudo certo. Fizemos o passeio completo. Era uma ciclovia bem suave.

Você já pedalou em São Paulo?
Sim, já pedalei por lá.

E como foi?
Nas grandes avenidas, foi meio insano. Mas nas ruas menores, vendo o mapa no seu celular, dá para andar.

Com a sua experiência, que sugestões daria para que São Paulo fosse uma cidade mais “bicicletável”?
Eu acho que não explorei a cidade o suficiente numa bicicleta para dar palpite. Mas eu espero que as outras pessoas que vão participar do evento tenham boas respostas. Ou pelo menos algumas propostas. Por isso eu as convidei. Elas conhecem bem a cidade.

Você diz no livro que a arquitetura é uma boa maneira de ver o que uma cidade quer do seu futuro. O que você concluiu da arquitetura de São Paulo?
É uma cidade tão grande que é impossível para mim entendê-la completamente. Há uma área de arranha-céus, depois vem outra. No começo, elas me pareciam exatamente iguais. Então algum local me dizia: essa é mais rica que a outra. Daí havia áreas verdes e outras com antigas fábricas… Não sei. Eu nunca fiquei lá tempo o suficiente para formar um mapa mental de São Paulo. As pessoas de lá devem saber o que cada bairro significa. Mas, como estrangeiro, eu nunca entendi.

“Andar de bicicleta é uma forma de meditação, permite que as intuições venham à tona”

Até para nós é difícil entender… Qual foi a melhor e a pior cidade para andar de bicicleta que você já conheceu?
A pior até agora foi Hong Kong. Não há um sentido de vida comunitária. É tudo uma questão de fazer dinheiro. Pode ser um exagero, mas é o que eu senti. Não há parques, nem pequenos. Não há espaço para a cidade respirar. E, claro, não há ciclovias. Você deve supor que a melhor seria Copenhague ou Amsterdã, em que a bicicleta está integrada a todo sistema de transporte. Mas é algo que você espera dessas cidades. É muito mais interessante quando você é surpreendido por cidades como Roma ou Istambul, que podem ser exploradas de forma relativamente fácil, mas onde não há ninguém mais andando de bicicleta. Os motoristas desses lugares podem ser agressivos, mas o trânsito é tão ruim que eles não podem ir muito rápido.

Você quer dizer que um trânsito mais agressivo pode tornar a experiência da bicicleta mais desafiadora?
Essa é uma ideia que tem um paralelo frequente: a de que a criatividade nasce da repressão, do esforço, de circunstâncias difíceis. E que, se nossas vidas fossem fáceis, a gente nunca criaria nada, nunca escreveria uma música, só curtiria o pôr do sol. Eu não acho que seja verdade. Certas coisas não aconteceriam numa situação mais confortável, mas eu acho que existe uma necessidade humana de sempre tentar alguma coisas. Às vezes em resposta a uma situação de risco, mas às vezes simplesmente para melhorar as relações com outras pessoas.

Você já compôs alguma música enquanto pedalava?
Alguns trechos. Às vezes ando com um pequeno gravador, às vezes gravo no celular mesmo alguma ideia, uma letra ou alguma melodia. Mas não é tão comum assim. É meio perigoso segurar o gravador, achar o botão certo para apertar e ainda guiar a bicicleta. Eu não recomendo a ninguém.

Você escreveu no livro que a bicicleta o conduz a um estado meditativo. Como isso funciona?
Como não me exige muito fisicamente e como em geral não estou no meio do tráfego, a bicicleta acaba sendo um bom momento para pensar nas coisas em que estou trabalhando. É uma boa maneira de refletir, porque uma parte do cérebro está concentrada em dirigir a bicicleta, o que é algo automático, e a outra parte pode deixar que as ideias fluam naturalmente, que algumas intuições ou coisas inconscientes venham à tona.

Lendo o livro, temos a impressão de que ele foi escrito por um não americano. Você nasceu na Escócia, mas cresceu em Baltimore e é considerado um artista americano. De onde vem esse olhar estrangeiro?
Apesar de ter crescido aqui, meus pais são estrangeiros – e, nesse sentido, eu também sou um pouco. Como imigrante, você adota certas partes de seu novo mundo e outras nem tanto. Você vê certas coisas a distância, de fora.

Esse é ponto de vista importante para um artista, não?
Sim, para mim foi muito valioso.

Numa entrevista, você disse que não se sentia muito feliz na época do Talking Heads. Você se sente melhor agora?
Sim, claro. Por exemplo, antigamente eu me sentia mais desconfortável nos shows ao vivo. Agora eu tenho mais prazer. Não sei se é melhor para o público, mas para mim é muito mais fácil. Não tem nada a ver com problemas pessoais com outros integrantes da banda. Tem a ver com minhas questões psicológicas, em me sentir mais confortável na minha pele.

A bicicleta tem algo a ver com isso?
Um pouco. Ela representa um momento de relaxamento todo dia.

Em várias de suas músicas, você fala da dificuldade de se sentir em casa em qualquer parte do mundo. Mas lendo seu livro fica a impressão de que encontra um lar sempre que está em cima de uma bicicleta, seja em que cidade estiver. Faz sentido?
Faz. Para muitos de nós agora o lar não é um lugar específico, apesar de eu tentar tornar minha casa confortável. O lar está dentro de uma comunidade, real ou conectada pela internet. E frequentemente ele está em movimento.

Você tem carro?
Não. Tive um bem velho quando morei em Los Angeles na década de 80.

Algumas cidades proibiram carros em seus centros. O que você acha disso?
Acho legal, mas não é absolutamente necessário. Aprendemos que nossa contínua adaptação ao carro não resolveu o problema – novas rodovias são construídas para acomodar a expansão da frota de carros, estacionamentos são sempre um pesadelo, os gases e o calor gerado tornam as cidades desagradáveis… Você sabia que é sempre 5 graus mais quente nas ruas onde há carros? Adaptação não é a solução, um novo caminho deve ser tomado.

A gente está ouvindo as buzinas das pessoas paradas no tráfego logo aqui embaixo. E você escreveu que, de certa forma, congestionamentos podem ser bons para as bicicletas. Pensando em São Paulo, como isso funcionaria?
É um pensamento do [urbanista dinamarquês] Jan Gehl. Ele diz que alguns problemas de tráfego simplesmente não podem ser consertados. Não adianta ampliar a rua ou aumentar o número de vias, porque você acaba transformando a cidade em uma grande avenida, e ela vai acabar ficando congestionada também. A coisa nunca termina. As pessoas acabam se perguntando: eu posso ficar aqui apertando a buzina no calor por quatro horas ou posso pegar um trem e chegar em casa em 15 min. O que eu devo fazer? Se você sempre tenta acomodar o tráfego, você nunca vai conseguir vencer. O congestionamento é bom porque obriga as pessoas a procurar algo melhor para elas, a pensar em alternativas. Olá, São Paulo! [Risos.]

 

  • Eco Consciencia

    Excelente entrevista.