Entrevista especial com Guillermo Peñalosa

Guillermo Peñalosa durante o TEDxCeiba (Foto: TEDxCeiba)

Esta entrevista foi originalmente publicada no site do concurso Cidades Ativas, Cidades Saudáveis, em 14 de junho de 2011.

Reconhecido internacionalmente como consultor de cidades e estrategista de marketing social, Guillermo Peñalosa é apaixonado pelo conceito de criar cidades para as pessoas. Com o objetivo de melhorar a qualidade de vida de todos, Guillermo compartilha pelo mundo todo seu conhecimento e experiência em design e gestão de parques, espaços públicos e infraestrutura para mobilidade de pedestres e ciclistas.

Como diretor executivo do 8-80 Cities, organização canadense sem fins lucrativos, seu compromisso está focado no objetivo principal de criar comunidades mais saudáveis e competitivas. É um palestrante solicitado em diferentes eventos ao redor do mundo. Como Diretor de Parques, Esportes e Recreação da cidade de Bogotá (Colômbia) liderou o desenvolvimento e a construção de mais de 200 parques, dos quais, Simon Bolívar, onde criou o Festival de Verão. Relançou a Ciclovia Dominical, passando de 13 para 121 km onde mais de 1,3 milhões de pessoas desfrutam do espaço a cada domingo. É consultor sênior da conhecida empresa Danesa Gehl Architects e membro das Ciclovias Recreativas das Américas e do Conselho de Administração da City Parks Alliance. Mestre em Administração de Empresas da Escola de Administração da Universidade da Califórnia Los Angeles, recebeu diversas premiações, incluindo a medalha de Alta Honra no Ministério de Educação e Esportes da Colômbia e o prêmio de Excelência French Kirk Spirit Award, na cidade de Mississauga, Canadá. Nessa entrevista especial, Peñalosa fala sobre temas de mobilidade urbana, os desafios e a busca por soluções nos espaços públicos.

1) Dada a sua experiência mundial em questões de espaço público e cidades voltadas para pessoas, acredita que na América Latina as bicicletas, as pessoas e os lugares voltarão a ser muito importantes na cidade?

Não tenho dúvidas de que as pessoas, o uso das bicicletas e os espaços públicos como as praças serão muito importantes na qualidade de vida na América Latina. Na história da humanidade, buscamos ter uma expectativa de vida de 33 anos, em 1800, na América Latina; nos últimos 200 anos mais do que dobramos esse número, chegando a 72 anos. Obviamente, nós aprendemos a sobreviver, agora devemos aprender a viver e esses elementos serão muito importantes.

 

2) Acredita que o “sonho” do carro próprio é mais um pesadelo?

O sonho do carro próprio para todos os cidadãos não é só um pesadelo, como também não é viável como uma solução para o problema da mobilidade. Por exemplo, em Bogotá, vão chegar este ano 150.000 carros novos. Supondo que sejam necessários 10 metros de espaço por carro, necessita-se de 1.500 metros de pista, ou 1,5 km, e isso para o carro estacionado; isso é equivalente à distância de Miami a Nova York. Se em movimento, são necessários 30 metros por carro, esses automóveis adicionais vão precisar de mais 4.500 km de novas estradas para que a cidade permaneça igual, sem melhorar em nada a mobilidade. Construir menos quilômetros prejudicaria a mobilidade e só construindo mais a melhoraria. É economicamente, financeiramente e fisicamente impossível de realizar isto. Uma situação semelhante está ocorrendo em todas as cidades latino-americanas. A única solução de mobilidade, melhorando o ambiente, é o transporte público; não há uma única cidade do planeta, de médio ou grande porte, que tenha solucionado o problema de mobilidade focando no automóvel privado.
Por outro lado, sendo o transporte público a solução, devemos perceber que em nenhum lugar o sistema pega os passageiros em seus pontos de origem e os leva para o ponto exato de destino; por isso que as cidades precisam ser amáveis com pedestres e ciclistas para complementar a mobilidade. A vantagem de ter um transporte público excelente com uma rede maravilhosa e segura para os ciclistas e infraestrutura para os pedestres de todas as idades, é que, além de melhorar a mobilidade, quase como um “presente”, temos comunidades saudáveis, ar mais puro, mais desenvolvimento econômico e cidadãos felizes.

 

3) O que você acha do concurso CACS?

O concurso Cidades Ativas, Cidades Saudáveis ​​é excelente porque cumpre muitos objetivos. Ele acontece desde 2002 e cada vez se torna mais interessante e útil. A versão 2011 oferece um reconhecimento grande aos vencedores a nível de América Latina e Caribe. Entretanto, atinge muitos outros objetivos, como o aumento do nível de discussão e da participação do cidadão, além de educar e motivar pessoas de diferentes áreas, experiências e interesses. Todas as cidades podem aprender com sucessos e fracassos das outras, para imitar uns e evitar outros.

 

4) Sobre quais projetos da sua organização 80-80 para 2011-2012 você pode nos contar?

Temos muitos projetos no 8-80 Cities para esses anos, com o intuito de contribuir para a criação de cidades vibrantes, com comunidades saudáveis, onde seus habitantes sejam mais felizes desfrutando de locais públicos maravilhosos.

Por exemplo, o Ministério da Saúde de Ontário acaba de nos outorgar recursos importantes (a concessão) para trabalhar com processos de participação comunitária e melhorar espaços públicos, que por sua vez, melhoram os níveis de atividade física; isso tem a ver com infraestrutura e com utilização e atividades, hardware e software. Fazemos isso através de um processo chamado Recriando Espaços Públicos. Vamos continuar realizando apresentações inspiradoras em todos os continentes, abordando questões ligadas a pedestres, uso da bicicleta, parques, ruas e outros espaços públicos. Estamos desenvolvendo também oficinas para treinar e capacitar pessoas, tanto no setor público e privado e ONG’s. Por fim, estamos vinculados a projetos da dinamarquesa Gehl Architects, que tem ampla experiência na construção de cidades para as pessoas.
Como uma organização sem fins lucrativos sediada em Toronto, esperamos contribuir para “plantar sementes” que exigem cuidado de pessoas e organizações locais para “brotem e floresçam “, melhorando a qualidade de vida das pessoas, especialmente a dos mais vulneráveis, que ​são as crianças, os idosos e os pobres.