“O momento para o transporte sustentável nas cidades brasileiras é agora”

Transmilenio - Bogotá, Colômbia (Foto: Cachaco de Modelia)

Por Luis Antonio Lindau, PhD, Presidente da EMBARQ Brasil

Líderes das maiores cidades do mundo reúnem-se esta semana, em São Paulo, durante o C40 São Paulo Summit. Prefeitos, altos funcionários, empresários, todos com um objetivo claro: o compromisso em discutir e encontrar soluções para as mudanças climáticas .

Este é um momento crucial para as mega-cidades de todo planeta, não somente para as brasileiras. O mundo defronta-se com o peso da rápida motorização e do crescimento acelerado das cidades, o que nos leva a muitos outros problemas, tais como aquecimento global, poluição do ar, congestionamento e falta de acesso ao trabalho. Pela primeira vez na história, cidades tornaram-se lar de mais da metade da população mundial e representam mais de 70% das emissões mundiais de gases de efeito estufa. Estas duas tendências criam uma oportunidade sem precedentes para políticas que favoreçam o transporte sustentável e o desenvolvimento urbano.

No Brasil, especificamente, diversos fatores justificam considerar esta oportunidade única. As elevadas taxas de crescimento econômico e de consumo exigem maiores investimentos em energia, saneamento, habitação e, naturalmente, em transporte coletivo. O Brasil será em breve o centro dos dois eventos mais assistidos do planeta: a Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos de 2016. Planejadores urbanos e de transporte estão trabalhando pesado para melhorar a infraestrutura urbana de modo a suportar os milhões de visitantes esperados. Ao longo dos próximos anos, muitas das viagens em transporte coletivo serão feitas através do sistema conhecido como BRT (Bus Rapid Transit), criado por Curitiba nos anos 70 e hoje modelo para as cidades do mundo como transporte de qualidade e baixa emissão de carbono. Alguns dos corredores de BRT, como os em construção no Rio de Janeiro e Belo Horizonte, irão atender picos de demanda acima de 30 mil passageiros por hora. O BRT melhora a mobilidade ao mesmo tempo que também reduz a poluição atmosférica, as emissões de gases de efeito estufa, ruídos e acidentes de trânsito. Além disso, tem um custo de implantação até 90% menor do que um sistema de metrô.

Por causa destes benefícios, as 12 cidades-sede da Copa do Mundo planejam construir 500 km de corredores BRT, quase duplicando o número atual em todo o continente. Ao mesmo tempo em que investem em BRT, as cidades brasileiras constroem novas vias, ciclovias, viadutos, metrôs e outros sistemas ferroviários, com o objetivo de criar opções de transporte realmente integradas. Algumas destas melhorias proporcionarão às pessoas que vivem em bairros de acesso limitado ao transporte coletivo, um considerável avanço em relação à situação atual, que, além de injusta, é insustentável.

EMBARQ-Brasil, uma organização sem fins lucrativos, criada em 2005, ajuda a desenvolver sistemas integrados de transporte de baixo carbono em diversas cidades brasileiras, incluindo Porto Alegre, Curitiba, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. Nossa experiência revela que não podemos esperar que cidades ajam sozinhas. Elas também precisam contar com a cooperação regional para serem bem sucedidas. É por isso que a EMBARQ ajudou a criar a Associação Latino-Americana de Transporte Integrado e Sistemas de Bus Rapid Transit (SIBRT) , uma organização decidida a compartilhar as melhores práticas e fortalecer as agências de transporte mais importantes da América Latina.

Através do transporte sustentável também é possível ajudar a resolver uma outra epidemia global: o alto número de mortes em vias perigosas. Cerca de 1,3 milhão de pessoas em todo o mundo morrem em acidentes rodoviários todos os anos, e este número dobrará provavelmente até 2030. Acidentes viários são a principal causa de morte de pessoas entre 10-24 anos. Pedestres, ciclistas e motociclistas são especialmente vulneráveis. No Brasil, 23 pessoas morrem diariamente em acidentes com motocicletas, respondendo por quase um terço de todas as mortes no trânsito. Isto é inaceitável e pode ser evitado através de melhores projetos viários, bem como de melhores opções de transporte.

Num esforço para mudar esta realidade, a Rede EMBARQ orgulha-se de ser membro do Programa Global para a Segurança Viária da Bloomberg Philanthropy, estabelecido pelo prefeito de Nova Iorque, Michael Bloomberg, que também é presidente do C40 Cities Climate Leadership Group. Com os olhos do mundo voltados para o Brasil, temos que aproveitar esta oportunidade para assumir o papel de liderança que nos corresponde no campo do transporte sustentável. Melhorias em nosso ambiente viário urbano não só acomodarão milhares de turistas, mas também beneficiarão os milhões de brasileiros com um transporte mais sustentável: menos emissões de gases de efeito estufa, ar mais limpo, vias mais seguras e maiores inclusões sociais e econômicas.