Artigo: Veículos de segunda mão nos países em desenvolvimento

Veículos importados de segunda mão estão invadindo os países em desenvolvimento. Foto: EMBARQ

Veículos importados de segunda mão (ISV, na sigla em inglês) estão sendo enviados para todo o mundo. Da Bélgica a Benin, dos Estados Unidos até a Ucrânia. De 1997 a 2007, a quantidade de veículos de segunda mão vendidos no mundo cresceu de 1.243.140 para 4.778.657, um aumento de 284%. O valor bruto dessas vendas é de aproximadamente US$ 9 bilhões por ano. Esses veículos representam uma porcentagem crescente da frota de muitos países em desenvolvimento, embora levem a acidentes rodoviários mortais, sejam menos econômicos e contribuam para a má qualidade do ar.

A EMBARQ, produtora deste blog, concentra sua atenção nos países em desenvolvimento por causa da tendência alarmante de motorização em países com baixa renda per capta. Como as nações desenvolvidas criam regulamentos veiculares mais rigorosos quanto à sustentabilidade e à mecânica, os cidadãos são forçados a parar de dirigir seus carros e caminhões mais antigos. Como resultado, clientes ansiosos do mundo em desenvolvimento foram tirando esses veículos de segunda mão das prateleiras. “É muito barato importar veículos e já existe uma indústria em evolução. Países da América do Sul compram veículos da Ásia, porque seus preços são atraentes. Acho que este mundo globalizado está favorecendo esse mercado”, explica Jorge Macias do Centro de Transporte Sustentável do México (CTS México).

O governo do Peru debateu recentemente a questão da importação de veículos usados. “O Peru é um país moderno, com crescimento econômico incrível, e não um jardim de sucata. Por muitos anos importamos veículos usados, mudando o volante de um lado para o outro, falsificando a idade dos carros. Precisamos de uma frota moderna de automóveis”, advertiu o ministro do meio ambiente do Peru, Antonio Brack Egg. Atualmente, existem mais de 500.000 veículos com mais de 15 anos nas ruas do Peru. Os importadores e os vendedores são criativos, “você não precisa nem importar o veículo inteiro. Há casos, no Peru, onde eles importam só o motor e o instalam em um chassi novo, e então vendem como veículos novos, quando são, na verdade, veículos muito antigos e altamente poluentes”, acrescentou Macias.

De longe, o maior fluxo de veículos usados no mundo está entre os Estados Unidos e México. O CTS México, em colaboração com a Organização para a Cooperação Econômica e Desenvolvimento (OECD, na sigla em inglês), está atualmente produzindo um estudo sobre esse comércio, intitulado ‘Manual de Políticas para Veículos Importados de Segunda Mão’. “O México é o estudo de caso mais representativo, pois mostra a tendência que outros países poderiam seguir e isso é muito preocupante”, alerta Macias. Em 2005, o México começou a permitir a venda de usados a partir de um acordo comercial assinado pelo então presidente Vicente Fox. A frota de automóveis do México está crescendo a um ritmo alarmante, de 1997 a 2007 a quantidade de carros triplicou, passando de 8 milhões em 1996 para 24 milhões em 2006. Nos EUA, um veículo que não passar no teste de emissões não pode ser utilizado, portanto não tem nenhum valor para o proprietário. Porém, esse mesmo automóvel pode ser vendido com um bom lucro na fronteira com o México. Um Ford Explorer 2000 em bom estado com um valor de US$ 1.750 no Guia Oficial Kelly Blue Book pode ser vendido no México por US$ 5.406, o estudo conclui.

Para os mexicanos com baixa renda, os ISV representam um substituto acessível para o transporte público ineficiente. Nos subúrbios periféricos das cidades mexicanas, microônibus informais e de baixa qualidade, ônibus, vans e picapes servem como a principal forma de transporte público porque não há outras opções disponíveis. Os veículos novos estão fora da faixa de preço acessível aos mexicanos de baixa renda. A combinação desses preços com o transporte público ineficiente fez as vendas de veículos usados subir nos últimos anos. “ISV estão em concorrência direta com o transporte público. Normalmente quem usa o transporte público são as pessoas de baixa renda, que são as mesmas que compram carros usados”, continua Macias. Essa parcela da população gasta cerca de 60% da suas despesas de locomoção com o transporte público em comparação com 12% gastos pelos mexicanos de maior renda, segundo o estudo.

Devido ao aumento dos preços do combustível, motoristas nos Estados Unidos têm trocado seus carros “beberrões” de gasolina por híbridos mais eficientes e por carros compactos. Os dez carros mais trocados em 2009 pelo sistema ‘Car Allowance Rebate’ (CARS), instituído pelo governo federal dos EUA, foram os mesmos 10 primeiros ISV vendidos no México entre 2005 e 2008. Os motoristas mexicanos não foram afetados pelos preços voláteis do petróleo devido ao subsídio fornecido pelo governo federal ao combustível, por isso eles não hesitam em comprar um veículo ineficiente. “Todo veículo que entra no México é um aumento no subsídio, que representa 50% das despesas do país na educação. Se você tiver um Hummer e usá-lo normalmente, você recebe um subsídio mensal de US$ 180. Comparado com o programa de diminuição da pobreza ‘Oportunidades’, uma família de 4 pessoas receberia US$ 50 por mês. Isso nos faz perceber quão injusta é a política de subsídios. Nossas políticas estão minando o transportes sustentável; estamos subsidiando um país altamente motorizado e poluente”, argumenta Macias. A OECD calculou os gastos do Fundo de Estabilização do Combustível e viu que o resultado é mais de duas vezes a quantia gasta em campanhas de combate à pobreza e 1,4 vezes o orçamento da saúde.

Top 10 de veículos descartados para desmonte nos EUA corresponde ao Top 10 de ISV mais comprados no México. Imagem: CTS México

As emissões dos ISV são significativamente maiores do que as dos veículos novos. As de um Ford Explorer 2000, por exemplo, são absurdamente maiores que as de um Explorer 2010: em gramas por quilômetro, um Ford Explorer 2000 emite 94% mais Óxido de Nitrogênio, 62% mais Dióxido de Carbono, e produz 83% mais nuvens de poluição (em toneladas por 15.000 milhas por ano). O mais alarmante é que os SUVs, vans e caminhões leves – veículos de combustível ineficiente – compõem 69% da frota de ISV vendidos em 2008, em comparação com 31% de carros compactos. A frota de veículos novos, dos quais 65% são carros compactos, deve ter uma eficiência de combustível média de 16 km por litro até 2024, em comparação com 7 km por litro para os ISV, de acordo com o estudo do CTS México.

O Centro de Transporte Sustentável do México acredita que suas recomendações sobre políticas servirão como um guia valioso para outros países. O CTS recomenda que o México exija a inspeção e manutenção dos veículos, bem como a capital do país fez. Atualmente, a Cidade do México tem a frota mais limpa e mais nova do país, reduzindo, desde 1994, as emissões pela metade, mesmo dobrando sua frota de veículos. O governo precisa exigir padrões mais elevados para os veículos importados, porque muitos deles teriam sido demolidos em seu país de origem se não fosse autorizada a importação nos países em desenvolvimento. O México deveria implementar um programa de seguro obrigatório. O pagamento de um seguro automotivo obrigatório iria desencorajar os motoristas a comprar um veículo barato de segunda mão. Por fim, os programas governamentais como o CARS, que destrói os veículos velhos recolhidos em trocas comerciais para evitar que sejam revendidos, são benéficos para auxiliar na renovação da frota. Macias espera que o estudo desenvolvido pelo CTS México ajudará a conter o fluxo de veículos perigosos, poluentes, e de combustível ineficientes nos países em fase de industrialização.

Nos últimos quatro anos, a mídia deu grande atenção à pavorosa guerra das drogas que surgiu no México e às 34.600 mortes causadas pela violência dos cartéis de droga, porém, no mesmo período, 68.000 vidas foram perdidas em colisões de trânsito. Há uma aceitação tácita dos acidentes de trânsito, apesar de sua devastação. Enquanto o mundo continua com seu padrão de motorização, as mortes no trânsito deverão aumentar 65% entre 2000 e 2020. Existem atualmente 1,3 milhões de mortes na estrada por ano. Como os ISV têm invadido os países em desenvolvimento, a população, especialmente os jovens e pobres, torna-se ainda mais vulnerável a acidentes rodoviários.